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Quarta-feira, 07 de setembro de 2005 - 16h29m

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Criação e carne de capivara: potencial inexplorado de uma espécie nativa



Por Max Pinheiro *

A capivara é o animal silvestre nativo mais criado no Brasil. O sistema de criação mais viável é o semi-intensivo. Apresenta boa capacidade de reprodução e crescimento, rusticidade e alimentação herbívora diversificada com excelente aproveitamento de fibra, o que permite maior facilidade para adoção de sistemas orgânicos de criação.

A carne, de qualidade superior à das carnes vermelhas tradicionais, notadamente pelo tipo de gordura, menos saturada, é vendida a maior preço, enquadrando-se no mercado de carnes exóticas. Com a oferta de carne no mercado legal, contribui-se para a conservação das capivaras na natureza, através da redução da caça ilegal.

A Embrapa desenvolve o projeto “Uso sustentável de fauna silvestre” contemplando as diferentes modalidades de manejo. No seu plano de ação “Manejo de espécies em cativeiro”, coordenado pela Embrapa Clima Temperado (Pelotas, RS), é feito o estudo de índices zootécnicos da criação de capivara buscando a inserção dessa espécie nativa na cadeia de carne.


Projeto no Ibama
O primeiro passo é contratar ou conseguir um técnico de nível superior, preferivelmente com experiência na área, para inscrever o projeto ao Ibama, responsabilizando-se pelo mesmo. É importante ler as portarias 117 e 118, do Ibama, que regulamentam os criadouros comerciais e a comercialização, respectivamente.


A CRIAÇÃO NO SISTEMA SEMI-INTENSIVO

Rebanho, instalações e mão-de-obra
O rebanho deve ser adquirido de outros criadores ou capturado no ambiente natural, com autorização do Ibama. Os animais devem pertencer a um mesmo grupo para evitar infanticídios e brigas entre adultos. Estima-se que um criadouro em escala comercial deva prever instalações para 30 matrizes, no mínimo.

Com um rebanho de 15 fêmeas e dois machos (em 1 ha) é previsto o abate de 70 a 80 terminados por ano. Os piquetes são telados com 0,5ha, contendo açude, para alojar sete fêmeas e um macho. A cada cercado de reprodução deve-se fazer um para animais de abate, também com 0,5ha, do mesmo tamanho que os de reprodução. Uma pessoa cuida de até 100 capivaras, sendo necessário duas pessoas em algumas operações.

Alimentação
Alimentação concentrada tem sido baseada em milho grão (integral) como componente energético, fornecido numa média de 250g/cab/dia, valor estimado para o consumo à vontade. Resíduos de limpeza e de pré-limpeza de arroz seco, sorgo granífero ou ração feita na propriedade, são outras alternativas, em substituição ao milho. Todo o volumoso necessário é fornecido cortado, proveniente de forrageiras cultivadas, como capim-elefante, aveia-azevém/ervilhaca, milheto, sorgo forrageiro para corte/pastejo e cana-de-açúcar, entre outros. Mandioca e batata-doce também são apreciados.


Manejo
As operações de manejo são feitas em uma mangueira, que serve para arraçoamento, captura e manejo dos animais. A captura é feita colocando-se o alimento no interior da mangueira e prendendo-se em seguida os animais que entram. Os filhotes são numerados por assinalações em “v” e ou furos nas orelhas, sexados, pesados e desmamados com peso acima de 5 kg, sendo machos e fêmeas apartados para um piquete de abate.

O abate deve ser feito com um ano de idade e peso de 35 a 45 kg. Os machos devem ser abatidos preferencialmente com 35kg para evitar brigas no piquete. No caso de uso de macho reserva, este deve ser abatido ou removido do piquete quando alcançar 40kg. A reposição de fêmeas e do macho reserva é feita com animais do mesmo piquete.

Conforme a situação da composição de fêmeas velhas e de reposição, o total do piquete incluindo-se o macho poderão ser substituídos totalmente por outro lote de reprodução com origem em um mesmo grupo. As pesagens no setor de abate serão feitas quando estiver próximo de ocorrer necessidade de abater animais em função do tamanho visto por observação visual.

Mercado, comercialização e rentabilidade
O mercado regional é limitado, havendo para o caso de maior escala, a necessidade de vender para outros Estados, neste caso sendo necessário frigorífico com inspeção federal. O custo unitário de produção (por kg de peso vivo - PV) tem sido estimado em torno de 1,5 e os animais vendidos por R$ 3,00 a R$ 5,00 o kg, com a alimentação representando 55% do custo. No caso do produtor ter estrutura para vender diretamente a carne, a rentabilidade torna-se muito superior à da venda por peso vivo, pois a carne é vendida embalada a vácuo e rotulada, a preço igual ou até mesmo superior ao do filé bovino. O couro cru vale entre 3 e 4 dólares a unidade.

Carne e subprodutos cárnicos
A carne de capivara tem uma característica principal, a presença de gordura menos saturada em relação às carnes vermelhas tradicionais. No músculo da carne de capivara, observa-se baixos teores de gordura (1,5 a 4%) e, conseqüentemente, o elevado conteúdo protéico (22 a 24%). A carne é mais adequada nutricionalmente às demandas do consumidor quanto a teores de gordura/colesterol e composição mais insaturada de ácidos graxos.

