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Domingo, 05 de fevereiro de 2006 - 11h02m

Animais > Suínos

Remoção de N em dejetos de suínos



Por Airton Kunz *

A temática ambiental tem ganhado corpo nas últimas décadas em nossa sociedade face ao alto impacto, que as mais distintas atividades humanas têm causado sobre o ambiente, trazendo como conseqüência a exaustão de muitos recursos naturais, obrigando-nos a repensar o modelo de desenvolvimento adotado. Daí o conceito de sustentabilidade (social, econômica e ambiental) das mais diversas atividades estar ganhando importância no setor produtivo.


Dentro deste contexto, a criação intensiva de suínos tem causado grandes problemas ambientais em algumas regiões do Brasil. Isto se deve a alta concentração de matéria orgânica e nutrientes nos dejetos de suínos que, quando não são corretamente manejados e tratados, podem causar grande impacto sobre a biota do solo e água. A produção e disposição destes dejetos em áreas onde não se tem uma demanda por nutrientes suficiente têm causado a lixiviação e percolação de dejetos, apresentando em determinadas regiões altos índices de contaminação de nossos recursos hídricos.

Um dos elementos que deve ser objeto de preocupação é o nitrogênio, que está presente em altas concentrações em dejetos de suínos. Em fase aquosa esta espécie está presente em várias formas e estados de oxidação, sendo as espécies de maior relevância o nitrogênio orgânico dissolvido e particulado, o nitrogênio amoniacal (NH3/NH4+), nitrito (NO2-) e nitrato (NO3-).

O nitrogênio amoniacal apresenta-se tóxico para peixes e apresenta uma alta demanda de oxigênio (1 mg de NH3 necessita de 4,6 mg de O2). Sob o ponto de vista de saúde pública, o nitrato pode causar metahemoglobinemia, fruto da redução do NO3- a NO2- (por bactérias do trato intestinal) e conseqüente oxidação do Fe2+ a Fe3+ da hemoglobina, formando metahemoglobina que é incapaz de se ligar ao O2, impedindo assim as trocas gasosas no organismo humano. O nitrito ainda pode combinar-se com aminas secundárias, provenientes da dieta alimentar, formando nitrosaminas que apresentam poder mutagênico e carcinogênico.

Atualmente, o manejo mais comum aplicado aos efluentes produzidos pela suinocultura consiste no armazenamento dos dejetos em esterqueiras, eventualmente seguido de lagoas de estabilização, e posterior distribuição no solo. Apesar das lagoas apresentarem uma remoção razoável de material orgânico carbonáceo, o nitrogênio permanece no efluente em concentrações bastante elevadas, necessitando de um pós-tratamento para atender aos padrões de emissão de efluentes líquidos previstos na legislação ambiental brasileira.

Por muito tempo o limite de emissão de nitrogênio em corpos receptores previsto na legislação ambiental foi ignorado, tanto pelas empresas poluidoras quanto pelos órgãos fiscalizadores, os quais limitavam-se à observação dos parâmetros relacionados com a concentração da matéria orgânica, como a DBO e DQO. Retrato dessa postura é a atual lacuna tecnológica existente no país na área de remoção de nutrientes de efluentes. Particularmente, para remoção de nitrogênio as dificuldades que se colocam referem-se a tratamento biológico de altas concentrações deste nutriente, tipicamente acima de 200 mg/L. Considerando que a concentração média de nitrogênio no efluente de dejetos suínos, após o tratamento anaeróbio, permaneça em torno de 1.000 mg N total/L, uma eficiência de 90 % de remoção de nitrogênio total ainda representa um valor de 100 mg N/L no efluente final, muito acima dos exigidos pelas leis ambientais.

Atualmente, novos processos estão sendo desenvolvidos justamente para atender ao tratamento de efluentes com elevada concentração deste poluente. Em alguns países estes novos processos já estão sendo utilizados para o tratamento de efluentes gerados pela criação de animais, caracteristicamente com elevadas cargas de nutrientes.

A Embrapa Suínos e Aves tem se preocupado com esta questão e tem investido em projetos de pesquisa envolvendo o tema. Os pesquisadores da unidade têm se esforçado para estabelecer uma rede de pesquisa com universidades brasileiras e centros de pesquisa no exterior, buscando avançar rapidamente nesta questão.
Recentemente foi firmado uma parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e aprovado um projeto dentro do macroprograma 2 da Embrapa.

O projeto é intitulado “desenvolvimento de novos sistemas para remoção de nitrogênio em resíduos com alta carga de nutrientes visando sua aplicação a dejetos de suínos”. As pesquisas deverão ser realizadas nos próximos três anos e deverão gerar conhecimento e inovações na área num curto e médio prazo.

A Embrapa Suínos e Aves também firmou recentemente uma parceria internacional, via LABEX-EUA, com o Costal Plain Soil, Water and Plant Research Center, um dos centros de pesquisa constituintes do ARS/USDA nos Estados Unidos. Este centro de pesquisa já possui grande experiência no tratamento de efluentes da suinocultura e tem realizado estudos na remoção de nutrientes, já operando inclusive com alguns sistemas em escala real. Esta parceria também resultou em projeto aprovado junto ao foreign agricultural service (FAS/USDA) cujo o título é “development of new generation low-cost treatment of ammonia to benefit the environment and promote sustainable livestock production”

Com estas parceiras estabelecidas pretende-se gerar tecnologias que possam ser aplicadas à suinocultura no sentido de torná-la competitiva internacionalmente, sob o ponto de vista ambiental, agregando valor ao agronegócio brasileiro.


* médico veterinário, DSc, e pesquisador da Embrapa Suínos e Aves da área de tratamento de dejetos e educação ambiental


Fonte: Embrapa Suínos e Aves
















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