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Segunda-feira, 19 de maio de 2008 - 09h20m

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Lavagem



Imagens

Heraldo Marcus Rosi Cruvinel

Foto: Via Informação / Página Rural



Por Heraldo Marcus Rosi Cruvinel

Renan era um menino de 7 anos, que morava com os pais, na zona rural, e freqüentava a escolinha rural que tinha próximo à Estação de Trem. Naquela época as escolinhas rurais funcionavam graças à abnegação de certas heroínas professoras que haviam terminado o Normal e se dedicavam a ensinar os meninos da roça. E Renan era um deles. Levantava cedo e depois de tomar um copo de leite com broa, lavava o rosto no quintal da casa, no tanque que tinha uma enorme bica correndo o tempo todo. Não secava nem na época da seca. Era lá que a Bastiana, sua mãe, lavava as roupas e as panelas.

Como a água corria o tempo todo, foi construído uma espécie de tanque que retinha a água na passagem e formava uma pequena piscina que era o local preferido para brincadeira da meninada. Além de Renan a Bastiana tinha mais quatro filhos todos separados de um ano e meio, sendo o mais novo de quatro anos, o Jerônimo. Todos circulavam com desenvoltura no meio do quintal, andando na linha do trem e no caminho da escolinha, apesar de só conhecerem sapatos nos pés dos outros. Eram bastante pobres e o pai deles vivia fazendo serviços pro Seu Belarmino que era o Coronel da região. Todos por ali deviam muito respeito pelo coronel que tinha domínio absoluto do pedaço. Mas o coronel também ajudava os agregados dando moradia, leite, e ajudava o meeiro sempre que podia. Ele na verdade era bom pros meeiros. Na época do plantio, quando sobrava tempo, o Bastião sempre era chamado pelo Coronel pra ajudar na lida do gado.

Renan era o segundo filho, e acima dele tinha a Joana, que apesar da tenra idade já sabia cozinhar um feijão com arroz, e fazer broa de fubá. O fogão era de lenha com o forno do lado, onde eram assadas as pequenas broas de fubá. Apesar de pobres, eles nunca passavam fome porque tinham sempre uns porquinhos na ceva, galinha à vontade, o arroz do gasto estava sempre guardado e o resto vinha da horta de couve, dos pés de fruta no quintal e de alguma troca que o Bastião realizava com o pessoal que também era meeiro do Coronel.

Pra chegar na escolinha, Renan e mais dois irmãos, a Joana e o Rubinho tinham que caminhar pelo pasto e depois pela linha de trem por quase uma hora. Em dias normais era até gostoso e uma distração, mas nos dias de chuva, quando o corguinho enchia era meio complicado. Teve vez que tiveram que voltar pra trás porque ficaram com medo de atravessar. Um dia tinha chovido muito e a água estava saindo do leito normal do córrego.

Seguindo a recomendação da Bastiana, elas chegaram lá e voltaram pra trás. Naturalmente ao chegar em casa esses meninos não tinham nada pra fazer e aí foram os dois mais novos pra roça de arroz e milho ajudar o Bastião. Claro que tanto o Rubinho quanto o Renan, adoraram o feriado forçado. E çá foram eles no caminho da roça encontrar o pai e levando a marmita deles e do Bastião.

O café ia numa garrafa de guaraná Caçula tampada com uma rolha. Tudo isso ia dentro de um embornal azul que servia especificamente para esse fim. Nesse dia além do caldeirão do pai também levaram outro embornal com a comida deles. Arroz, feijão, abobrinha e um pedaço de frango era o cardápio daquela refeição. Os meninos não tomavam café, mas beberam um bocado dágua. Após o almoço, Bastião levantou-se logo e foi continuar a passar carpideira no milho que já estava com 30 dias de plantado. O arroz que tinha sido plantado primeiro, já estava limpo e devido às boas chuvas estava verde que era uma belezura.

Rubinho e Renan, foram andar na lavoura de arroz à procura de melancia. Naquele tempo era comum jogar algumas sementes de melancia na lavoura pra o pessoal ter alguma distração. Digo assim porque as melancias normalmente eram bem sem graça, descoloridas, e sempre com o lado inferior esbranquiçado devido ao constante contato com o solo. Por muitas vezes encontrava-se melancia furada por algum inseto. Naquele dia Renan teve muita sorte.

Logo na entrada encontrou uma grande, com quase dois quilos. Ele olhou pro Rubinho sorriu e foi logo arrancando a Cucurbitácea, guardando debaixo do pé de Capitão pra comer mais logo. Saiu campeando outra melancia. Não foi muito difícil chegar a uma outra e logo mais uma. Ele se deu por satisfeito e levou as duas para debaixo do Capitão. Rubinho foi menos feliz e só encontrou uma. Como de regra, quem encontrasse a melancia tinha o direito de comer e aí mãos à obra, uma grande tarefa para a sobremesa.

Naquela altura o dia já estava bem quente e quando se olhava pra longe era possível ver o chão tremulando de calor. A vontade de comer melancia era grande independente do calor. A façanha seria inédita pois um exemplar daquele tamanho nunca tinha passado pelas mãos de Renan. Ele sacou da faquinha que tinha ido no embornal e enfiou bem no meio da danada. Aos pouco ele foi trabalhando a criança e teve acesso ao interior. A vontade de comer melancia superava a sua percepção de que ela não estava lá muito doce, que estava meio quente e que tinha uma cor assim meio pálida, e não vermelhona como aquelas que a gente conhece hoje.

