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Quinta-feira, 06 de setembro de 2007 - 16h25m

Agricultura > Educação

Extensão Rural e desenvolvimento sustentável



Por José Silva Soares*

O tempo é de renovação, de novas expectativas, de retomada de investimentos em Extensão Rural no Brasil. Houve um desmonte ao longo dos anos 90, e os estados tiveram de encontrar saídas para manter a estrutura de atendimento, principalmente em regiões de deficiências acentuadas. A resistência colhe frutos hoje, com uma fatia maior de verbas no orçamento federal destinada ao setor e o aumento no quadro de extensionistas em quase 50% nos últimos anos no serviço público.




O momento tem ainda maior significado porque os profissionais da área consolidam uma transformação na forma de pensar e agir nas comunidades rurais do País. Ao lado de agricultores familiares, mesmo em locais distantes, onde o acesso é barreira para a chegada dos serviços, os extensionistas contribuem para transformações culturais, sociais e econômicas, atuando como efetivos agentes do desenvolvimento sustentável.

A Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural (ASBRAER) se fortaleceu em tempos de crise, mobilizou, levantou discussões, organizou o setor e cresce nesta fase de retomada. Junto com seus parceiros – destacando o MDA, o Congresso Nacional e as organizações dos agricultores – lança a Frente Parlamentar pela Extensão Rural Pública e a Academia Brasileira da Extensão Rural, novos instrumentos para fortalecer o trabalho dos extensionistas na reflexão teórica, na lida e na prática transformadora que vêm assegurando uma vida melhor para milhões de agricultores familiares brasileiros.

A Extensão Rural de um novo tempo
Falar de Extensão Rural é falar de educação. E falar de educação é abordar um aspecto importante da humanidade: a transformação. A Extensão Rural é uma educação não formal, onde educador e educando, a partir do saber de cada um, constroem novos saberes. Um processo feito pelo agricultor, que ao longo da história se apropria de conheci-mentos, e pelo extensionista rural, que na academia e na ciência se prepara. Juntos, ambos conseguem construir novas realidades.

A sala de aula é o campo, as plantações, o ambiente onde estão as criações – nos brejos, planaltos, lavrados, lagos, rios e riachos. O extensionista rural é um agente de desenvolvimento que vai aos mais longínquos grotões e recantos do País. Trabalha com os ribeirinhos, com as famílias de pequenos agricultores, com os pescadores artesanais, na agricultura urbana, com famílias excluídas, na periferia das grandes metrópoles, nas vilas e pequenas cidades. Também capta dados e informações importantes da realidade de cada comunidade, município, região e estado.
Há décadas, a Extensão Rural vem desempenhando papel desta-cado no desenvolvimento da agricultura brasileira. Em cada momen-to, adequando-se à realidade, ora na chegada de novas tecnologias, na conquista do cerrado, ora no repensar do modelo de desenvolvi-mento que o País precisava e precisa para ter uma produção susten-tável do ponto de vista ambiental, viável economicamente e social-mente justa.

No passado, o sucateamento
Em todos os ciclos ou fases da agricultura brasileira, o momento mais crítico da Extensão Rural foi o ano de 1990, quando o governo federal, numa atitude irresponsável, extinguiu a instituição que coorde-nava o serviço brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural, a Embrater. Com isto, cada estado teve de assumir seu serviço de As-sistência Técnica e Extensão Rural. O impacto foi realmente de des-monte, uma vez que o governo federal chegou a participar com mais de 60% do orçamento para manter este serviço, além da fazer a coordenação de estratégias metodológicas de formação de extensionistas e de implementação de políticas públicas.

Nas regiões Norte e Nordeste, o serviço praticamente acabou em vários estados, mesmo o Nordeste tendo o maior número de agricul-tores familiares do País, e enfren-tando problemas como a seca. Em alguns estados do Sudeste e Sul houve a divisão entre os municípios do custo ou dos investimentos nos serviço de ATER, são os casos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, e Paraná, que com a parceria conseguiram manter uma estrutura melhor.

Extensionista são agentes de desenvolvimento
O extensionista rural deste novo tempo tem um perfil diferenciado. Precisa entender não só de tecno-logia, mas de mercado, de negócios e de gente, de pessoas. Ele se transformou em agente de desenvolvimento. Hoje, utiliza metodologias participativas, atua como facilitador e provocador de transformações, onde as famílias rurais constroem o futuro por meio de projetos e programas geridos pelas próprias comunidades. Nesta nova realidade a Extensão Rural começou a aliar-se mais às organizações dos agricultores, que passaram a defendê-la, e os governos passaram a ter uma imagem muito melhor a seu respeito. Assim, o governo federal, que em 2002 participava com aproximadamente 2% do orçamento da Ex-tensão Rural do País, hoje já chega aos 8%. Para quem contribuía com 60%, ainda é muito pouco, mas foi um grande avanço. O restante do orçamento anual nas 27 unidades da Federação, que está na casa de R$ 1,6 bilhão, é bancado pelos estados em sua maioria e conta com uma pequena parcela dos municípios.

