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Quinta-feira, 06 de setembro de 2007 - 14h04m

Agricultura > Cana-de-Açúcar

A expansão da cana-de-açúcar no Cerrado brasileiro: perspectivas e limitações



Por Adeliano Cargnin* e Robélio Leandro Marchão**

O Brasil é um dos mais tradicionais produtores de cana-de-açúcar do mundo. Está também em posição privilegiada em relação aos demais países produtores, pois detém avançado conhecimento do processo produtivo da cultura e ao mesmo tempo do ponto de vista tecnológico no uso do etanol como alternativa agroenergética. Atualmente, a produção mundial de álcool aproxima-se dos 40 bilhões de litros, sendo que o Brasil responde por 15 bilhões ou cerca de 37,5% deste total.

Robélio Leandro Marchão e Adeliano Cargnin


Com a implementação do Plano Nacional de Agroenergia em 2005 e as atenções mundiais voltando-se para o caso de sucesso do etanol brasileiro, o álcool de cana de açúcar passou a atrair ainda mais atenção como alternativa energética renovável. Projeções feitas por órgãos ligados ao setor canavieiro estimam que nos próximos 5 anos, a demanda interna por cana-de-açúcar salte de 240 milhões de toneladas (70 milhões de toneladas de cana para açúcar e 170 milhões para álcool), para algo em torno de 334 milhões de toneladas (84 milhões para açúcar e o restante para álcool). Esse cenário evidencia a necessidade do país em ampliar a cadeia produtiva da cana-de-açúcar. No entanto, estima-se que para atender ao consumo dos próximos 10 anos, deverá ocorrer acréscimo de aproximadamente 100 milhões de toneladas na produção, o que corresponderá em um incremento de 75% na área cultivada, passando de 6 para 9,4 milhões de hectares cultivados com cana-de-açúcar.

Nos últimos anos a expansão da cultura se deu principalmente no estado de São Paulo e nos estados da região central do país localizados no Cerrado Brasileiro. Somente na região Centro-Oeste, o cultivo aumentou 37% nos últimos quatro anos, passando de 373,4 mil hectares para 512,5 mil hectares. No Cerrado mineiro, o aumento na área plantada foi de 10% na safra 2006/2007. Juntos, os estados do Centro-Oeste e parte de Minas Gerais respondem por quase 15% da cana-de-açúcar moída no Brasil. Apesar do expressivo crescimento observado nestas regiões, a produção ainda é incipiente, especialmente se comparada à disponibilidade de terras agricultáveis a exemplo da expansão da cultura da soja nos últimos anos.

O Cerrado é o mais importante bioma do país após a Amazônia e ocupa uma área superior a 204 milhões de hectares, o que corresponde a aproximadamente 23% do território brasileiro. Deste total, estima-se que 50 milhões de hectares sejam ocupados por pastagens cultivadas e 15 milhões por culturas anuais e perenes. Levantamentos da Embrapa revelam que entre 70 e 80% dos 50 milhões de hectares de pastagens apresentam algum grau de degradação, com perdas significativas da capacidade produtiva, baixos índices zootécnicos e diferentes níveis de degradação do solo. Estes mesmos levantamentos demonstram que mais de 24 milhões de hectares dessas pastagens degradadas estão estabelecidas sobre solos agricultáveis e potencialmente mecanizáveis, uma característica imprescindível para sua exploração com culturas como a cana-de-açúcar.

Apesar de apresentar características gerais de aptidão favorável ao cultivo da cana-de-açúcar os solos sob pastagens em geral apresentam níveis extremamente baixos de fertilidade. A recuperação e re-incorporação destas pastagens ao sistema produtivo de forma sustentável é um desafio que já foi, em parte, superado pela pesquisa agropecuária por meio de tecnologias de correção e fertilização destes solos. Porém, a grande limitação econômica deve-se ao custo elevado dos insumos fundamentais para a correção e fertilização destas pastagens. Outro fator limitante deve-se à baixa lucratividade da atividade pecuária que por vezes prejudica a capacidade de investimento dos pecuaristas.

Com a expansão da cana-de-açúcar para regiões não tradicionais de cultivo em solos mais pobres como é o caso de grande parte do Cerrado e considerando toda a variabilidade e estratificação de ambientes, as cultivares de cana-de-açúcar deverão ser adaptadas às condições específicas de solo e clima. Atualmente existem várias cultivares de cana-de-açúcar desenvolvidas por instituições de pesquisa no Brasil, porém, a grande maioria foi selecionada para as condições do Centro-Sul do país, região tradicional de cultivo da cana-de-açúcar.

Além de o Cerrado ser uma nova área de cultivo da cana-de-açúcar, existem também alguns fatores adicionais que reforçam a importância do melhoramento genético para esta cultura, tanto no Cerrado como em outras regiões do país. Talvez o mais importante fator seja a restrição da prática da queima nos canaviais realizada antes da colheita. Observa-se atualmente um crescimento do sistema de cultivo da cana crua que se destaca sobre a cana queimada pela maior proteção do solo contra erosão, redução do uso de herbicidas, melhor qualidade de matéria-prima para indústria, maior incorporação de matéria orgânica e maior atividade microbiana do solo, redução da emissão de gases de efeito estufa e, principalmente um saldo positivo no balanço energético final. No entanto, a colheita da cana crua trás alguns inconvenientes tais como à irregularidade de rebrota sobre o palhiço e a queda de produtividade das variedades menos adaptadas a essa condição, que hoje são a maioria das variedades, necessitando que os programas de melhoramento selecionem variedades com características adaptadas a esta nova realidade.

Atualmente a Embrapa Cerrados, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vem estabelecendo parcerias com outras instituições de pesquisa que trabalham com cana-de-açúcar e uma equipe multidisciplinar de pesquisadores está desenvolvendo alguns projetos com a cultura em parceria também com empresas privadas ligadas ao setor canavieiro. Entre outras linhas de pesquisa a serem focadas estão a avaliação e seleção de cultivares de cana-de-açúcar adaptadas às condições específicas do Cerrado, e adaptação do cultivo da cana crua e a colheita mecanizada, as quais exigirão características específicas das novas cultivares a serem disponibilizadas no mercado.

* engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Cerrados (Planaltina - DF)
E-mail: adeliano.cargnin@cpac.embrapa.br

** engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Cerrados (Planaltina - DF)
E-mail: robelio.leandro@cpac.embrapa.br


Fonte: Gustavo Porpino de Araújo
















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