Bom dia!
26/09
 

Artigos

Voltar
Sexta-feira, 01 de agosto de 2003 - 17h06m

Biotecnologia > Outros

O futuro do agronegócio no Brasil depende da adoção da biotecnologia na agricultura



Por Vinicius Ferreira Carvalho

As discussões sobre a adoção da biotecnologia na agricultura brasileira chegaram a um momento no qual é preciso que o bom senso impere e que essa ferramenta seja avaliada dentro de um contexto amplo, considerando questões econômicas, sociais e ambientais. Para um país com vocação agrícola e que tem no agronegócio a base de sua economia, penalizar agricultores pelo impedimento da adoção de novas alternativas de cultivo, ao mesmo tempo em que eles enfrentam os protecionismos dos países desenvolvidos, é uma perda de tempo, que pode significar, no médio prazo, perda de competitividade no cenário internacional.

O agribusiness, no Brasil, responde por valores em torno de 40 % do PIB e foi o grande suporte da economia do país, especialmente no período que antecedeu o final do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e o início da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A safra recorde de grãos de 114 milhões de toneladas, recentemente obtida, resultado da conjunção de diversos fatores, dentre eles as tecnologias adotadas nas últimas décadas na agricultura brasileira, comprova o grande potencial desse setor e sua importância como gerador de divisas para o Brasil. Deve-se considerar que uma das principais metas do novo governo é incrementar as exportações, gerando superávits na balança comercial brasileira. E essa diretriz, de acordo com o professor Fernando Homem de Melo (http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=21), está diretamente relacionada com a agricultura, que desempenha outro relevante papel no desenvolvimento econômico do país , ou seja, a oferta interna de produtos alimentares. Homem de Melo salienta que o bom desempenho agrícola foi um dos requisitos fundamentais para que a economia brasileira realizasse um processo de transformação estrutural e chegasse ao ponto em que está hoje, urbanizada, industrializada e altamente diversificada. Da mesma forma, o professor ressalta a importância das exportações. “Nenhum país tem vantagem comparativa em todos os produtos, o que cria a obrigatoriedade do comércio internacional. E quando falamos em exportações, aparece imediatamente o setor agropecuário, de grandes vantagens comparativas, e, portanto, aquele que vai propiciar as divisas necessárias às importações do setor industrial.”

Mas além da vocação e do potencial da agricultura brasileira, diversas variáveis devem ser consideradas, no sentido de que as metas estabelecidas até 2010 durante o “Primeiro Congresso Brasileiro de Agribusiness”, realizado em 2002, sejam atingidas. Entre essas variáveis, uma agenda bem definida do agronegócio brasileiro, conforme discutido no citado evento por Marcos Jank – engenheiro agrônomo e professor da USP –; as possibilidades de construção de competitividade, considerando a elaboração de estratégias locais de desenvolvimento, a implementação de planos, além de políticas governamentais que favoreçam o agronegócio, com a adequação das mesmas aos novos tratados internacionais, tais como Mercosul e Alça, precisam ser contempladas na cadeia do agribusiness brasileiro. Assim, deixando de considerar, nesse momento, a adoção de modernas tecnologias para o setor, as ousadas, mas factíveis metas propostas durante o primeiro congresso da ABAG, de produção de 142 milhões de toneladas de grãos em 2010, com taxa de crescimento de 4,1 % ao ano, superior à estimativa de crescimento do PIB (4%), poderão ser atingidas, com possibilidade de exportação de 30,4 milhões de toneladas naquele ano.

O futuro da agricultura brasileira, no contexto do agronegócio, passa, necessariamente, pela avaliação e implantação da tecnologia do DNA recombinante no campo, comumente chamada de biotecnologia. De acordo com entrevista concedida ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia – CIB (http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=5), o atual Ministro da Agricultura e na época presidente da ABAG, Roberto Rodrigues, chega a afirmar: “A biotecnologia, especialmente de plantas transgênicas, é um componente estratégico para o futuro da agricultura mundial e brasileira. A necessidade de produção de alimentos, fibras e biomassa a custos cada vez menores, com produtos mais ricos e nutritivos e salvaguardando o meio-ambiente é absolutamente imperiosa. E a biotecnologia tem enorme responsabilidade de contribuir nessas três direções, e, adicionalmente, servir à ciência e à medicina com a produção de plantas que ajudem no combate a doenças humanas e dos animais. Portanto, é muito importante que o Brasil abra rapidamente a possibilidade de plantar sementes transgênicas. Caso isso não ocorra, ficaremos para trás nesse segmento tecnológico e corremos o risco de perder mercados por questões ligadas a custos de produção e preços finais dos produtos.”

