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Quarta-feira, 07 de setembro de 2005 - 09h57m

Agronegócio > Economia

Quem paga o pato?



Por Roberto Sahium *

A globalização da economia, aliada à restrição de subsídios de crédito agrícola no País, tem conduzido à estabilização dos preços pagos aos produtores rurais e até mesmo à sua redução. Senão vejamos: num passado não muito distante, no início do Plano Real, lá pelos anos de 1995 a 2000, o pecuarista dispunha de 100 bezerros para poder comprar uma camionete do ano; hoje, este mesmo pecuarista necessita vender quatrocentas – quatro vezes mais animais – para locomover-se em uma camionete do ano.


Não acreditam, né? Então façamos as contas: um bezerro, naquele período, custava em média R$ 400,00 e uma camionete, a mais chique da época, custava em torno de R$ 38 mil. Uma simples continha de dividir permite constatar que cem bezerros valiam, no mercado, algo próximo a R$ 40 mil. Viram? Esse dinheiro dava para comprar uma camionete zerada e ainda sobravam “dois mil contos” para gastar em festas. Atualmente uma camionete, ou melhor, uma “pick-up”, das grã-finas, custa perto de R$ 100 mil. Já o bezerro está sendo comercializado a R$ 275,00, isto é, temos de entregar uma boiada do tamanho de quase a metade de mil cabeças para garantir o direito de botar o traseiro em uma camionete de 140 cavalos de potência.

No mesmo período, mil metros de arame, necessários para as divisões das pastagens, custavam em torno de R$ 50,00; atualmente, nos balcões das melhores lojas do ramo, seu valor é R$ 221,00.

A tonelada do calcário, imprescindível para a correção da acidez dos solos de cerrado, custava naquela época, R$ 15,00. O agricultor ou o pecuarista que desejar reformar suas pastagens tinham de desembolsar um valor médio de R$ 37,77 a tonelada desse insumo. E isso, sem considerar o valor do frete, cujo principal componente – o óleo diesel – custava, naqueles tempos, R$0,96/litro e, hoje, vale R$ 1,75: 83% de aumento. Dá para imaginarmos para onde foi o preço do frete, não?

Na contra mão dessa via de custos de produção, sempre em alta, como no linguajar do nosso povo, “subindo ladeira acima”, vêm os preços dos produtos pagos aos agricultores e pecuaristas: “descendo ladeira abaixo”.

Com base em cálculos simplórios, a saca de 60 kg do arroz nosso de cada dia custa ao produtor a bagatela de R$ 27,00, com valor de venda – após muita luta – de R$ 20,00. Para o agricultor, a queda do preço do arroz foi superior a 33,33%. Já nos balcões dos varejistas, para o consumidor final, o arroz descascado não baixou mais do que 15%.

Mesmo assim o produtor rural, responsável pela manutenção dos preços baixos do algodão da calça jeans, aquela que é usada por todo mundo, continua produzindo com qualidade, reconhecida a melhor do mundo, vendendo-o por algo em torno de R$ 33,00 a arroba (15 quilogramas), que dá para fazer cinco calças, das boas. E garante o emprego da Gisele Bündchen, é claro.

E o que dizer da nossa cervejinha sagrada, dos fins de tarde, que é fabricada com a cevada que se transforma em malte, depois é adicionada ao lúpulo e a 60% de arroz ou de milho, de onde vem? Dos campos, é claro, produzida por agricultores...

O pão, o café, o suco, a picanha, de onde vêm? E o álcool, combustível de veículos e até de alguns humanos?

Vocês já comeram hoje? Que tal um ovinho frito com beiju... bom demais! Pois é, agradeçam ao Produtor Rural.

Afinal, que globalização é esta, que só cobra de alguns? Por que somente o produtor rural, que acorda cedo, não tem férias, 13o salário, FGTS, não tem moleza, dá um duro danado e somente ele é quem paga o pato?



* engenheiro agrônomo, e Secretário da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Tocantins


Fonte: Sônia Pugas
















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