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Terça-feira, 22 de dezembro de 2009 - 19h14m

Agronegócio > Economia

Transformações da agricultura em dez anos



Por Eduardo Corrêa Riedel

Quando parei para refletir sobre a evolução da agricultura nestes dez anos passados, logo percebi que não poderia deixar de mencionar algumas passagens importantes que antecederam este período mas que foram fundamentais para o desenvolvimento de nossa agricultura nesta década que passou.

A revolução verde que se iniciou nos anos 50 e 60 nos EUA colocou a agricultura mundial em um patamar de produção ainda não visto, que fez com que o Brasil saísse de uma produtividade média de cerca de 900 kg de grãos por há em 1965 para cerca de 3.000 kg/há em 2005. Neste extenso período muitas foram as conquistas tecnológicas para a abertura de nosso cerrado, desenvolvimento de cultivares, conhecimento na área de fitotecnia, fitossanidade e fertilidade, bem como a imensa evolução da profissionalização de nosso produtor.

O “milagre” econômico da década de 70 no Brasil levou a expansão horizontal de nossa área de produção com todos os programas de incentivo a ocupação, mas a grande alavanca da produção ocorreu da melhoria da tecnologia aplicada nos sistemas produtivos, que só no MS fez com que de 1980 até hoje a produção de grãos aumentasse em 246 %, enquanto a área plantada sofresse expansão de 72%.

Na década de 90 o Plano Real e a estabilidade da moeda cobrou seu preço, e a chamada âncora verde deixou uma fatura ao setor que levou aos programas de securitização e pesa, após os “tratoraços” e “camionaços” que pararam Brasília. A agricultura estava quebrada e a revitalização do setor era necessária. Bem, chegamos ao período de nossa conversa, com um inicio de século prometendo grandes avanços em políticas públicas para o setor agrícola e nutrindo expectativas positivas no setor.

O negócio agrícola exige o gerenciamento de quatro grupos de risco: crédito, produção, clima e comercialização. No Brasil, a evolução do crédito oficial tem sido inegavelmente ampliada de 2000 até a última safra, quando atingimos 107 bilhões de reais disponíveis ao setor, sendo cerca de 50 bi para custeio e o restante para as mais diversas linhas de financiamento, de investimentos a comercialização.

Este volume, com as devidas correções, se equipara ao volume de crédito ofertado no ano de maior disponibilidade de crédito na década da expansão agrícola, nos anos 70. A questão é que a demanda do setor, só para custeio, se encontra na casa dos 150 bilhões de reais, em função do crescimento da atividade e dos custos de produção. Esta diferença está sendo custeada pelas empresas fornecedoras de insumos e pelas tradings, bem como pelo recurso próprio do produtor.

Uma limitação séria ao crédito no País é o endividamento do setor, que pode chegar aos incríveis 120 bilhões de reais e que limita fortemente o acesso dos produtores ao crédito novo. Esta década foi marcada por uma expansão dos investimentos de 2000 até 2005, com vários programas de incentivo ao investimento como moderinfra e moderfrota e com uma conjuntura cambial e de valorização das principais commodities agrícolas neste período que favoreciam o produtor, levando-o a investir.

O que se viu a partir de 2005 foi justamente o inverso: uma política cambial perversa ao produtor, aumento expressivo dos custos de produção e quebras sucessivas de safra. O resultado foi desastroso, com repetidas safras sem renda desde então e aumento do endividamento contraído anteriormente, que faz a securitização de 96 parecer “criança”, com seus 20 bi renegociados. O BNDES irá apresentar agora em dezembro na CNA o volume de dívida nos estados com relação aos seus programas de investimento. Estima-se que em alguns estados a inadimplência nestas linhas de crédito chegue a 53%.

O segundo risco do negócio agrícola, produção, talvez seja o melhor gerenciado pelo produtor, e o que mais avançou no País nesta década. É impressionante a capacidade do produtor de utilizar tecnologias desenvolvidas em todo o mundo e principalmente no Brasil em seus sistemas de produção e de se manter atualizado quanto ao seu desenvolvimento.

