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Quarta-feira, 07 de setembro de 2005 - 13h45m

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Consorciação de gramíneas e leguminosas forrageiras em pastagens na Amazônia



Por Ana Karina Dias Salman *

Um assunto cada vez mais freqüente nos noticiários são as transformações climáticas observas no mundo nos últimos anos. E a velocidade e a forma implacável e destruidora com que essas mudanças estão acontecendo estão deixando o mundo em alerta. O exercício da agricultura e da pecuária tem sua parcela de participação nesses fenômenos de transformação da paisagem e do clima. A remoção da vegetação natural para uso em atividades agrícolas e na pecuária rompe o equilíbrio natural do meio ambiente (água-solo-planta) e originando o fenômeno denominado de erosão, que consiste na remoção de nutrientes, microrganismos e constituintes físicos do solo. O processo erosivo inicia-se com a utilização inadequada e, ou pelo uso excessivo do solo. A princípio, a erosão atinge apenas superficialmente o solo e permanece imperceptível durante os primeiros estágios. Porém, com o tempo esse desgaste do solo é responsável por uma drástica redução nos índices produtivos e por grandes prejuízos aos agricultores e pecuaristas.


Na região Amazônica, devido a grande disponibilidade de área, verifica-se que após a exaustão dos recursos naturais do solo e a perda da produtividade há o abandono da área empobrecida para a busca de outras inexploradas. Este tipo de sistema de produção extrativista e itinerante leva ao aumento não só de áreas abandonadas consideradas degradadas ou inapropriadas para uso na agricultura ou pecuária, mas também ao aumento do desmatamento.

Considerando-se os dados mais recentes sobre desmatamentos para a formação de pastagens na Amazônia Legal, estima-se que a derrubada anual atinge quase um milhão de hectares para a manutenção do rebanho atualmente explorado. No caso específico do estado de Rondônia, estima-se que cerca de cinco milhões de hectares de floresta estão ocupados atualmente com pastagens cultivadas. Desta área, pelo menos 40% apresentam-se em diferentes estágios de degradação, o que leva a necessidade da derrubada de novas áreas de florestas para a manutenção dos rebanhos.

O processo de degradação se manifesta pela queda gradual e constante de produtividade dos capins nas pastagens devido a vários fatores como a baixa adaptabilidade da espécie forrageira, a baixa fertilidade dos solos e ao manejo inadequado das pastagens, o que acarreta no aparecimento de plantas invasoras. Isto leva à necessidade de se adotar medidas de limpeza através do uso do fogo que apesar de prático e barato é altamente danoso ao solo e ao equilíbrio do ambiente. Além do controle de plantas invasoras, a utilização do fogo em pastagens cultivadas tem como objetivo eliminar restos de material seco e com grande proporção de talos que não foram consumidos pelos animais durante o período seco e, ao mesmo tempo, proporcionar a rebrota da forragem com melhor qualidade.

Os principais danos causados pelas queimadas e pelos desmatamentos estão relacionados com a destruição da vegetação nativa, a morte de animais, a extinção local de espécies, a perda de matéria orgânica no solo e a sua exposição à erosão. Além disso, contribuem também para o aumento do efeito estufa devido à liberação de grandes quantidades de gás carbônico para a atmosfera.

Uma tecnologia simples e interessante para evitar o uso do fogo é a diversificação de espécies forrageiras ou a utilização de pastagens consorciadas, que consiste no estabelecimento de gramíneas e leguminosas numa mesma área. As leguminosas forrageiras apresentam alto conteúdo protéico, maior digestibilidade e maior tolerância à seca em relação às gramíneas. O elevado teor protéico das leguminosas deve-se ao fato das raízes dessas plantas se manterem em associação simbiótica (relação em que ambos são beneficiados) com bactérias do gênero Rhizobium, que tem a capacidade de captar nitrogênio da atmosfera e adicioná-lo à planta e ao solo. Isto melhora a fertilidade do mesmo, aumenta a produção de forragem e, como conseqüência, torna a dieta do gado mais diversificada e rica em proteínas.

Acredita-se que entorno de 80% do nitrogênio fixado pela leguminosa pode ser transferido de maneira indireta para a gramínea. A conseqüência disso é o melhoramento das pastagens devido a melhor cobertura do solo e ao aumento da produção de forragem. Além disto, a consorciação de gramíneas e leguminosas é economicamente interessante para o produtor, pois há uma redução significativa nos custos da adubação nitrogenada. Por estas razões a consorciação encontra-se bastante difundida no Brasil.

No entanto, na Amazônia Ocidental a escassez de gramíneas e leguminosas forrageiras adaptadas às condições de solo e clima e que sejam recomendadas para o estabelecimento de pastagens consorciadas estáveis, produtivas e persistentes, tem sido apontada como o principal motivo da falta de difusão dessa prática nessa região. As espécies de capins mais utilizadas em pastagens no Estado de Rondônia pertencem ao gênero Brachiaria e grande parte dessas pastagens cultivadas tem mostrado sinais de degradação em poucos anos de uso. Sendo este um motivo de grande preocupação para os pesquisadores da Embrapa Rondônia, um estudo para avaliar a utilização de pastagens consorciadas de capim Massai (Panicum maximum) e amendoim forrageiro (Arachis Pintoi) na alimentação de vacas mestiças em lactação vem conduzido no campo experimental de Porto Velho.

A utilização de gramíneas forrageiras, como o capim Massai, é recomendada para consorciação com leguminosas porque este capim apresenta menor exigência quanto à fertilidade do solo, resistência a pragas e boa produção de matéria seca (10 a 18 t/ha/ano). Já o amendoim forrageiro, o qual detém elevado potencial nutricional (20,4% PB), tem apresentado bons resultados na Amazônia Ocidental, com aumento de até 43% no valor nutricional protéico da dieta e vem se constituindo como boa opção para os produtores de leite que tem nas pastagens cultivadas a base alimentar de seus rebanhos.

Espera-se que em futuro muito próximo, os pecuaristas da Amazônia Ocidental possam contar com grandes mudanças em relação à oferta de novas leguminosas forrageiras bem como de recomendações técnicas que viabilizem a pecuária sustentável através do uso de pastagens consorciadas não só para criação de bovinos leiteiros, mas também para ovinos e bovinos de corte.


* Zootecnista - Doutora em Nutrição e Produção Animal
Pesquisadora da Embrapa Rondônia


Fonte: Daniela Collares - Embrapa Rondônia
















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