Em função do maior teor de ácidos graxos poliinsaturados em relação as carnes tradicionais, que, por um lado, é uma vantagem nutricional, por outro _ e por conseqüência disto, a carne de capivara in natura tem um menor tempo de vida em prateleira, devido a maior facilidade de rancificação. Por isto, é vendida na forma congelada, embalada a vácuo, com rótulo, contendo o registro do criadouro no Ibama.

O excelente sabor da carne, quando originada de animais obtidos em sistemas de criação, torna-a própria para consumo/venda em restaurantes, churrascarias, açougues e supermercados. Quando a capivara passa ao sistema de criação, com o alimento concentrado (principalmente o milho) e(ou) forrageiras cultivadas, o problema de aroma e sabor característico que há no animal em estado selvagem, é totalmente removido. A carne teve boa aceitação em testes feitos com consumidores em potencial (aroma: 7,82; sabor: 8,16; suculência: 7,82; maciez: 8,50), não havendo diferenças entre atributos sensoriais das carnes de capivara, suínos e bovinos avaliados por painel de degustadores. Pode ser feita como carne de panela, assada em forno/churrasqueira, carreteiro, milanesa, etc... Também é apropriada para o fabrico de embutidos, como lingüiças e salsichões, patês, salsichas, etc.

Gordura e óleo
A gordura é mais rica em ácidos graxos ômega-3 que as carnes vermelhas tradicionais, contendo em torno de 5% desses ácidos essenciais para o organismo. Determinou-se que o óleo extraído da gordura de capivaras em estado selvagem abaixou, em três semanas, o colesterol sangüíneo de ratos alimentados com dietas ricas em colesterol e proporcionou os maiores ganhos de peso dos ratos, em relação aos tratamentos óleo de sardinha e de cavala. Isto ressalta o potencial do uso da gordura, ainda sem um emprego legalizado na forma de óleo puro, como produto natural nutracêutico e no combate à desnutrição.

Embora a gordura subcutânea possa servir para a produção de óleo, que apresenta uma composição completamente diferente da gordura após preparado, esta não deve ser consumida por pessoas que apresentam problema de gordura no sangue, por conter, como as demais carnes, considerável concentração de ácido palmítico, o principal precursor do colesterol, mesmo que, por outro lado, apresente maior nível de ácidos ômega-3 que tem mecanismos de ação envolvidos na redução do colesterol e LDL, regulação da pressão sangüínea e na redução de processos inflamatórios.

Embora sejam atribuídas popularmente várias atuações benéficas (mas não comprovadas cientificamente), como auxiliar na cura de bronquite, asma, pneumonia, reumatismo e desnutrição, o óleo tem sido permitido para uso como um dos componentes do tônico recalcificante infantil Capivarol® e na cicatrização de ferimentos em eqüinos.


Couro
O couro curtido no cromo fica extremamente resistente, suave, macio e flexível, semelhante a uma camurça. Apresenta peso de 5,3 kg, 5,5 cm de espessura e ~ 0,5 m2. A camada externa ou flor do couro é a mais usada, podendo-se rebaixar a espessura com a retirada de camadas e reduzir-se a elasticidade estirando-o tanto quanto possível numa determinada direção. O couro cru apresenta melhor condição de conservação se for congelado, sendo o método de conservação com sal, menos recomendável.

Antes das restrições ao comércio de animais da natureza, os maiores exportadores de peles de capivara foram: Argentina (11.200 peles / ano; de 1972 a 1978); Brasil (150.000 peles / ano; 1960 a 1969; 1.546.696 peles de 1960 a 1967); Colômbia (25.000 peles em 1970) e Peru (7.680 peles; de 1962 a1972).

O couro cru tem sido vendido a 4 ou 5 dólares e o curtido a 14 dólares a unidade, com base em preços praticados em exportações na Argentina, relativos a capivaras adultas caçadas. Estas têm couro de qualidade superior ao de criação, em termos do total de pele aproveitado por ter menor número de cicatrizes e cortes, uma vez que o curtume cobra pela área exata das peças curtidas (em torno de 30 reais por m2), que são medidas em aparelho especial para esse fim. Com isto, a percentagem de aproveitamento das peles para confecção de produtos fica em torno de 70%.

Se curtidos pelo produtor, os couros devem chegar no curtume com lacres do Ibama. O sistema de carimbo no couro também vale para determinados revendedores registrados no Ibama. Todos os comerciantes, frigoríficos, curtumes, varejistas de carne e couro, além dos produtores, devem estar registrados no Ibama. Para o registro, os comerciantes, exceto criadores, devem apresentar os seguintes documentos: alvará da prefeitura, duas identidades de sócios, contrato social e recolhimento da taxa anual.

As peles têm um amplo uso em artesanatos da linha crioula e em artigos para vestuário. Podem ser usadas na confecção de produtos manufaturados, como coletes, casacos/jaquetas, luvas sociais e esportivas, chapéus, boinas, carteiras de bolso, bolsas, cintas, cinturões, guaiacas, mateiras/cuias, chaveiros, tiradores para uso como enfeite, estofados, mocassins, botinas, botas, alpargatas e chinelos de couro.


* Pesquisador da Embrapa Clima Temperado - Pelotas, RS
E-mail: maxsp@cpact.embrapa.br

Foto 1: Ana Luiza Viegas/Embrapa Clima Temperado
Foto 2: Divulgação


Fonte: Embrapa Clima Temperado
















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