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Quarta-feira, 04 de novembro de 2009 - 17h23m

Eventos > Política Agrícola

Planejamento estratégico para produção de alimentos



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João Sampaio

Foto: João Luiz / SAA-SP



Por João Sampaio

Novas estatísticas da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) ratificam que a fome atinge 1,02 bilhão de seres humanos. Nem mesmo as nações desenvolvidas estão imunes a esse flagelo. As pessoas submetidas à insegurança alimentar são 53 milhões na América Latina e Caribe; 42 milhões no Oriente Médio e Norte da África; 15 milhões em países ricos; 642 milhões na Ásia e no Pacífico; e 265 milhões na África subsaariana.

Os dados constam do estudo “Insegurança Alimentar no Mundo”, divulgado em Roma, na sede da FAO, onde esta celebrou seu 64º aniversário (foi fundada em 16 de outubro de 1945). O conteúdo do relatório é subsídio consistente para a Conferência Mundial que a entidade realizará na capital italiana, de 18 a 23 deste mês de novembro, com o propósito de buscar soluções capazes de mitigar o problema. Há um grande e pertinente esforço no sentido de que o evento sensibilize os líderes mundiais quanto à premência de soluções. É decisivo inverter a atual curva decrescente da ajuda oficial ao desenvolvimento da agropecuária, que caiu 58% entre 1980 e 2005. Este dado sugere que o Planeta está carente de estadistas...

Para o atendimento à prioridade de combate à fome, considerando-se o atual contingente de pessoas submetidas à insegurança alimentar e a prevenção quanto ao futuro, a FAO indica ser necessário investimento anual de US$ 83 bilhões no agronegócio, nos países em desenvolvimento, de hoje até 2050. O mundo terá nesse ano, estima-se, 9,1 bilhões de habitantes, cerca de três bilhões a mais em relação a 2009, o equivalente ao dobro da população da China.

De nada adianta produzir estudos aprofundados e exatos em seus diagnósticos se o conhecimento não for traduzido em ações concretas. Este é um alerta a ser considerado no caso do Brasil, que tem no aspecto da produção de alimentos grande responsabilidade ante seu povo e os habitantes da Terra. Afinal, é a nação com a maior área agricultável disponível, as melhores condições de clima e solo e uma agropecuária competente e organizada.

Tal posição, contudo, não deve ser encarada como se fosse um oneroso compromisso, mas sim como real oportunidade de fazer valer essa imensa capacidade como diferencial competitivo para o desenvolvimento. No entanto, estamos perdendo tempo, pois se nota a carência, no âmbito do Governo Federal, de um olhar mais amplo quanto à conjuntura e às perspectivas que se abrem. Brasília parece ignorar que o setor rural tornou-se o principal cacife do País neste século. Nossas melhores perspectivas de ascender ao primeiro mundo encontram-se na elevada capacidade de fornecer alimentos e atender à demanda de combustíveis renováveis e menos poluentes. Desse modo, é incompreensível a precariedade das políticas públicas voltadas ao campo, incluindo inaceitáveis problemas quanto ao crédito agrícola e seguro rural, total desconsideração com a crescente dívida dos produtores, insegurança física e jurídica das propriedades produtivas e fragilidade de iniciativas mais focadas na produção de alimentos.

Em paralelo a esses gargalos, que continuam à espera de solução, é imprescindível, por exemplo, acabar com a anacrônica dicotomia entre a agricultura familiar (vocacionada à cultura de produtos alimentícios) e a empresarial (mais focada nas commodities e biocombustíveis). É importante entender que ambas se complementem, são decisivas para o Brasil e devem ser altamente produtivas. Porém, os pequenos produtores precisam de mais assistência técnica, financiamento, melhoria da produção e capacitação profissional. A fragilidade do apoio que recebem não estaria na base das causas da baixíssima produtividade das propriedades resultantes da reforma agrária, apontada pela pesquisa que acaba de ser divulgada pelo Ibope? Mais do que reações emocionais como se verificou no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, o relatório deveria suscitar séria reflexão...

É espantoso que os dados divulgados pela FAO e outros organismos multilaterais passem despercebidos. Será que ninguém do Governo Federal deu-se conta de que o aumento da população da Terra e a constatada mudança de hábitos alimentares, principalmente de chineses e indianos, exigirão um planejamento estratégico do agronegócio? É como se este não fosse um grande trunfo econômico e o principal responsável pelo superávit de nossa balança comercial, 17% dos empregos e mais de 30% do PIB nacional. O mundo está em alerta quanto à fome, conforme se verificou na celebração da Semana e o Dia Mundial do Meio Ambiente (16 de outubro). E o Brasil?


Economista, secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CONSEA).

E:mail: joaosampaio@agricultura.sp.gov.br


Fonte: ww
















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