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Terça-feira, 29 de dezembro de 2009 - 19h31m

Agricultura > Agroecologia

Agricultura Madija (Kulina)



Por Moacir Haverroth (1) e Paula Rosane M. Negreiros (2)


Os Madija (lê-se Madihá) são agricultores, caçadores e coletores. Sua agricultura tem como principal cultura alimentícia a macaxeira, também utilizada para o preparo da caiçuma, bebida indígena artesanal, fermentada por meio de mastigação e salivação. Entre as culturas importantes também estão a banana, o mamão, o milho, o cará, a batata-doce, o inhame e a taioba. Cultivam ainda algodão para a tecelagem, urucum para a pintura corporal, várias espécies de tingui para uso na pesca, tabaco para preparo de rapé, pimentas e outras espécies em menores proporções. Seus sistemas de produção e uso de recursos naturais são de baixo impacto ambiental, permitindo a conservação dos ecossistemas.

Nas aldeias, a agricultura é praticada utilizando a técnica da coivara (derruba e queima para preparar a área destinada ao plantio). Com essa prática, o roçado é mantido por cerca de cinco anos. Após esse período, é feita abertura de outras áreas para implantação de novos roçados. Áreas de roçados antigos são deixadas em pousio, passam pelas fases de capoeira e mata secundária, podendo ser novamente transformadas em roçado. Essas práticas agrícolas são mantidas por esse povo desde tempos imemoriais. Com essa técnica, se adaptaram ao seu ecossistema e a transmitem culturalmente de geração em geração.

O cultivo dos roçados está regido por duas estações: o ‘verão’, período seco que se estende, aproximadamente, de maio a outubro; e o ‘inverno’, estação das chuvas, que ocorre entre novembro e abril. Esse ciclo anual orienta não só o calendário sazonal das atividades ligadas à abertura (broca), derrubada, queima, plantio, limpeza e colheita, como determina as espécies de animais, peixes e frutos disponíveis em cada época e local. O calendário de atividades agrícolas é resultado do acúmulo de experiências desse povo ao longo de sua história.

No início do verão, os Madija começam a procurar os melhores locais para fazer os roçados. No decorrer dos meses de maio a novembro, sucedem-se as etapas de preparo da área. No início das chuvas ou pouco antes, há o plantio, sendo realizada a colheita durante todo o ano, conforme a época de produção das espécies cultivadas. O trabalho, feito de forma independente por cada grupo familiar, é conduzido pelo chefe, que organiza mutirões com seus filhos, irmãos solteiros, cunhados e agregados. Após a limpeza do terreno, as mulheres passam a participar das atividades de plantio e, principalmente, de colheita. Cada família possui de um a três roçados produtivos, além de algumas capoeiras, de onde continuam a extrair alguns produtos que persistem no local por algum tempo, como, por exemplo, banana, mamão, cana, manivas de mandioca e mudas de batata-doce.

Não apenas as línguas fazem a diferença entre as sociedades indígenas, mas também seus costumes, instituições, visões de mundo, ritos e cânticos, danças e artefatos, suas relações com o ambiente natural e com outras sociedades. Cada uma tem suas peculiaridades, sua configuração própria e única. Na agricultura, alguns aspectos são compartilhados por grupos vizinhos, mas há particularidades que estão estritamente ligadas à cultura de cada grupo. No caso dos Kulina, um aspecto importante é o que se pode chamar de impacto mínimo, ou seja, só se derruba o que for realmente necessário para abrir caminhos ou para fazer os roçados que, em geral, são relativamente pequenos. Esse tamanho reduzido acelera o processo de regeneração da floresta após o “abandono” do local, quando buscam áreas para novos roçados.

O trabalho familiar agrícola dos Madija se caracteriza por estabelecer relações produtivas com base na reciprocidade das obrigações familiares e não em relações salariais. Além disso, objetiva a reprodução social e cultural da família e da comunidade, não a acumulação de capital. A composição familiar determina, por sua vez, a forma que assumirá a divisão do trabalho, culturalmente definida conforme a oposição que se estabelece entre casa e roçado, feminino e masculino. As características naturais locais, como tipo de solo, vegetação e sazonalidade (verão/inverno), têm papel fundamental na definição do calendário agrícola. O conhecimento acerca desses fenômenos é parte da cultura kulina.

Por meio de projeto de pesquisa da Embrapa Acre, o conhecimento dos Kulina do Rio Envira sobre a natureza, principalmente dos vegetais, está sendo sistematizado e mostra a grande diversidade de espécies conhecidas e manejadas. Isto se reflete na agrobiodiversidade própria dos Kulina e na forma como cultivam os roçados, onde utilizam práticas características de agrofloresta sucessional.


(1) - Biólogo, doutor em Saúde Pública e pesquisador da Embrapa Acre - Rio Branco/AC
E-mail: moacir.haverroth@cpafac.embrapa.br


(2) - Acadêmica de Ciências Biológicas na Uninorte
Estagiária na Embrapa Acre - Rio Branco/AC


Fonte: Embrapa Acre
















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