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Sexta-feira, 05 de maio de 2006 - 19h36m

Agronegócio > Bovinos

As novas responsabilidades da pecuária atual



Por Eduardo Borba *

Até 1950 mais ou menos, as populações das nossas fazendas de pecuária viviam absolutamente confortáveis sem água encanada em casa, fogão a gás, energia elétrica e automóvel. Mas, tinham uma horta, um porquinho no chiqueiro, uma roça de mandioca. A dinâmica do trabalho dos peões ou vaqueiros dessa época era absolutamente primitiva. O gado tinha pouquíssimo contato ou nenhum contato com o ser humano, vivia em pastos nativos enormes, muito mais como animais selvagens do que domésticos.
Quando havia o contato com o homem, na verdade era uma grande caçada. E o vaqueiro mais valorizado era sempre o mais destemido.




Nos dias de hoje, mesmo tendo todas as condições, são raras as famílias das fazendas que desenvolvem uma horta, engordam um porco ou mesmo criam galinhas no quintal de casa. No entanto, não conseguem viver sem água encanada, eletricidade, TV, fogão a gás e carro. Na verdade, não é vagabundagem nem descaso. É que a dinâmica desenvolvida nas fazendas de pecuária dos anos 50 era muito diferente da atual. Se compararmos as duas não é difícil perceber que a primeira tinha conotação absolutamente primitiva e a subsistência era fundamental.

O fato é que nesse mundo globalizado de hoje a dinâmica da subsistência não tem mais o seu lugar. Atualmente, a maioria da população do planeta se abastece de comida nos supermercados.
Por causa das diversidades próprias do nosso país, não é fácil para o nosso vaqueiro perceber e estar consciente de todas as nuances desse novo contexto sócio-econômico. Apesar de a maioria deles participar dessa dinâmica ao sentar-se diante da TV diariamente, muitos não sabem nem escrever o seu nome. Isso talvez provoque uma consciência distorcida nessa classe de pessoas. O fato é que esse importante elemento da pecuária ainda não acordou ou não foi acordado para poder compreender que nos dias de hoje a lida de gado não pode mais ser aquela da grande caçada.

Atualmente, a maior parte da carne comercializada no mundo é proveniente do chamado novilho precoce. Criado, recriado e acabado em pastos cultivados como agricultura ou em confinamentos. A transformação econômica dos últimos anos exige uma nova consciência nos negócios e a pecuária não é diferente de nenhuma outra atividade. É fato consumado que a carne de um animal estressado é nociva à saúde humana. As comunidades mais desenvolvidas têm se preocupado muito com a qualidade de vida e o manejo dos animais que vão fornecer comida às populações.

Não existe mais nenhuma duvida de que o estresse é um fator de grande limitação na performance dos animais, em todos os seus aspectos. Está presente em todas as atividades da pecuária. No manejo do dia-a-dia, na desmama, nos programas de TE e FIV, nos confinamentos, no embarque e desembarque etc. O vaqueiro atual precisa saber lidar com o gado de maneira a reduzir o estresse nos animais.

Nas competições de conformação e leilões de elite só um peão educado e treinado a respeito das necessidades internas dos animais terá habilidade para criar um programa de treinamento, baseado na comunicação e na psicologia, cultivando a sua habilidade para perceber seus medos e suas preocupações, baixando assim, de maneira considerável, o nível de estresse dos animais. Nos leilões de elite, é muito comum uma bezerra obter preço mais alto do que uma vaca formada só por que a bezerra é domada de cabresto. Na verdade, ela gera uma expectativa de manejo fácil.

A nova ordem da pecuária
Para que o pecuarista possa fazer parte do grupo que participa do mercado mundial da carne, é preciso estar alinhado com os princípios da lida de gado de baixo estresse e do bem-estar animal. Ele precisa investir pesado na sua mão-de-obra. Não se trata apenas de melhorar salários. É uma questão de boas maneiras e escolarização, para que possa haver mudança real e concreta da mentalidade de todos aqueles que, de alguma forma, estão envolvidos com o gado. Eles precisam estar atrelados a novas e mais responsabilidades.

Elementos como informatização, técnicas de melhoramento genético, TE, FIV, qualidade e segurança dos alimentos produzidos, proteção ambiental e bem-estar animal são componentes complexos inseridos na indústria da carne atual.

Na verdade, é o vaqueiro que toca a pecuária. O pecuarista cria as condições, mas o responsável pelo nosso bife de cada dia é o peão. É fundamental que esses elementos também estejam presentes no dia-a-dia da atividade. Por isso, não podem mais fazer o que querem e do jeito que querem, sem assumir responsabilidade pelos seus erros.

A industria mundial da carne gasta milhões de dólares no desenvolvimento do produto final, no sentido da qualidade e da aparência. São dados que não podem ser mais ignorados pelos pecuaristas. O Brasil figura no cenário mundial como o país que pode fornecer a carne mais saudável do planeta, já que a maioria dos nossos animais come capim e não ração balanceada e também pelo nosso baixo custo de produção. O boi verde e a carne light do zebu são destaques nas revistas e publicidades para o consumo sadio da carne vermelha.

Nos Estados Unidos, a NCBA (National Cattleman"s Beef Association), entidade da industria da carne que criou algumas linhas de conduta para informar ao produtor suas novas responsabilidades, também desenvolveu o selo BQA (Beef Quality Assurance). O Canadá também já tem entidades do gênero: a CCA (Canadian Cattleman"s Association) é uma delas. A NCBA e a CCA em conjunto com mais um numeroso grupo de entidades de classe investem pesado em pesquisas, ouvindo as preocupações dos consumidores, restaurantes, supermercados etc. Não se pode negar que a carne bovina sempre teve e terá um lugar de destaque na alimentação da maioria das sociedades. O Brasil precisa fazer sua lição de casa.


* bacharel em Economia, especialista no treinamento de animais e de mão-de-obra nas fazendas pecuárias e idealizador do Projeto Doma
E-mail: doma@doma.com.br


Fonte: Texto Assessoria de Comunicações
















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