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Quinta-feira, 25 de junho de 2009 - 20h23m

Pesquisa > Plantas Nativas

Pesquisas de espécies medicinais nativas



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Ana Valéria de Souza

Foto: Divulgação



Por Ana Valéria de Souza


O valor medicinal das espécies vegetais é reconhecido pelo homem desde os primórdios da humanidade, e durante séculos, as plantas representaram a única fonte de princípios terapêuticos para o desenvolvimento de medicamentos. Atualmente, 25% de todos os medicamentos prescritos nos países industrializados, são originários de plantas (Hostettmann et al. 2003). 

O panorama econômico atual mostra que o mercado de fitoterápicos no Brasil e no mundo é potencial e encontra-se em plena expansão. Informações obtidas em um banco de dados coletados em 2008, indicam que os fitoterápicos representam, atualmente, cerca de 5% no faturamento do mercado farmacêutico brasileiro (Portal Fator Brasil, 2008). 

No período de novembro de 2003 a outubro de 2006, o segmento brasileiro de fitoterápicos faturou um valor estimado em R$ 1.840.228.655 (Freitas, 2007) e Simões e Schenkel (2002), cometam que o mercado para terapia à base de plantas medicinais movimenta, aproximadamente US$ 500 milhões, anualmente, somente no Brasil. As previsões para o faturamento brasileiro neste setor, ultrapassa a marca de US$ 1 bilhão até 2010 (Portal Fator Brasil, 2008). Na Europa e Estados Unidos, os valores deste faturamento em 2000, ficaram em torno de US$ 8,5 e 6,3 bilhões, respectivamente. 

Este crescimento econômico do mercado de fitoterápicos, ocorreu a partir do avanço das pesquisas na área da química de produtos naturais entre as décadas de 80 e 90. A geração de um número significativo de informações com respaldo científico, possibilitou a comprovação do efeito terapêutico de inúmeras substâncias bioativas de origem vegetal, assim como validou a utilização de várias plantas medicinais.

Contudo, os trabalhos realizados estão aquém do necessário, principalmente, no tocante às plantas medicinais nativas. O Brasil é o país com a maior diversidade genética vegetal do mundo, com um total estimado entre 350.000 e 550.000 espécies (Sandes e Di Blasi, 2000), mas somente 8% da flora nativa foram estudadas na busca de compostos bioativos e 1.100 avaliadas quanto as suas propriedades medicinais (Garcia et al. 1996). Pesquisas nas áreas agronômica e biotecnológica, também são incipientes e/ou inexistentes, para a maioria dessas espécies. 

A diversidade em termos de estrutura e de propriedades químicas de substâncias biologicamente ativas e potencialmente úteis ao homem, encontradas nas plantas medicinais nativas é imensurável e pode representar a possibilidade de cura, até então desconhecida, para inúmeras enfermidades. 

A importância de trabalhos nesta área levou o Governo Federal a estabelecer uma Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (MS 2006), como forma de garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, além de promover o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria farmacêutica nacional.

Dentre os biomas existentes no país, a Caatinga é o único exclusivamente brasileiro e ocupa a maior extensão territorial da região Nordeste com clima semi árido. Por ser delimitado por uma paisagem biogeográfica definida e devido o número insuficiente de estudos realizados no passado, este ecossistema sempre foi apontado como pobre em biodiversidade. Entretanto, trabalhos recentes comprovam que esta é a região menos conhecida da América do Sul, quanto à diversidade de espécies vegetais. Relatos da literatura ressaltam que 80% da área total da Caatinga está subamostrada (Tabarelli e Vicente, 2002).

De acordo com Silva et al. (2003), este bioma não é pobre em espécies e/ou endemismos. Apesar de sua biodiversidade ainda ser muito mal conhecida, é mais diversa que qualquer outro bioma no mundo, o qual esteja exposto às mesmas condições de clima e de solo.

O acervo de espécies vegetais endêmicas da Caatinga é riquíssimo, com significativo potencial de uso pela população da região semiárida, principalmente como plantas medicinais. Não obstante, toda exploração com finalidade madeireira, alimentícia, melífera, artesanal e medicinal, dentre outras, tem sido realizada de maneira extrativista predatória, sem a preocupação quanto à conservação.

Atualmente, este quadro tem se tornado preocupante, porque além dos trabalhos insuficientes no que se refere à catalogação da flora nativa, a Caatinga encontra-se entre os ecossistemas mais alterados pelo homem, onde muitas espécies medicinais encontram-se em risco de extinção, sem que tenham sido devidamente estudadas. Aproximadamente, 45% de sua área total já sofreu algum tipo de pressão antrópica e somente 1,6% está protegida em Unidades de Conservação de uso indireto (Tabarelli e Vicente, 2002). A biodiversidade da Caatinga já foi significativamente reduzida (MMA, 2002). 

