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Quinta-feira, 06 de setembro de 2007 - 16h09m

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Biocombustíveis x emissões de gases de efeito estufa



Por Caroline Jácome Costa*


A divulgação dos últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e a constatação de que o aquecimento global decorre das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa têm mobilizado a comunidade internacional a buscar soluções visando à mitigação das mudanças climáticas. Dentre as iniciativas até então propostas encontra-se a política de biocombustíveis.




Os biocombustíveis têm sido defendidos como uma alternativa promissora no combate à mudança climática, sendo considerados superiores aos combustíveis fósseis, relativamente às emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, visto que as emissões decorrentes de sua utilização equivalem, no máximo, à quantidade de carbono fixada durante a produção de biomassa, através do processo fotossintético. No entanto, alguns trabalhos têm avaliado o ciclo de vida dos principais biocombustíveis, em especial do etanol, e têm apontado que as emissões de gases de efeito estufa geradas ao longo de sua cadeia de produção, considerando desde a obtenção da matéria-prima no campo à combustão, podem ser similares ou superiores àquelas provenientes do emprego dos combustíveis fósseis. Tais emissões são decorrentes da própria utilização de combustíveis fósseis ao longo da cadeia de produção dos biocombustíveis e das atividades de preparo do solo, fertilização com fontes nitrogenadas, queima dos resíduos agrícolas e irrigação, aplicadas aos cultivos destinados à produção de biocombustíveis.

Nesse contexto, alguns estudos ressaltam os impactos negativos das emissões de óxido nitroso (N2O), decorrentes da produção dos agro-biocombustíveis, desencadeadas pela fertilização nitrogenada das culturas no campo. O N2O é um importante gás de efeito estufa, resultante dos processos microbiológicos de nitrificação e desnitrificação que decorrem da aplicação de fertilizantes nitrogenados no solo. Embora as emissões de N2O provenientes do cultivo de matérias-primas para a produção de biocombustíveis não sejam grandes, em termos absolutos, seu grande potencial de aquecimento global, 296 vezes superior ao do CO2, em um período de 100 anos, ressalta a importância desse gás no balanço global das emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com a primeira parte do último relatório do IPCC, a concentração atmosférica global de N2O aumentou de um valor pré-industrial de cerca de 270 ppb para 319 ppb, em 2005, sendo que um terço de todas as emissões é antrópica, devendo-se principalmente à agricultura. O IPCC considera que cerca de 1% de todo o nitrogênio aplicado na forma de fertilizantes nitrogenados é perdido para a atmosfera como N2O.

As estimativas das emissões de N2O pelas atividades agrícolas, todavia, constituem a principal incerteza nos inventários mundiais, dada a pequena representatividade das medições realizadas, as incertezas relacionadas aos fatores de emissão, a ocorrência de micro-sítios no solo que conferem elevada heterogeneidade aos processos que envolvem sua produção e difusão e as limitações das metodologias empregadas.

No Brasil, o Plano Nacional de Agroenergia destaca a inserção da cadeia produtiva do etanol, reconhecida como a mais eficiente do mundo, como uma das estratégias para responder à demanda energética crescente, à pressão ambiental pela utilização de fontes renováveis de energia e à redução da dependência em relação aos combustíveis fósseis. Em razão disso, segundo dados divulgados pela Conab, a área ocupada com cana-de-açúcar no Brasil cresceu 12,3%, em relação à safra anterior, com 6,92 milhões de ha e expectativa de produção de 547,2 milhões de toneladas, das quais 86,47% deverão destinar-se à indústria sucroalcooleira para a produção de 21,30 bilhões de litros de álcool e 30,04 milhões de toneladas de açúcar.

Para os próximos 6 a 8 anos, há estimativas de expansão da oferta de cana-de-açúcar da ordem de 220 milhões de toneladas, o que implica a necessidade de incorporação de quase 3 milhões de hectares em áreas de plantio, mantendo o atual nível tecnológico.

Estimativas das emissões de N2O em áreas irrigadas ocupadas com cana-de-açúcar, na Austrália, apontam que até 15,4% do total de fertilizantes nitrogenados aplicados na cultura podem ser perdidos, na forma de N2O, em 4 dias após a fertilização, dependendo do tipo de solo e do manejo da cultura, principalmente quanto ao acúmulo da palhada na superfície do solo e à fertilização nitrogenada. Quanto ao potencial de contribuição da cultura da cana-de-açúcar para as emissões de CO2, alguns trabalhos indicam que, em razão da elevada eficiência fotossintética da cultura, a mesma apresenta grande capacidade de fixação de CO2, comportando-se como um sumidouro de carbono.

Desse modo, é possível que a expansão das áreas agrícolas ocupadas com espécies destinadas a atender a crescente demanda por agro-biocombustíveis possa afetar o balanço das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, representando apenas uma solução parcial para a questão da redução das emissões de gases de efeito estufa. No caso do Brasil, a despeito da expansão das áreas ocupadas com cana-de-açúcar, para a produção de etanol, a contribuição do cultivo da cana-de-açúcar para as emissões de gases de efeito estufa não é conhecida. Assim, a determinação do balanço desses gases na atmosfera, decorrentes do cultivo da cana-de-açúcar, é fundamental para avaliação dos impactos ambientais dessa cultura.


* engenheira agrônoma, com PhD em Ciência e Tecnologia de Sementes pela Universidade Federal de Pelotas, e pesquisadora da Embrapa Cerrados.

E-mail: caroline.costa@cpac.embrapa.br


Fonte: Embrapa Cerrados
















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