O agricultor brasileiro domina as técnicas de produção e sabe, em cada região deste País, o que se aplica melhor, com o auxílio de uma inestimável assistência técnica de agrônomos e técnicos competentes formados em nossas escolas. Nesta década o Brasil entrou definitivamente para a era dos transgênicos, sem dúvida nenhuma outra grande revolução na agricultura. A discussão de cunho ideológico atrasou este processo em pelo menos 8 anos, e quem perdeu foi nossa pesquisa e nossa competitividade.

O risco climático é o que tira o sono de nosso produtor. A ferramenta do seguro rural é a mais indicada para gerenciar este risco e está sendo nesta década que este instrumento tem ganho consistência. Muito longe do ideal, o seguro vem com uma credibilidade diferente com relação aos “pró-agros” do passado e com subvenção ao prêmio por parte do Governo Federal, que apesar do volume insuficiente tem aumentado ano a ano. Temos que aumentar urgentemente o nível de cobertura e adequar o valor do prêmio, mas estamos em um caminho sem volta para sua efetividade.

A Comissão de Agricultura da Famasul tem priorizado esta discussão em âmbito Federal por entender que esta é a melhor ferramenta de gestão do risco climático e conseguiu importantes avanços para o estado do MS nos últimos 5 anos. Fica aqui a sugestão para o governo do estado implementar sua participação na subvenção ao prêmio. Com não mais do que 10 milhões de reais auxiliando 25% do prêmio, a serem alocados progressivamente, teríamos a proteção de uma geração de mais de 1 bilhão de reais em valor de produção. Ganha a sociedade!

Por fim, o risco de comercialização. E foi neste inicio de século que a sopa de letrinhas (principalmente PEP e PROP) se transformaram em instrumentos importantes para melhorar a renda do produtor. O desafio é o orçamento da união que nunca é o suficiente para fazer frente a política cambial vigente, que não dá trégua a formação de preço de nossos produtos.

Em outra frente, o produtor está muito mais consciente na definição de sua política de comercialização, utilizando-se dos instrumentos de mercado para gerenciar a venda de sua safra com antecipação, buscando aproveitar os melhores momentos deste mercado. Esta é a década da informação e os agricultores estão antenados nos movimentos globais de compra e venda, oferta e demanda, produtividades; definitivamente estão mais fora da porteira vendendo seus produtos.

Bem, no Brasil atual muitos desafios estão postos para mais dez anos de evolução do setor. Estamos acostumados a ouvir que somos a fazenda do mundo, mas na última reunião da FAO em Roma anunciaram que no planeta tem mais de 1 bilhão de pessoas com fome, e que serão mais 200 milhões em breve, alertando para a falta de comida. Nesta década atingimos a incrível marca de maior produtor e exportador de carnes, maior exportador de soja, de açúcar, de suco de laranja, assumindo destaque no papel e celulose, no etanol.

O que impressiona é que temos a capacidade de dobrar a produção de todos estes produtos sem derrubar nada de florestas. E porque estamos estagnados? Muito fizemos nesta década mas não conseguimos consolidar uma política pública voltada para a proteção da renda do setor, que envolve os fatores mencionados anteriormente, e sem renda, não há investimento. Os 300 bilhões de dólares aplicados em subsídios agrícolas pelos países desenvolvidos anualmente são um forte limitador de nossa competitividade. O ambiente político institucional também é primordial para nosso desenvolvimento. A legislação ambiental ultrapassada deixa o produtor na condição de marginalizado e a insegurança jurídica nas questões fundiárias inibe investimentos.

Pois é, minha esperança é que o produtor, acostumado que é a trabalhar na fazenda, sabe que seu negócio é penoso, de longo prazo, que se constrói a fertilidade aos poucos, que o melhoramento é lento. E com este estilo de vida está construindo a Fazenda Brasil, que sem dúvida nenhuma será a mais eficiente de nosso planeta. É nos prepararmos para mais dez anos de desenvolvimento com dedicação e muita vontade e união para vencer todos estes desafios.


Vice-presidente da Federação da Agricultura do Mato Grosso do Sul (Famasul)

E-mail: famasul@famasul.com.br



Fonte: Famasul
















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