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Quinta-feira, 26 de junho de 2008 - 20h18m

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Esperteza



Imagens

Heraldo Marcus Rosi Cruvinel

Foto: Via Informação / Página Rural



Por Heraldo Marcus Rosi Cruvinel

Seu Heloisio, um fazendeiro de Veríssimo, criou todos os filhos tirando o sustento da Fazenda Grotão. Lá ele possuía um rebanho de corte com vacas mestiças de Nelore, um rebanho leiteiro de umas 50 cabeças girolandas com diversos graus de sangue, variando mais para o Holandês do que para o Gir. Ele teve um grande rebanho Gir, descendência de Chave de Ouro e do Krishna, mas com a decadência da raça ele foi modificando o rebanho, colocando touros holandeses e fez um bom gado de leite.

Além do gado, ele trabalhava plantando um alqueire de arroz e três de milho. Não fazia silagem porque não tinha as máquinas para cortar e seu trator era um Cinquentinha ano 68. As lavouras se concentravam nas belíssimas baixadas que ele possuía, resultante das grotas de morro que se formavam. Daí o nome da fazenda. Na seca ele tratava com capim picado e cana que ficavam logo atrás do curral numa encosta que era um culturão danado. Comprava caroço ou farelo de algodão.

Na fazenda dele era comum desmamar bezerros com 7 arrobas, um feito raro para aquele local, principalmente considerando que ele não era muito chegado a fornecer sal mineral pro gado. De vez em quando ele usava o sal mineral como vendido, mas na maioria das vezes ele dissolvia com sal branco.

As terras realmente ajudavam e ele ia vivendo com seus 300 litros de leite diários, somente uma ordenha, trabalho matinal de três empregados. O Julio tinha 34 anos, nascido em Barretos, SP, era o mais tarimbado com o gado de corte. Laçava que era uma beleza. Dava show na peãozada. Enquanto os outros dois enchiam um latão de leite, ele sozinho enchia o dele. E não é pra pensar que ele ficava escolhendo vaca. Qualquer uma que viesse, dura ou mole, ele passava a mão rapidinho.

O Ricardo gostava de trator, era casado e tinha três filhos. Veio de Goiás já casado. Os filhos estudavam na escola da cidade que não ficava muito longe. O Vandim era o mais novo, xodó do Seu Heloisio, malandro que dói. Solteiro, ele só falava em servir a aeronáutica em Brasília, mas de avião mesmo ele só conhecia o barulho. Uma vez na fazenda do lado pousou um teço-teco, pouso de emergência, e ele foi lá pra sapear. Encheu tanto o saco do piloto que o dono da fazenda teve que mandar ele buscar um alicate de pressão do Seu Erundino pra ficar livre dele. Quando ele voltou o avião tinha sumido no ar. Só empurrava serviço e gostava mesmo é de dar o nó na moçada.

Dia de chuva só ficava de lado, enrolando, até que a água da chuva molhava a cueca. Daí pra frente ele funcionava melhor, afinal tinha que acabar logo pois o leiteiro ia passar às 7 e meia.

Naquela época não tinha cocheira e a vacada era ordenhada no curral de terra ou de barro. O banquinho pra sentar era aquele com um pé só, amarrado na cintura. Cada um tinha o seu e cuidava dele. No tempo de chuva o banquinho ia afundando no barro e cada vez mais o peão ia ficando agachado. As peias eram feitas com pelo do rabo das vacas, enroladas ou trançadas. Elas eram as melhores porque enxugavam logo e não apodreciam nunca. Naquela região tinha o nome de cedem, que confesso não conhecer a etimologia da palavra.

O Vandim tinha sempre as vacas escolhidas na hora da ordenha. Puxava sempre as macias e resmungava se outros pegassem as “suas”. Dentre elas estava a Jangada, que era uma vaca amarela com algumas manchas mais avermelhadas na região da paleta, dos dois lados. Era uma vaca que tinha sido trocada com o vizinho, e portanto fugia totalmente do padrão do gado do Seu Heloisio. Ela era mocha, mestiça de Indubrasil, peito comprido, daqueles que o bezerro não pega quando novo, pesava aproximadamente umas 16 arrobas e tinha uma tirada que era a própria manteiga de tão mole. O balde derramava sempre pois a espuma ia alta, o que era motivo de gozação em cima do Julio e do Ricardo, principalmente deste que não conseguia descontar em outra vaca.

