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Por Valéria Aparecida Vieira Queiroz (1) e Israel Alexandre Pereira Filho (2)
Introdução
Minimilho é o nome dado à inflorescência feminina do milho (Zea mays L.), antes da polinização, ou seja, é a espiga de milho em desenvolvimento. Assim, o minimilho não é proveniente de uma planta de milho anã, mas é produzido por meio de sementes de cultivares de milho comerciais, semeadas em densidade elevada e colhidas dois a três dias após a emissão dos estilos-estigmas, popularmente denominados “cabelos” (PEREIRA FILHO, 2008). No Brasil, o consumo de minimilho vem aumentando ano após ano e nos mercados Norte Americano e Asiático esse produto é bastante apreciado. Por apresentar textura crocante, sabor levemente adocicado e aparência delicada, o minimilho pode ser utilizado tanto cru quanto cozido em diversos tipos de pratos, agregando valor às receitas.
O mininimilho possui valor calórico semelhante ao de outras hortaliças, como cenoura, brócolis, abobrinha e vagem. Raupp et al. (2008) avaliaram a composição centesimal de quatro híbridos comerciais de milho para produção de minimilho e encontraram variação entre 90,3 e 90,8% de água; 1,9 a 2,0% de cinzas; 1,2 a 1,56% de proteína; 0,17 a 0,24% de lipídeo; 0,23 a 0,28% de fibra alimentar e 5,52 a 5,69% de carboidrato digerível total. Estes valores conferem baixo teor calórico ao minimilho, ou seja, entre 28,4 e 31,2 kcal/100g de matéria fresca. Os teores de vitaminas e minerais, em 100 g de amostra, em média para oito cultivares avaliadas por Pinho et al. (2003), foram: 86 mg de fósforo; 0,1 mg de ferro; 64 UA de vitamina A; 0,05 mg de tiamina; 0,8 mg de riboflavina; 11 mg de ácido ascórbico; e 0,3 mg de niacina.
O minimilho pode ser comercializado com palha ou sem palha, nas formas minimamente processado ou em conserva, o que permite maior agregação de valor ao produto. A aparência da espiga é fundamental para o consumidor, assim, estas devem apresentar as seguintes características: coloração de branco-pérola a amarelo-claro, forma cilíndrica com ovários pequenos em fileiras uniformes e simétricas, comprimento e diâmetro de espiga, respectivamente, entre 4 e 12 cm e 1,0 e 1,8 cm (MILES e ZENZ, 2000; PEREIRA FILHO e CRUZ, 2001).
A cultura do minimilho é uma alternativa bastante viável para aumentar a renda do produtor, pois, além do produto principal (minimilho), o agricultor ainda dispõe do subproduto, que consiste na planta de milho-verde, que pode ser utilizada na alimentação animal. Hardoim et al. (2002) calcularam o custo de produção do minimilho/ha/ciclo da cultura e concluíram que o cultivo desse produto para produção de conserva é uma atividade altamente rentável, podendo resultar em lucro de 412,94% do valor investido.
Tanto no processamento mínimo quanto na elaboração da conserva de minimilho, são necessários cuidados para que os produtos finais não coloquem em risco a saúde do consumidor. Assim, a utilização de matérias-primas adequadas e a adoção das Boas Práticas de Fabricação (BPF) em todas as etapas do processo são de fundamental importância para a qualidade final do produto. As BPFs abrangem um conjunto de medidas que devem ser adotadas a fim de garantir a qualidade sanitária e a conformidade dos produtos alimentícios com os regulamentos técnicos. A legislação sanitária federal dispõe sobre o Regulamento Técnico e a Lista de Verificação de Boas Práticas de Fabricação para Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Frutas e/ou Hortaliças através da Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 352, de 23 de dezembro de 2002, disponível no site: http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/2002/352_02rdc.pdf (ANVISA, 2003).
Etapas do processo de produção de conserva caseira de minimilho
1. Colheita e transporte
A colheita do minimilho deve ser manual e realizada nas primeiras horas da manhã, utilizando-se caixas limpas de plástico ou de isopor, alternando camadas de minimilho com palha e de gelo. As espigas devem ser colhidas com palha, quando os estilos-estigmas (cabelos) estiverem com cerca de 2 a 3 cm (SANTOS et al, 2008). No envio em grandes quantidades para indústrias alimentícias, deve-se utilizar um veículo com condições de transporte refrigerado. Para evitar perda de água e degradação do produto, o minimilho deverá ser mantido sob refrigeração em temperatura, preferencialmente entre 5 e 7 ºC, até o momento do processamento.
