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Sexta-feira, 04 de abril de 2008 - 16h28m

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Ao mestre, com carinho



Imagens

Martha Baptista

Foto: Arquivo Pessoal



Por Martha Baptista 


O meu amigo Bona me pediu esta semana para escrever uma “crônica rural” para o site Página Rural. O que seria exatamente uma crônica rural? Ele me sugeriu pegar algum episódio interessante ocorrido durante minhas andanças pelo campo a serviço da revista Produtor Rural, da qual sou repórter há cinco anos. Como não gosto de enrolar meus amigos, resolvi encarar logo o desafio, mas até poucas horas nem sabia sobre o que escrever. De repente, o tema veio se desenhando na minha cabeça e colocá-lo na tela do computador tornou-se imperativo: quero aproveitar esta crônica para homenagear meu irmão, José Feliciano Baptista Netto, o saudoso Zezinho, que hoje teria 78 anos.

Ao contrário dos meus sete irmãos (um homem e seis mulheres), fui criada praticamente no Rio de Janeiro, para aonde meus pais se mudaram quando eu tinha dois anos. Zezinho, já casado na época, permaneceu em Corumbá e tinha entre suas responsabilidades cuidar da fazenda do meu pai, Santa Blanca, uma bela propriedade situada à beira do rio Paraguai, no município de Corumbá. Acontece que meu irmão nunca foi bom de negócio, nem nasceu para ser fazendeiro. Seu negócio era ser jornalista, escritor, se dedicar à política, não a essa política rastaqüera, de negociatas, mas uma política meio filosófica. Ele gostava do embate de idéias e mantinha um jornal diário em Corumbá com recursos próprios.

O meu eventual leitor deve estar se perguntando: “cadê o rural nessa história”? Apesar de não ter tino empresarial, meu irmão acabou herdando a fazenda Santa Blanca e o bonito nessa história toda (tem um lado meio triste também, mas este deixaremos para outro momento) é a transformação sofrida por Zezinho ao longo de sua vida (ele morreu aos 57 anos em conseqüência de problemas cardiovasculares). O grande caçador na época da juventude (até hoje me lembro de minha mãe contando um episódio em que ele se viu frente a frente com uma onça numa furna e acabou levando a melhor com um tiro certeiro) acabou se transformando num ecologista na maturidade.

Nos anos 70, Zezinho era um dos principais combatentes dos caçadores de jacaré que infestavam o Pantanal mato-grossense e chegou a enfrentar alguns bandos pessoalmente. Parece história de pescador, mas não é. Ele fazia isso com naturalidade, com o mesmo otimismo e alegria que sempre nortearam seus passos. Era desligado, nunca se lembrava de olhar se a caminhonete ou o jipe dispunha de macaco ou estepe antes de viajar, porém quem ia com ele sempre tinha alguma coisa para contar na volta. Viajar com ele, de carro ou de barco, era uma aventura.

Nos anos 80, ele transformou Santa Blanca numa pousada para turistas e tinha um enorme prazer em recepcionar seus hóspedes. Como dispunha de poucos recursos e contava com uma equipe pequena, ele mesmo assumia o papel de guia, condutor de barcos, enquanto o resto da família se encarregava de outras tarefas. E foi assim que morreu, no dia 16 de outubro de 1987, logo depois de almoçar paçoca de carne seca com bananinha. Passou mal e não deu tempo de levá-lo à cidade em busca de socorro médico.

Exatamente um ano antes (em 16 de outubro de 1986), quando almoçávamos num restaurante no bairro carioca do Leblon após o enterro de nossa mãe, Zezinho me disse que não entendia como as pessoas conseguiam viver numa cidade grande e violenta como o Rio de Janeiro. Respondi que não passava pela minha cabeça sair do Rio, porém dois anos depois eu estava morando em Cáceres, também à beira do rio Paraguai e várias vezes, quando via o rio deslizando diante de mim, sentia as lágrimas escorrerem ao me lembrar desse meu irmão com quem gostaria de ter convivido muito mais.


Jornalista e escritora residente em Cuiabá-MT
E-mail:
martharb@terra.com.br


Fonte: Página Rural
















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