Diversos países já adotaram essa tecnologia em escala comercial. De acordo com dados publicados por James (2002), a área global cultivada com plantas geneticamente modificadas atingiu, em 2002, cerca de 58,7 milhões de hectares, apresentando, pelo sexto ano consecutivo, crescimento com índice superior a 10%. Aproximadamente 6 milhões de agricultores de 16 países, com população de 3,2 bilhões de habitantes, em seis continentes, estão cultivando plantas transgênicas. Os principais países produtores são os Estados Unidos (39 milhões de hectares), a Argentina (13,5 milhões de hectares), o Canadá (3,5 milhões de hectares) e a China (2,1 milhões de hectares). Entre esses líderes, a China foi o país que apresentou o maior crescimento anual, com aumento de 40% em sua área plantada com algodão Bt (resistente a insetos), que já ultrapassa a área cultivada com algodão convencional. Além desses países, a África do Sul aumentou sua área cultivada com transgênicos em 20%, Índia, Colômbia e Honduras plantaram transgênicos pela primeira vez em 2002. Nesse ano, o valor global dos cultivos GM foi estimado em aproximadamente 4,25 bilhões de dólares e estima-se que atingirá 5 bilhões de dólares em 2005. Essas projeções são feitas considerando-se o preço de venda de sementes transgênicas, acrescido das taxas tecnológicas aplicadas. Em linhas gerais, considerando o início do cultivo comercial de plantas transgênicas na Índia em 2002, os três países mais populosos do mundo, o já citado, a China e a Indonésia, cujas populações somam 2,5 bilhões de pessoas, já comercializam plantas GM. Embora ainda haja muita controvérsia, mais da metade da população mundial vive em países nos quais plantas GM são cultivadas em escala comercial.

Os principais cultivos que estão sendo comercializados no mundo como transgênicos, de acordo com James (2002) são: soja (36,5 milhões de hectares), milho (12,4 milhões de hectares), algodão (6,8 milhões de hectares) e canola (3 milhões de hectares). Alguns exemplos podem ser detalhados, de forma a mostrar os benefícios gerados pela adoção da tecnologia do DNA recombinante na agricultura. A introdução da soja RR (tolerante ao herbicida glifosato) na Argentina, a partir de 1996, resultou na redução nos custos de produção de 20 a 25 dólares por hectare, ao mesmo tempo em que possibilitou a expansão da área cultivada com essa cultura em mais de 4,6 milhões de hectares, de acordo com Trigo et al (2002). Indiretamente, de acordo com os autores, houve aumento de empregos no setor agrícola, facilidade de expansão da área plantada com cultivo direto e redução no uso de herbicidas de alta toxicidade. De acordo com Carvalho (2003) na África do Sul 65% dos pequenos produtores de algodão e 25% dos grandes utilizam plantas Bt e houve aumento na produção dessa cultura de 21,5% desde a introdução das plantas GM. O México reduziu de 6 para 3.5 aplicações de inseticidas, por safra, nas lavouras de algodão, com a introdução do algodão GM resistente a insetos. De acordo com o autor, dos 6,8 milhões de hectares plantados com algodão transgênico em 2002, 2,4 milhões de hectares foram cultivados com algodão Bt, 2,2 milhões de hectares com algodão tolerante a herbicidas e 2,2 milhões de hectares com plantas que expressam simultaneamente as duas características. Estima-se, de acordo com a Embrapa Algodão, que a adoção do algodão Bt no Brasil deva reduzir os custos de produção de 3 a 14%, com economia de R$ 176,00 a R$ 542,00 por hectare.

No Brasil, ainda não existem cultivos transgênicos em escala comercial. Mesmo as pesquisas estão prejudicadas, devido às verdadeiras batalhas jurídicas e às indefinições no que diz respeito à regulamentação da biotecnologia no país. Isso quando mesmo autoridades ministeriais do atual governo, das quais não se pode duvidar quanto aos critérios de cautela com essa inovação tecnológica, publicamente se manifestam sobre a importância de se recuperar de imediato os estudos e pesquisas com organismos geneticamente modificados, sob pena de que se perca o período adequado com a safra que se aproxima. Diversas especulações, a maioria sem fundamentação científica e técnica, impedem que a ciência avance e os prejuízos, embora ainda não mensuráveis, certamente serão notados no futuro se uma política para o setor não for definida o mais rápido possível. Outros entraves, esses ligados à falta de tramitação ágil de documentação apresentada por interessados, em conformidade com a legislação vigente sobre o assunto no país, também contribuem para que os resultados requeridos pela sociedade corram o risco de ainda não serem obtidos na safra 2003/2004. Como ferramenta para incremento do processo produtivo e, conseqüentemente, para que as metas definidas durante o primeiro congresso da ABAG possam ser atingidas, é necessário que o país adote a biotecnologia na agricultura. Essa tecnologia apresenta diversas vantagens competitivas, destacando-se as seguintes:
- Possibilidade de aumento de produtividade das culturas;
- Conservação da biodiversidade, como conseqüência de aumento da produtividade e da necessidade de menor abertura de novas fronteiras agrícolas;
- Uso mais eficiente e racional de insumos, contribuindo para a agricultura sustentável que preserva o meio ambiente
- Aumento da estabilidade da produção, reduzindo as perdas decorrentes de estresses bióticos e abióticos;
- Melhoria na qualidade dos alimentos, bem como melhorias quantitativas em termos de nutrientes dos mesmos;

