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Segunda-feira, 09 de junho de 2003 - 09h36m

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Ganhos e perdas da agropecuária



Por Argemiro Luís Brum

O aumento dos preços dos grãos elevou os ganhos da agricultura gaúcha nestes últimos dois anos, motivando uma euforia crescente, especialmente junto aos produtores de soja. Efetivamente, entre 2001 e 2003 assistimos a um avanço expressivo nos preços da soja, milho, trigo e arroz. A oleaginosa, tomando por base o preço de balcão, que valia R$ 16,59/saco na média da primeira semana de maio de 2001, chegou a R$ 27,50/saco sete meses depois. Estes preços recuaram para R$ 21,12/saco no início de maio de 2002, para se estabelecerem em significativos R$ 45,21/saco no início de dezembro daquele mesmo ano. Em maio de 2003, em plena safra recorde, tanto brasileira quanto gaúcha, os preços da soja, ao produtor gaúcho, recuaram, porém, se mantendo num patamar bem mais elevado do que os registrados um ano antes. Assim, no início de maio deste ano, a média gaúcha, no balcão, ficou em R$ 32,46/saco. Mesmo que os fortes aumentos registrados nos finais de 2001 e 2002 tenham sido exclusivamente em função da desvalorização do ral, o fato é que um novo patamar de preços acabou sendo alcançado em 2003. Desta forma, ponto a ponto, o aumento nos preços da soja chegou a 95,7% em dois anos.

O milho igualmente registrou um comportamento altista no período. O preço de balcão, ao produtor, passa de R$ 7,97/saco no início de março de 2001, para R$ 12,08/saco um ano após, chegando a R$ 23,66/saco na primeira semana de dezembro de 2002. Ou seja, um aumento extraordinário de 196,7% em 21 meses. O referido preço recua para R$ 19,38/saco no início de março de 2003, em plena colheita de uma safra cheia. Assim, ponto a ponto, o aumento de preço deste cereal, no mercado gaúcho, foi de 143,2% em dois anos.

Por sua vez, o trigo passa de R$ 12,00/saco, no balcão, em março de 2001, para R$ 14,79/saco no início de novembro, em plena colheita. Este preço ao produtor gaúcho chega a R$ 15,50/saco no início de março de 2002, para se estabelecer em R$ 34,00/saco no início de novembro, quando da colheita da frustrada safra do ano passado. Temos aí um aumento de 183,3% em cerca de 21 meses. Já em março de 2003, o saco de trigo, no mercado gaúcho, havia recuado para R$ 28,83 no início daquele mês, porém, ainda se mantendo em níveis muito bons. Desta forma, ponto a ponto, o ganho nos preços do trigo foi de 140,25% em dois anos. Mesmo que em muitas regiões o preço tenha sido menor, devido à baixa qualidade do produto nesta última safra, ainda assim esteve compensador a julgar pelo aumento na área cultivada em 2003, que gira entre 15% e 20% no Rio Grande do Sul.

Enfim, o arroz foi o produto menos favorecido pelos aumentos de preços mas igualmente registrou um comportamento extremamente positivo. No início de março de 2001, o saco de 50 quilos, pagos ao produtor gaúcho, valia R$ 13,88. Em outubro do mesmo ano, momento do plantio, o produto já valia R$ 18,95/saco. Em março de 2002, o produtor recebia R$ 15,14/saco diante de uma safra cheia que passava a ser colhida. Em outubro de 2002, os preços saltaram para R$ 22,21/saco, chegando a R$ 26,57/saco em março de 2003, diante da frustração que se abateu sobre a cultura nesta última safra. Assim, ponto a ponto, o arroz registrou, em dois anos, um aumento de 91,4%.

Ao mesmo tempo, a inflação nacional, medida pelo IPCA-IBGE, registrou um aumento de “apenas” 25,6% no período de março/01 a março/03.

Em sentido inverso, a pecuária gaúcha afundou nestes dois últimos anos. Seus preços relativos caíram violentamente, a tal ponto que muitos criadores estão se desfazendo de seus plantéis, comprometendo o processo de diversificação do setor primário, implantado com dificuldades no Estado nas últimas duas décadas. Isto se faz mais presente na suinocultura e no leite. Neste último caso, assiste-se a uma eliminação de plantel em favor da soja. Também pudera! Comparando a evolução dos preços pagos aos produtores, na média estadual, nos 24 meses considerados, temos um quadro desolador.