2. Higienização
A pré-lavagem das espigas deverá ser feita em água potável corrente visando a remoção das sujidades que vêm do campo. Em seguida, as espigas, ainda com palha, devem ser submergidas em solução de água com 100 ppm de cloro livre (50 mL de hipoclorito de sódio a 2% para 10 L de água) por 15 minutos.
3. Despalhamento e seleção
Os minimilhos devem ser despalhados manualmente, selecionados de acordo com o grau de maturação, o tamanho (comprimento variando de 4 a 12 cm) e o diâmetro (variando de 1 a 1, 8 cm) e lavados novamente em água corrente.
4. Sanitização
4.1. Sanitização das espigas
As espigas despalhadas deverão ser submergidas em solução de cloro a 20 ppm (10 mL de hipoclorito de sódio a 2% em 10 litros de água).
4.2. Sanitização das embalagens
As embalagens mais usadas para minimilho em conserva são os frascos de vidro, pois permitem visualização da qualidade do produto quanto aos aspectos cor, tamanho e diâmetro das espigas.
Os frascos de vidro (de 300 mL) devem ser lavados em água potável e detergente neutro, enxaguados em água corrente e submersos em solução de cloro ativo a 100 ppm (50 mL de hipoclorito de sódio a 2% para 10 L de água) por 15 minutos. Deve-se verificar com atenção se as embalagens de vidro estão em perfeitas condições e, em seguida, deve-se passar água fervente nelas e deixá-las emborcadas sobre papel toalha para eliminação do excesso de água.
Outra opção muito utilizada é a esterilização dos vidros em água potável fervente (cobrindo totalmente os frascos) por 15 minutos (tempo contado após início da fervura da água).
Obs.: Utilizar apenas tampas novas, pois o vedante que as reveste internamente perde seu poder de vedação depois do primeiro uso. As tampas não deverão ser fervidas, apenas higienizadas com água potável e detergente neutro.
5. Branqueamento
O branqueamento visa inativar enzimas responsáveis por alterações indesejáveis e manter a cor do minimilho durante o armazenamento. As espigas devem ser colocadas em água fervente, em quantidade suficiente para cobri-las, por 2 minutos; em seguida, devem ser retiradas e mergulhadas em água fria.
6. Acondicionamento e envase
Os minimilhos, após a etapa de branqueamento, devem ser acondicionados uniformemente nos frascos de vidro para evitar que flutuem após a adição da solução de cobertura.
Para garantir que o pH de equilíbrio no produto final alcance valor menor que 4,5, ou seja, pH necessário para impedir a proliferação de patógenos formadores de esporos, como o Clostridium botulinum, a solução de cobertura deverá ser preparada conforme descrito abaixo:
Preparo da solução de cobertura (1 litro)
• 500 ml de água potável (50%)
• 500 ml de vinagre branco (de álcool, de preferência) (50%)
• 25 g de açúcar (2,5%)
• 20 g de sal refinado (2,0%)
Pimenta-do-reino ou vermelha e mostarda em grão a gosto. Evitar o uso de temperos verdes como salsinha, cebolinha e orégano.
Ferver primeiro a água, em seguida, acrescentar o sal e o açúcar e deixar em ebulição por cinco minutos. Adicionar o vinagre e deixar a solução permanecer por mais cinco minutos sob fervura.
Esta solução deverá ser adicionada imediatamente (ainda fervendo) sobre as espigas que estão acondicionadas nos frascos, até cobertura total delas.
7. Exaustão
A exaustão visa eliminar o ar contido no interior do frasco e formar vácuo. É realizada com a imersão dos frascos abertos ou semiabertos em água fervente (banho-maria), com o nível de água do banho-maria atingindo no máximo 2/3 da altura dos vidros. Para uma boa exaustão, a temperatura da solução no centro do vidro deve atingir 85-87ºC (15 a 20 min). Após a exaustão, os vidros devem ser imediatamente fechados para evitar a queda de temperatura e, consequentemente, a redução do vácuo final.
Outra forma de facilitar a expulsão das bolhas de ar é introduzindo uma faca de aço inoxidável no interior do frasco, movimentando-a cuidadosamente. Após a retirada da faca, passa-se água quente nas tampas para lavá-las e adequar o vedante e procede-se ao fechamento das embalagens.