Apartar as sementes dava muito trabalho e ele nem se importava muito. Comia tudo cuspindo alguma semente que ficava mais perto da ponta da língua. E foi se aprofundando na fruta. Abrindo mais espaço teve melhor acesso ao interior e aí começou a dar bocadas. Lógico que molhou todo o beiço e a camisa de saco de açúcar que ele tinha com seus três botões.

Rubinho foi mais comedido e comeu só um pedaço da melancia ruim que ele tinha apanhado jogou fora o resto e nem ligou pras outras que estavam por ali. Renan, depois de literalmente devorar a sua melancia, levantou, deu aquele arrotão e chamou o Rubinho pra ir embora. A tarefa deles já tinha sido cumprida. Já haviam levado a bóia pro pai e de quebra uma melancia no bucho.

No final do dia o Renan ainda estava lembrando da fruta. Era arroto toda hora. Nem quis jantar direito. Uma lambiscada no arroz, um pequeno pedaço de carne de frango e só. Anoiteceu e logo o jogo de sombras produzido pelas lamparinas de querosene tomou conta da casa. A casa deles não tinha forro e era possível escutar tudo que fosse barulho dentro e fora, pois o telhado tinha uma telhas grandes e algumas falhas que possibilitavam a entrada de raios de lua nos dias em que ela estava soberana no céu.

A noite de Renan não foi das mais agradáveis. Começou a ter algum mal estar ainda antes de adormecer. Durante a noite ele sonhou um bocado e chegou até a gritar em um certo momento, o que deixou o Bastião e a Bastiana preocupados, afinal ele nunca tinha feito isto. De manhã cedo, o menino estava com a barriga inchada, sem gracinha e não quis comer nada. De vez em quando dava nele uma cólica exagerada que ele encolhia todinho. Ele sabia que se peidasse melhoraria, mas que nada, parece que o vento tava muito distante da saída. E ele tava sofrendo, tadinho!

A Bastiana começou a ficar incomodada e com muito jeito perguntou qual tinha sido a comida diferente. O Renan meio sem graça falou da melancia, o que foi confirmado pelo seu cúmplice o Rubinho, que nessa hora já tava incomodado também. Não com o Renan, mas ele achava que a dele viria também, afinal no dia anterior ele teve o mesmo cardápio e o calor tava de doer.

A Bastiana mandou o Bastião na sede de fazenda correndo pra pedir ajuda pra D. Madalena, esposa do Coronel, que tinha muita prática, sabia de muito remédio caseiro e na base do chá ela tratava até de feiúra. Bastião meio sem jeito explicou o caso, falou do empanzinamento do menino e relatou a causa.

Dona Madalena não teve dúvida.
-Éh, só fazendo uma lavagem!

Foi lá no quarto dela e buscou dentro do gaveteiro um equipamento meio esquisito. Era um recipiente de alumínio que cabia quase 5 litros de líquido que tinha uma alça e no fundo uma saída onde se encaixava uma mangueira avermelhada com o calibre de mais ou menos meia polegada, com o revestimento interno preto. Parecia um pouco com um funil, mas era mais redondo e o fundo quase reto. Ela entregou o equipamento pro Bastião , deu algumas explicações, mas ele não tava muito a fim de ouvir as recomendações e virou pra trás andando a passos bem largos.

Chegando em casa, entrou pela porta da cozinha e chamou a Bastiana que nessa hora tava lá com o Renan na cama. Ela veio e ele disse que o caso era de lavagem e mostrou o aparelho que estava dentro de um embrulho de papel. A Bastiana embora conhecesse, nunca tinha gerenciado a aplicação daquilo. O Bastião então disse pra ela:
-É esquentar um pouco dagua e colocar pra dentro.

E assim fizeram. Mornaram 5 litros de água no fogão de lenha,
botaram o menino de bunda pra cima e engataram a magueira no traseiro dele. Tiraram todos os irmãos do quarto e ficaram só os três. Como tanto o Bastião como a esposa eram inexperientes na aplicação do clister, colocaram toda a água no recipiente e levantaram para dar mais pressão e descer com mais eficiência. O depósito foi esvaziando e o menino foi sentindo a água dentro da barriga dele. Bastante incomodado ele ficou apoiado nos joelhos, e a água continuava descendo.

Chegou um momento que ele pediu pra parar mas como faltava muito pouco pra descer todo o líquido dentro do reservatório, o Bastião achou que dava pra ir mais um bocadinho. E foi nesse momento que aconteceu o tiroteio. Devido à grande pressão provocada dentro da barriga do menino, a mangueira desengatou e o líquido enriquecido com sementes de melancia esguichou direto na parede deixando-a toda marcada parecendo tiro de cartucheira quando os chumbos atingem a parede. O susto foi grande e a riisada dos meninos também, afinal não tinha porta, e todos eles estavam de olho no que ia acontecer. E aconteceu. Renan se levantou e sentou no pinico, mas já era tarde!


Médico Veterinário
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Fonte: Página Rural
















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