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Quarta-feira, 09 de julho de 2003 - 09h27m

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Novas práticas agropastorís estão influenciando a relação meio ambiente/polinose no sul do Brasil?



Por Francisco Machado Vieira *

A polinose, exteriorizada clinicamente por rinoconjuntivite e/ou asma brônquica estacional, apareceu de forma nítida no sul do Brasil, somente nas últimas três décadas. Até então, era considerada rara ou inexistente. Vários fatores podem ter sido responsáveis pelo aparecimento da polinose no Brasil, entre os quais a introdução de gramíneas com pólen de elevado potencial alergênico, associada ao desmatamento, à exploração da terra e ao aumento da população, em áreas com estações climáticas bem definidas. Invernos com baixas temperaturas são seguidos por primaveras bem destacadas, onde há aumento da concentração e a dispersão polínica no ar, iniciando sintomatologia nos pacientes sensibilizados.

Entre as gramíneas alergênicas, destaca-se o Lolium multiflorum (azevém anual), citada também como "ryegrass", espécie exótica, nativa da região mediterrânea européia. Difundiu-se em regiões temperadas e subtropicais e foi introduzida como forrageira para os meses de inverno, nos estados do sul de nosso país. Por possuir características de excelente adaptação às condições ambientais (solo-clima-topografia) e ter alto valor nutritivo é uma das preferidas. Consagrou-se como grande opção, pela sua facilidade de ressemeadura natural, resistência a doenças, bom potencial de produção de sementes e versatilidade do uso de associações. Estima-se que um hectare (100x 100 metros) de cultivo de Lolium multiflorum pode produzir 100kg de pólen, e que um grama deste pólen tenha 100 milhões de grãos. Sabemos que pacientes sensibilizados, altamente atópicos, podem apresentar sintomas com somente 5-10 grãos/m3 ar. Isto nos dá a idéia da magnitude e da potencialidade de poder produzir alergia. Ao mesmo tempo, cabe salientar, com mais razão, que cidades densamente povoadas podem sofrer a influência da polinização transportada pelos ventos. Esta é uma gramínea invasora, que cresce também desordenadamente em áreas não agrícolas, tais como: ao longo de rodovias, ferrovias, linhas de transmissão, terrenos abandonados nas cidades e até mesmo em calçadas e ruas.

Nos últimos anos, o Rio Grande do Sul tem cultivado 4,9 milhões de hectares de soja e milho (IBGE-1992), e o trigo que ocupava apenas de 6 a 13% desta área, aumentou atualmente para 14,6% (IBGE-2002), tendo sido percentual pouco significativo. Situação quase idêntica ocorre no estado do Paraná e em algumas regiões de Santa Catarina. Estas extensas áreas ocupadas anteriormente por trigo são, atualmente, em grande parte destinadas ao cultivo de gramíneas forrageiras, tais como o Lolium multiflorum, aveia preta (Avena strigosa) e em algumas ocasiões consorciadas com leguminosas como o trevo vesiculoso (Trtfoliurn vesiculosum), e o trevo branco (Trifolium repens). A aveia, possuindo como característica principal a autopolinização, e os trevos por não serem anemófilos, não são candidatos a liberar aeroalérgenos.

Nestas áreas, a utilização de consorciações de gramíneas com leguminosas de estação fria é uma excelente alternativa de produção, em associação com as culturas de verão (por ex. soja), constituindo uma fonte de renda para o produtor neste período, com a terminação da criação de bovinos de corte e o aumento da produção de leite.

Aos produtores de cultura de verão, técnicas agropastorís sugerem que o gadoseja retirado das pastagens nas primeiras semanas do mês de setembro. Após ser retirado, contudo, permanecem estas pastagens cultivadas, em período de desenvolvimento vegetativo pelo período de 40-50 dias. Isto é necessário para a formação de palha (cobertura) que, após dessecada com herbicida, servirá para o denominado "sistema de plantio direto". Esta seqüência é considerada um grande avanço tecnológico conservacionista tanto para a proteção do solo, quanto para o aumento do rendimento, no binômio pecuária-agricultura.

Estima-se que cerca de 60% do Lolium multiflorum, durante o período de "formação da palha", ou seja, após a retirada dos animais do campo, complete seu ciclo vegetativo e inicie o reprodutivo com a floração (A. Dalla Rosa, comunicação pessoal), portanto estando apto a polinização anemófila. Saliente-se que este fato importante coincide com o período da primavera. Outrossim, deve-se considerar que uma parte do Lolium muitiflorum cultivado segue sua evolução vegetativa completa para a obtenção de sementes. Existe observação pessoal de alergistas em algumas destas regiões (Missões e Noroeste Colonial-RS), de um aumento da prevalência de polinose em suas clínicas e da intensidade de sintomas estacionais referido pelos pacientes nos últimos anos. Na região do Planalto Médio-RS, área considerada predominante agropastoril, foi encontrada a elevada prevalência de 30% de pacientes sensibilizados fortemente a pólen de gramíneas, em população com sintomas respiratórios. Estes fatos traduzem a importância de estudos sistemáticos no sentido de estabelecer a prevalência de polinose nos estados do sul do País.

Com as profundas modificações do meio ambiente externo, existiria um impacto ambiental, pela "poluição biótica polínica do ar", a ser avaliado e mensurado.

Nos últimos anos, em nível nacional e estadual, pessoalmente temos por diversas formas alertado à comunidade técnico-científica, ligada às ciências agropastorís, da necessidade de monitoramentos aerobiológicos e da atenção para o estudo de uma problemática não avaliada no sul do Brasil. Infelizmente, embora com acordância de sua existência e até mesmo com sensibilização de propósitos para soluções, não se concretizam ações práticas. Provavelmente teremos de insistir no assunto, baseado nas premissas expostas, mesmo com as dificuldades inerentes.

* Professor da UCS do Curso de Medicina.


Fonte: Universidade de Caxias do Sul
















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