O risco de erosão genética em que as espécies medicinais nativas da Caatinga estão submetidas é significativo, pois além da exploração extrativista, o aumento da temperatura do planeta pode causar danos irreversíveis nos seus mecanismos de reprodução e nesse caso, estas passariam a sobreviver em seus ambientes como mortas-vivas, ou seja, incapazes de se reproduzirem. 

Neste contexto, nota-se a relevância de estudos voltados ao estabelecimento de programas que objetivam solucionar questões relativas à produção, exploração sustentável e conservação das plantas da Caatinga. Pesquisas nas áreas etnobotânica, fitoquímica, agronômica e biotecnológica para estas espécies endêmicas, permanecem como necessidade urgente e um desafio. 

Na Embrapa Semi-Árido, pesquisadores estão desenvolvendo ações voltadas à identificação, caracterização, propagação e cultivo das espécies da Caatinga com potencial medicinal. A instalação de um Banco Ativo de Germoplasma para o Semiárido, visando a conservação das espécies, em condições de campo e laboratório estão entre as ações previstas. 

O estabelecimento de Bancos Ativos de Germoplasma (BAGs) para a conservação de espécies vegetais nativas é uma garantia, porque permite o acesso ao material genético para caracterização, domesticação, desenvolvimento de novas variedades e prospecção de genes, além de conservar a espécie protegendo-a da erosão genética. 

Uma coleção de germoplasma mantém genótipos, genes ou alelos de uma espécie em particular, obtidos em fontes ou locais ecogeográficos diferentes e organizados em estruturas adequadas, para promover sua conservação e utilização (Freire et al. 1999).

As tecnologias geradas com as pesquisas, além de amenizar o risco de extinção das espécies, no futuro poderão servir de subsídio para a geração de emprego e renda aos agricultores da região semiárida, por meio do fornecimento de matéria prima para a indústria farmacêutica de fitoterápicos, com interesse na fabricação de medicamentos a partir das espécies nativas deste bioma. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, M. S.; MORALES, E. A V.; BATISTA, M. F. Diversidade Genética. In: Vieira, N. R. A.; Santos, A B.; Sant’ana, E. P. (Ed.). A cultura do arroz no Brasil. Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 1999. p. 559-581./

FREITAS, A. Estrutura de mercado do segmento de fitoterápicos no contexto atual da indústria farmacêutica brasileira. Ministério da Saúde - Núcleo Nacional de Economia da Saúde, Brasília, 2007, 15p.

GARCIA, E. S.; SILVA, A.C. P.; GILBERT, B.; et al. Fitoterápicos. Campinas, 1996, 17p. 

HOSTETTMANN, K.; QUEIROZ, E. F.; VIEIRA, P. C. Princípios ativos de plantas superiores. EdUFSCar, 2003, 152p.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006. Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Série B - Textos Básicos de Saúde. Brasília, 60p. 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2002. Biodiversidade Brasileira: Avaliação e Identificação de Áreas Prioritárias para Conservação, utilização Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade Brasileira. Série Biodiversidade n.404pp.

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2008. Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção. 55p. Disponível em: www.ibama.gov.br/sisbio/legislacao.php?id_arq=42 Acesso em: 08 de dezembro de 2008.

SANDES, A . R. R.; DI BLASI, G. Biodiversidade e diversidade química e genética. In: Biotecnologia Ciência e Desenvolvimento, Uberlândia, Ano 2, n.13, p.28-32, 2000.

Portal Fator Brasil. Medley entra no mercado de fitomedicamento. http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=39300. Acesso em 10/05/2008. 

SILVA, J.M.C.; et al. Biodiversidade da caatinga: áreas e ações prioritárias para a conservação. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente: Universidade Federal de Pernambuco, 2003.

SIMÕES, C. M. O .; SCHENKEL, E. P. A pesquisa e a produção brasileira de medicamentos a partir de plantas medicinais: a necessária interação da indústria com a academia. Revista Brasileira de Farmacognosia, v.12, n.1, p.35-40, 2000.

TABARELLI, M.; VICENTE, A. Lacunas do conhecimento sobre as plantas lenhosas da Caatinga. In: SAMPAIO, E.V.S.B.; GIULIETTI, A.M.; 

VÍGINIO, J. GAMARRA-ROJAS, C.F.L. Vegetação e Flora da Caatinga. Recife, Associação de Plantas do Nordeste – APNE; Centro Nordestino de Informações sobre Plantas, CNIP, 2002, p.25-39.



Pesquisadora em Biotecnologia Vegetal Aplicada ao Meio Ambiente.

E-mail: ana.valeria@cpatsa.embrapa.br


Fonte: Embrapa Semiárido
















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