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Segunda-feira, 26 de abril de 2010 - 08h04m

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Integração Lavoura-Pecuária-Floresta



Por Ronaldo Trecenti

O crescimento da população mundial e a inserção de novos contingentes no mercado consumidor tem gerado crescente demanda mundial por matérias-primas, alimentos, fibras e agroenergia e consequentemente forte pressão sobre os recursos naturais (solo, água, ar e biodiversidade), podendo colocar em risco a oferta desses produtos para as gerações futuras, a estabilidade econômica mundial e a sustentabilidade do planeta.

O aumento da oferta de alimentos, fibras e agroenergia pode se dar por meio do crescimento da área cultivada e do aumento da produtividade. Porém, a sociedade tem pressionado para que o aumento da área cultivada não se dê através dos desmatamentos, especialmente em biomas frágeis e/ou estratégicos como a Amazônia e o Cerrado brasileiro e para que o aumento da produtividade não dependa cada vez mais do maior uso de insumos que a sua produção e/ou consumo sejam causadores de emissões de gases de efeito estufa (GEE), como combustíveis fósseis, fertilizantes, herbicidas etc.

Então parece mais sensato recuperar a capacidade produtiva das áreas antropizadas e degradadas, aumentar a produtividade e intensificar a produção nas áreas já cultivadas e buscar o desenvolvimento de uma agricultura de baixo carbono, ou seja, de baixa emissão de GEE.

O Brasil possui cerca de 110 milhões de hectares são de pastagens cultivadas onde cerca de 70% apresentam algum grau de degradação, com baixa capacidade produtiva de forragens e conseqüentemente baixa produção de carne e/ou leite e elevado índice de perda de solo e água (erosão), com reflexos negativos na economia e no meio ambiente. 

Estas áreas podem ser recuperadas com a adoção da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que consiste na implantação de diferentes sistemas produtivos de grãos, fibras, carne, leite, agroenergia e outros, na mesma área, em plantio consorciado, seqüencial ou rotacionado, aproveitando as sinergias existentes entre eles. A ILPF, aliada a práticas conservacionistas como o Sistema Plantio Direto (SPD) é uma alternativa econômica e sustentável para recuperar áreas de pastagens degradadas. Estudos técnico-científicos e experiências de produtores mostram que a implantação da ILPF resulta em importantes benefícios econômicos, ambientais e sociais. 

Na ILPF estabelece-se o cultivo da espécie florestal com espaçamento ampliado entrelinhas, possibilitando a implantação de uma cultura de interesse comercial na região como soja, milho, feijão, sorgo, girassol, mandioca etc., nas entrelinhas por dois a três anos. Em seguida implanta a cultura forrageira consorciada com o milho ou com o sorgo, sistema este denominado Santa Fé desenvolvido pela Embrapa. Após colher a cultura de grãos terá o pasto formado nas entrelinhas da floresta cultivada, permitindo a implantação da atividade de pecuária e a sua exploração até o corte da madeira.

Nesse sistema ILPF (também conhecido como Sistema Agroflorestal) as receitas das lavouras e da pecuária pagarão as despesas de implantação da floresta e, então o produtor poderá ter uma “poupança verde” capaz de lhe proporcionar uma renda líquida de aproximadamente R$ 30 mil/ha ao longo de 9 a 12 anos, sem considerar a possível receita futura com a venda de créditos de carbono.

A Fazenda Bom Sucesso pertencente ao Grupo Votorantim Siderurgia Unidade Florestal, localizada no município de Vazante, região Noroeste de Minas Gerais, adotou este sistema há cerca de 15 anos, combinando os cultivos agrícolas, arbóreos, pastagens e criação de animais, de forma consorciada e simultânea. 

Eles implantaram a cultura do eucalipto com espaçamentos (10 x 4 m) maiores que o tradicional (3 x 2 m), fazendo a correção total da área (calagem e fosfatagem). Nas entrelinhas do eucalipto, no primeiro ano eles implantaram a cultura do arroz, seguindo as recomendações técnicas para o seu cultivo na região. No segundo ano eles implantaram a cultura da soja e no terceiro ano o capim, colocando os animais na área quando a pastagem está completamente formada e pronta para o pastejo, utilizando a cerca elétrica, conforme demonstrado nas figuras abaixo.






Produtividade média do arroz = 1.670 kg/ha


Produtividade média da soja = 2.040 kg/ha


Formação da pastagem no 3º ano com Brachiaria brizantha


Pastagem verde no período de seca - cerca elétrica - ganho de peso
de 8,25 @/ha/ano


Com a receita das lavouras de arroz e soja e da pecuária eles conseguem cobrir todos os custos de implantação da floresta de eucaliptos. O animal é um componente muito importante no sistema, pois ele gera receitas anuais ou bianuais melhorando muito o fluxo de caixa e a atratividade do negócio. 

As culturas agrícolas também melhoram o fluxo de caixa com entradas e saídas a curto prazo, contribuem com o preparo do solo e melhoram as condições químicas com suas adubações e resíduos orgânicos.
O menor número de árvores/ha (250 ou 350) e a menor competição entre as plantas proporcionam ganho mais rápido em diâmetro. Desta forma já aos 9 anos podemos colher postes para eletrificação e aos 12 anos toras acima de 30 cm de diâmetro para serraria. Estes produtos têm maior valor agregado que podem chegar a até 6 vezes o da madeira para energia (carvão). Este valor agregado somado às receitas com as das lavouras e da pecuária compensam com sobra o volume maior de madeira energética produzido no sistema convencional (3 x 2 m). 

No SAF ou ILPF as árvores proporcionam uma melhoria climática no ambiente da pastagem, o capim permanece verde e palatável por mais tempo, inclusive na época de seca. Os animais tem mais conforto em relação à pastagem aberta e ficam menos estressados. Desta forma, o gado neste ambiente mais ameno responde com maior produtividade de carne ou leite. 

As pesquisas das universidades e centros de estudos correlatos, concluíram que o eucalipto consome tanto ou menos água que qualquer outra espécie arbórea, contudo nenhuma delas cresce e produz madeira rapidamente igual a ele. Então o mito de que o eucalipto seca a terra não é verdade. E quase tudo que o eucalipto retira do solo é devolvido em forma de matéria orgânica (galhos, folhas, casca etc.). Portanto, se bem manejado, o eucalipto não esgota o solo. 

Os resultados obtidos com a ILPF apontam que ela é uma alternativa economicamente viável, ambientalmente correta e socialmente justa para o aumento da produção de alimentos seguros, fibras e agroenergia, possibilitando a diversificação de atividades na propriedade, a redução dos riscos climáticos e de mercado, a melhoria da renda e da qualidade de vida no campo, contribuindo para a mitigação do desmatamento, para a redução da erosão, para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa e para o seqüestro de carbono, enfim, possibilitando a produção sustentável e proporcionando um mundo melhor para as próximas gerações.


Engenheiro agrônomo, especialista em Sistema Plantio Direto e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta e coordenador Técnico do Projeto Integração Lavoura-Pecuária-Floresta  da Campo Consultoria e Agronegócios.  
E-mail: 
trecenti@campo.com.br


Fonte: Página Rural
















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