Uma enorme rede de profissionais
Ocorreu uma revolução silenciosa nas entidades estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural nos últimos cinco anos. O nú-mero de extensionistas rurais aumentou de 10,5 mil para 14,5 mil, mais de 20 estados realizaram concurso público, houve investimento em tecnologia da informação, com novos e modernos equipamentos para atender mais rápido e com maior eficiência e eficácia os agri-cultores. Em 4.500 municípios do Brasil há escritórios de Extensão Rural, formando a maior rede de profissionais que atuam na constru-ção e implementação de políticas públicas no País. Eles estão conso-lidando o importante papel de reduzir desigualdades entre pessoas e regiões, impactando diretamente o desenvolvimento dos municípios. A agricultura familiar produz 60% dos alimentos no Brasil, justamente porque os extensionistas elaboram os projetos para o agricultor preparar o solo, plantar, fazer o financiamento, cuidar das lavouras, colher e vender os produtos com qualidade para os consumidores.

Alianças e conquistas
É preciso destacar a forte aliança estratégica entre governo federal, governos estaduais e organizações dos agricultores, resultando na elaboração da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), na estruturação do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER), do Ministério do Desen-volvimento Agrário (MDA), além da Lei da Agricultura Familiar e do apoio dado pelo governo federal à ASBRAER, sem esquecer de um reforço fundamental: do aumento dos recursos do PRONAF de R$ 2,3 milhões para R$ 12 bilhões.

Pensar diferente e agir pela qualidade de vida
Com as transformações ocorridas no mundo nas últimas décadas, com consumidores mais conscientes, população preocupada com as questões ambientais, entre outras, a Extensão Rural precisou, até para sobreviver, desenvolver uma nova visão do seu papel. Seus profissionais que, até meados da década de 90, tinham uma atuação mais para aumento de produção e produtividade, tiveram que começar a trabalhar para aumentar a qua-lidade dos produtos, pela segurança alimentar, pela qualidade de vida.

O foco da ação extensionista passou a ser as famílias, as pessoas e produtos das cadeias produtivas, como o arroz, feijão, milho e carne, os meios para gerar ocupação, ren-da e desenvolvimento. A organização social das famílias em associa-ções e cooperativas, para aumentar o poder de barganha na compra de insumos, no processamento e agre-gação de valor à matéria-prima e venda dos produtos, são pontos que possibilitam e exigem uma forte atuação do setor.

O compromisso e empenho ao desenvolver o trabalho junto às co-munidades rurais do País, estejam onde estiverem, é o que garante hoje a construção de políticas públicas para a transformação das con-dições sociais no Brasil.

Resultados beneficiam toda a sociedade
A Extensão Rural de um novo tempo está fundamentada, com uma visão voltada para resultados que atingem diretamente a socie-dade, utilizando na gestão destas instituições metodologias e ferra-mentas modernas, até então mais comuns na iniciativa privada, tais como o planejamento estratégico e o gerenciamento de projetos, forta-lecendo a cultura do planejamento.

Um planejamento estratégico construído pelos profissionais da Exten-são, agricultores e suas organizações, que evidencia em sua formu-lação a missão dessas organizações: o desenvolvimento susten-tável. O foco de toda ação passa a ser a pessoa, incrementando políti-cas públicas como a segurança ali-mentar, incentivando e promovendo a utilização de metodologias participativas, formatando a comunicação como ferramenta de gestão, promo-vendo a qualidade de vida.

O movimento de reconstrução e revitalização da Extensão Rural vem acontecendo em todos os estados do Brasil, numa parceria liderada pelo MDA e pela ASBRAER, com os governos estaduais e as organiza-ções dos agricultores.

* engenheiro agrônomo, com com MBA CEO Internacional pela Fundação Getúlio Vargas e especializações em Piscicultura, em Solos e Meio Ambiente. É presidente da Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais) e da ASBRAER (Associação Brasileira das Entidades Públicas de Assistência Técnica e Extensão Rural).
E-mail: josesilva@asbraer.org.br


Fonte: Helena Pawlow
















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