8. Tratamento térmico (pasteurização)
O tratamento térmico tem como objetivos eliminar microrganismos que causam alterações nos alimentos e promover o cozimento das hortaliças, melhorando sua textura (KROLOW, 2006). Assim, esta é uma das etapas mais importantes no processamento de minimilho na forma de conserva, pois constitui-se no último obstáculo para o crescimento e o desenvolvimento de microrganismos patogênicos no produto.
Nessa etapa, os vidros contendo minimilho devem ser colocados em uma panela com altura suficiente para que fiquem totalmente submersos em água (o nível de água deverá ultrapassar a altura dos vidros em pelo menos 5 cm) e deverão permanecer em ebulição por 30 minutos (contados à partir do momento em que a água do banho-maria começa a ferver). Deve ser considerado que o tempo de 30 minutos é suficiente para a esterilização de conservas acondicionadas em frascos de 300 mL.
9. Resfriamento
Deve ser feito imediatamente após o tratamento térmico, deixando escorrer água fria (potável e clorada) lentamente pelas bordas internas da panela, até baixar a temperatura para 40 ºC. As embalagens devem permanecer imersas até ficarem mornas. Em seguida, deve-se retirar a embalagem da água e deixá-las secar naturalmente.
10. Armazenamento
Os vidros devem ser armazenados em local escuro, limpo, seco, com boa ventilação e temperatura não muita elevada por, no mínimo, 15 dias antes do consumo.
O produto, quando elaborado seguindo todos os passos recomendados nesse documento, poderá ficar armazenado por até 180 dias sem rompimento do lacre. Após rompido o lacre, a conserva de minimilho deverá ser consumida imediatamente ou armazenada sob refrigeração em até 24 horas.
11. Utilização
O minimilho em conserva pode ser utilizado de diversas formas e em uma grande variedade de pratos como: saladas, grelhados, cozidos de legumes ou de carnes, sopas e massas, acrescentando um valor especial a eles.
Bibliografia Consultada
ANVISA - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução nº 352, de 23 dez. 2002. Dispõe sobre o Regulamento Técnico de boas práticas de fabricação para estabelecimentos produtores/industrializadores de frutas e ou hortaliças em conserva e a lista de verificação das boas práticas de fabricação para estabelecimentos produtores/industrializadores de frutas e ou hortaliças em conserva. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 8 jan. 2003. Disponível em: . Acesso em: 25 out. 2010.
HARDOIM, P.R.; SANDRI, E.; MALUF, W.R. Como fazer minimilho para aumentar a renda no meio rural. Boletim Técnico de Hortaliças, n. 72, 1a edição, 2002. Departamento de Agricultura. Disponível em: http://www3.ufla.br/~wrmaluf/bth072/bth072.html. Acesso em: 10 de setembro de 2007.
KROLOW, A. C. R. . Hortaliças em conserva. 01. ed. Brasília: Embrapa, 2006. v. 01. 40 p.
MILES, C. A.; ZENZ, L. Baby corn. Washington: Washington State University, 2000. 8 p. (Farming West of the Cascades). PNW0532. Disponível em: . Acesso em: 7 out. 2010.
PEREIRA FILHO, I. A. (Ed.). Minimilho: cultivo e processamento. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2008. 244p.
PEREIRA FILHO, I. A.; CRUZ, J. C. Manejo cultural do minimilho. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo , 2001. 4 p. (Embrapa Milho e Sorgo. Circular técnica, 07).
PINHO, R.G.V.; CARVALHO, G.S.; RODRIGUES, V.N.; PEREIRA, J. Características físicas e químicas de cultivares de milho para produção de minimilho. Ciência Agrotecnologia, v. 27, n. 6, p. 1419-1425, 2003.
RAUPP, D. S.; GARDINGO, J. R.; MORENO, L. R.; HOFFMAN, J. P.; MATIELLO, R. R.; BORSATO, A . V. Minimilho em conserva: avaliação de híbridos. Acta Amazonica, v. 38, n. 3, p. 509-516, 2008.
SANTOS, J. P. dos; PEREIRA FILHO, I. A.; TOMÉ, P. H. F. Colheita, transporte e armazenamento do minimilho. In: PEREIRA FILHO, I. A. (Ed.). Minimilho: cultivo e processamento. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2008. p. 211-221.
(1) Pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas/MG
valeria@cnpms.embrapa.br
(2) Pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo - Sete Lagoas/MG
israel@cnpms.embrapa.br

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