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Domingo, 09 de maio de 2010 - 12h37m

Arte e Cultura > Mulher

Só flores



Imagens

Terezinha Ivone Vicenti da Silveira

Foto: Divulgação



Por Terezinha Ivone Vicente da Silveira

Maio de 2003. Chuvisca, pequena cidade gaúcha recém-emancipada, habitada por descendentes de alemães e poloneses, tendo como base econômica a produção de fumo. Nesse cenário, eu, uma instrutora nascida e domiciliada no município de Camaquã, no Rio Grande do Sul, iniciaria a trajetória com meu curso piloto: “Artesanato – Palha de Milho”.

Que ansiedade, quanta expectativa! Alunos chegando e sentando-se em volta de uma grande mesa onde estavam expostas as peças artesanais que serviriam de sugestão de trabalho.

De repente, uma voz alta com sotaque feminino polonês chama a atenção:
_ Tenho 77 anos, sou velha, mas mesmo assim, vim fazer o curso. Só quero fazer flores. Não quero aprender mais nada. Nem chapéus, nem balaios, nem bonecas...Só flores!

Todos riram e se entreolharam, demonstrando que a conheciam bem e que achavam aquilo muito ridículo. Evidentemente ela percebeu, mas não demonstrou ter-se incomodado e logo foi tirando de um saco muitas palhas de milho, ao mesmo tempo falando:
_Professora, essas palhas lindas foram colhidas da minha roça de milho, na terra que herdei de meus pais imigrantes poloneses.

Uma aluna não se conteve e intervem:
_ Professora, a minha amiga aqui, Dona Longuinha, mulher rica, tem muita terra, com todos os filhos ricos, até o prefeito é filho dela! Acredita a senhora que ela nunca comprou uma flor para colocar no túmulo dos pais! Só enfeita com flores de palha de milho.

A senhora polonesa levanta com voz comovida e explica:
_Cultivo a terra herdada de meus pais, fruto de uma vida de trabalho e sacrifício. Dessa terra criei meus filhos, ensinando-os a retirar do solo o sustento, com luta e dignidade. Ganhei essa terra como meus irmãos, que se desfizeram da mesma. E eu tenho muito orgulho de não ter vendido. Por isso, levo aos meus pais, no cemitério, flores de palhas de milho, como forma de gratidão, pois essa palhas vem da própria terra que me foi dada.

O silêncio foi geral, olhares surpresos, envergonhados e emocionados se dirigiram para Dona Longuinha, dando a todos os presentes um testemunho de amor, respeito e valorização da terra.


Professora de artesanato e instrutora de Promoção Social do Senar/RS - Camaquã/RS
E-mail: teresinha.v.silveira@hotmail.com


Fonte: Página Rural
















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