Assim, os preços do boi gordo, em nosso Estado, que valiam R$ 1,29/quilo vivo na primeira semana de março de 2001, sobem para R$ 1,40 no início de novembro daquele mesmo ano. Já em março de 2002, os referidos preços praticamente se mantêm estacionados, ao redor de R$ 1,38/quilo vivo. Em novembro de 2002, o boi gordo valia R$ 1,52/quilo vivo chegando, em março de 2003, a R$ 1,55/quilo vivo. Ou seja, ponto a ponto, o aumento médio de preço do quilo vivo do boi gordo, no mercado gaúcho, foi de 20,2%, perdendo para a inflação do período.

No leite a situação igualmente é delicada. O litro do leite consumo (valor bruto), que em março de 2001 valia R$ 0,26, não sofreu modificação em 12 meses, registrando o mesmo valor médio em março de 2002. Todavia, em março de 2003, o valor do litro havia passado a R$ 0,40, após enormes pressões dos produtores e uma CPI do leite, instituída pela Assembléia Legislativa do Estado. Graças a esta elevação, o aumento percentual, ponto a ponto, chega a 53,8% em dois anos, porém, o mesmo passou a ser percebido apenas nos últimos meses de 2002.

Na suinocultura, o quadro é ainda pior. O quilo vivo do suíno tipo carne, passa de R$ 1,08, no início de março de 2001, para R$ 1,31 em novembro do mesmo ano. Já em março de 2002 o preço havia recuado para R$ 1,24/quilo vivo. Este recuo continuou nos meses seguintes, batendo em R$ 1,09 em meados de julho do ano passado. Em novembro de 2002, o preço do suíno chega a R$ 1,27/quilo vivo, para se estabelecer em R$ 1,50 no início de março de 2003. Ponto a ponto, o aumento chega a 38,9% em dois anos, porém, o mesmo se dá de forma errática, longe de oferecer garantias ao produtor. A tal ponto que no final de junho de 2003, o preço havia recuado para R$ 1,38.

Por fim, na avicultura os preços se mantiveram mais coerentes, subindo paulatinamente nos 24 meses considerados, porém, sem entusiasmar se comparados com a evolução dos custos de produção. Assim, em março de 2001, o quilo vivo de frango, pago ao criador gaúcho, valia R$ 0,88. O mesmo sobe para R$ 1,06 em março de 2002, chegando a R$ 1,25 em março de 2003. Ponto a ponto, o aumento é de 42% em dois anos. Já no final de junho de 2003 o preço chegava a R$ 1,36, graças ao empuxe das exportações ocorridas no primeiro semestre do ano.

Mesmo que os custos de produção tenham aumentado significativamente, fato que leva os produtores de grãos cada vez mais em busca da alternativa da transgenia, a evolução relativa dos preços dá total vantagem à produção agrícola em detrimento da pecuária. Isto porque os principais insumos da pecuária são exatamente a soja e o milho, elementos que tiveram seus preços reajustados muito acima dos preços recebidos pelos criadores. Neste contexto, apesar de algumas atividades pecuárias registrarem um aumento, ponto a ponto, acima da inflação do período considerado, o mesmo esteve longe de compensar o aumento dos custos de produção. Com isso, o quadro é preocupante junto à pecuária gaúcha, com tendência a muitas propriedades saírem das atividades animais na expectativa, muitas vezes imediatista, de aumentarem suas rentabilidades. E hoje, mais do que ontem, sair de uma atividade significa praticamente inviabilizar o retorno à mesma no futuro.

Por outro lado, a julgar pela tendência do mercado, um aumento dos preços, de maneira a tornar compensadoras tais atividades pecuárias, somente ocorrerá caso haja, justamente, uma queda na produção. Esta, por sua vez, acontece pela eliminação dos agentes produtivos, fato que preocupa pois atinge, em especial, a chamada agricultura familiar, com o sério risco de aumentar o êxodo rural.

Professor do DECon/UNIJUI, doutor pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agrropecuário (CEEMA).


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