A Jangada era meio gulosa e batia nas outra no cocho. Embora ela não tivesse chifres ela era bem disposta a disputar os melhores locais na beirada do cocho, principalmente nos dias em que o Vandim fazia o “trato”. Como ele era preguiçoso e não misturava direito o capim com o farelo, ficavam verdadeiros ninhos de farelo, bem no estilo dos modernos “chocotones”. A Jangada se esbaldava e dava bastante cabeçada. Era a rainha do cocho. A primeira a chegar e a escolher seu lugar. Daí a pouco ela arranjava outro parador e ai pegando a maior parte do farelo. O Vandim gostava....

Um belo dia de maio, Seu Heloisio notou que a Jangada estava diferente. Ela já entrou no curral mais devagar, ficou quieta no seu canto, meio apática sem aquela esperteza de sempre. As orelhas meio acabanadas, o olhar triste e a venta sequinha. Experiente, Seu Heloisio ficou de olho. O Vandim logo notou que o leite dela tinha quebrado. Ela quase não desceu pro bezerro, deu pouco mais de 3 litros. Ele chamou logo o patrão. Seu Heliosio achou que deveria ser alguma infecção, provavelmente de pulmão, já que tinha chovido dois dias antes e o tempo tinha mudado pra frio. Por pouco não caiu geada, coisa muito rara naquele mês.

Terminada a ordenha a vaca deitou no curral do lado onde elas ficavam até serem levadas para o pasto. Como era maio, ainda não estavam tratando do gado e ele tinha que se virar pelas encostas e os pequenos brejos. A sorte é que tinha chovido muito naquele ano e o pasto ainda não estava de todo rapado.

A suplementação só viria em junho. No local que ela estava ela ficou. Tomou uma dose de Pentabiótico ali mesmo, sem sequer se debater e o caso foi só se agravando. A vaca não quis comer nos três dias que se seguiram. Água ela bebia sem muita vontade na bacia de tomar banho do neto do Seu Heloisio.

Aquela bacia de plástico era ideal pra dar água pra vaca, pois cabia bem uns 15 litros sem risco de derramar. No quarto dia ela começou a comer a mistura de capim com farelo, que tinha chegado da cooperativa no caminhão do leiteiro. E ela começou a se animar. E quanto mais ela se animava, mais o Vandim tratava dela. Num levantava nem pra obrar. O traseiro dela ficou sujo de bosta que foi secando e grudando. Todo mundo se animou mas Seu Heloisio num tava achando graça nenhuma naquilo. A vaca melhorou tudo mas não levantava.

O curioso é que parece que ela tentava levantar pois amanhecia em outro local. Naquela época, houve um “surto” grande de botulismo, porque a doença começou a ficar conhecida na região, normalmente favorecida pela pequena suplementação de minerais. Qualquer vaca que deitava logo já diziam que era botulismo. No caso da Jangada tinha tudo pra ser mesmo porque ela estava bem atenta com suas atividades normais, só que não levantava.

Um dia, quase uma semana depois, Seu Heloisio teve uma grande idéia e no final da tarde ele pegou um pedaço de pororoca e amarrou dois sacos de aninhagem,, como se fosse vassoura para campo de tênis de saibro, alisou toda a superfície do curral. Não foi muito difícil, primeiro porque o curral não era lá muito grande, e porque como não tinha chovido a uns dez dias, a terra do curral já estava formando poeira. Deixou a vaca deitada a uns dez passos da porteira de entrada, virada para o Pasto da Madrinha que era onde as vacas de leite pousavam.
No dia seguinte, de manhã cedinho, ele chegou no curral, como sempre trazendo o café e olhou pelo meio das tábuas e viu que a Jangada estava em outro local, mas ainda virada pro Pasto da Madrinha. Coçou a testa e resmungou:
- “Cê me paga...”.

O pessoal foi chegando pra ordenha, cada um com seu balde e suas cordas. O Julio, mais experiente, agachou-se um pouco e olhou pro lado da Jangada. Em seguida olhou pro patrão que sacudiu a cabeça em silêncio. O céu foi clareando e a ordenha foi acontecendo sem novidades. Quando deu mais ou menos 6 horas, Seu Heloisio foi levar o bule de café na cozinha e confirmou o que ele já estava prevendo. Lá estavam lá as marcas de pés da Jangada! E pior tinha bosta novinha do outro lado do curral.

O mesmo pedaço de pororoca que serviu pra alisar o chão serviu pra bater na vaca. Ele chegou a madeira sem dó. Depois de umas boas seis varadas, a vaca deu um berro se levantou e saiu correndo de medo. O Vandim ficou assustado pois nunca tinha visto Seu Heloisio com tanta agilidade. Ele corria atrás da vaca com o pedaço de pau na mão, apertando o beiço e gritando:

-Ô fia da puta! Vai dá leite, safada.
Depois ele abriu a porteira e passou a Jangada pra dentro junto com as outras vacas.


Médico Veterinário 

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Fonte: Página Rural
















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