Embora o potencial da biotecnologia para agricultura brasileira seja aplicável para culturas como milho, algodão, mamão, citros, cana-de-açúcar, arroz e até mesmo culturas de subsistência como o feijão – a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia desenvolve feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado do feijoeiro –as discussões estão, neste momento, centralizadas apenas em torno da soja RR. Esse produto foi o primeiro a ser avaliado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, para comercialização, tendo recebido parecer favorável para a mesma em 1998. Porém, até o momento, devido aos embates judiciais, a soja RR não pode ser oferecida como opção aos agricultores brasileiros. Apesar disso, sabe-se que o plantio da mesma existe no Brasil, principalmente no sul do país. De acordo com o diretor analista da corretora BRASOJA, Antonio Sartori (2002), há uma série de fatores que devem ser levados em conta para justificar os plantios de soja RR no Brasil. No caso do Rio Grande do Sul, a proximidade com a Argentina, um país que trabalha em quase sua totalidade com soja RR, é o principal fator. Segundo o consultor, depois da crise de 1997, os preços internacionais tornaram quase que inviável a competitividade da produção brasileira. E o produtor encontrou na soja geneticamente modificada fator de redução no custo de plantio, com mais facilidade, principalmente pela possibilidade de adoção do sistema de plantio direto em campo nativo. Para a safra 2002/2003, Sartori estimou que na lavoura de verão mais de 60% da área plantada no RS seria transgênica, mas que o alcance poderia chegar aos 95%. A explicação, segundo ele, é simples: o comércio interno gaúcho e as exportações de soja livre de grãos transgênicos com rastreabilidade e potencial para segregação é ao redor de 5 milhões de sacos. A safra gaúcha 2001/2002 foi de 6,3 milhões de toneladas ou 105 milhões de sacos. Portanto, 5% da safra não é geneticamente modificada, tem rastreabilidade e segregabilidade. Os outros 95% são misturados e, portanto, transgênicos. Por isso, é fácil deduzir que no Rio Grande do Sul 95% da produção é transgênica e não-transgênica misturadas.

Uma das argumentações contrárias à adoção da soja RR em escala comercial no Brasil refere-se à possibilidade de o país se tornar o único produtor mundial de soja isento de transgênicos. Porém, de acordo com Pessoa (2002), a questão central é saber qual o tamanho do mercado para produtos não-transgênicos e quanto os consumidores estariam dispostos a pagar a mais por esses produtos. Pessoa cita várias evidências de que atualmente esse mercado é bastante reduzido e decrescente, fora os prêmios pagos, que são pequenos. Tomando como exemplo, a União Européia, apontada por alguns como um grande mercado avesso aos transgênicos, Pessoa faz a seguinte avaliação: a importação de soja americana e argentina, pela União Européia, cresceu, em 2001/2002, cerca de 50%. Como 78% da soja plantada nos EUA naquela época, segundo o USDA, foi de soja transgênica e, na Argentina, esse percentual excedeu 95%, pode-se concluir que a União Européia está em franco processo de elevação da importação e consumo de transgênicos. O autor salienta que “A União Européia importa mais de 20 milhões de toneladas de soja em grão por ano, além de mais 21 milhões de toneladas de farelo de soja anualmente. Se considerarmos o fato de que nos EUA são produzidos apenas 15 milhões de toneladas de soja não-transgênica e que, na Argentina, esse total não passa de 1,5 milhão de toneladas, e, além disso, considerarmos também que toda essa soja é segregada adequadamente e certificada como não-transgênica (na verdade menos de 10% da soja não-transgênica é certificada nesses países), ainda haveria a necessidade de importação de 3,5 milhões de toneladas de grãos de soja não-transgênica por parte da União Européia (sem contar a importação de farelo), que nesse caso teria apenas o Brasil como fornecedor potencial. Dessa forma, deveríamos ter enfrentado no último ano uma gigantesca pressão sobre a cotação da soja brasileira com prêmios nas alturas, mas não foi isso que vimos. O que vimos foi a União Européia comprando mais e mais soja transgênica americana e argentina. Portanto, o bom senso exige uma reflexão desapaixonada de qual é de fato o tamanho do mercado de não-transgênicos hoje e no futuro, e se essa é uma opção viável para um país como o Brasil que, em menos de 10 anos, será o maior produtor mundial de soja. “Estamos apenas perdendo tempo e, em agribusiness, tempo também é dinheiro. Estamos penalizando desnecessariamente nossos agricultores a enfrentar, além do protecionismo dos países ricos, internamente o medo e o preconceito de uma minoria desinformada e/ou mal intencionada”, diz.

As informações acima referidas já mostram que a competitividade do nosso agronegócio estará comprometida, no médio prazo, se isso não acontecer. Vale ressaltar, voltando a caso da soja, que nos últimos sete anos a produção anual da Argentina cresceu cerca de 18%, em função da adoção da soja RR, enquanto que a brasileira foi de apenas 12%. Hoje a Argentina já exporta mais farelo de soja do que o Brasil, cerca de 18 milhões de toneladas contra 14 milhões de toneladas e que as produtividades médias dos dois países estão no mesmo patamar, em torno de 2,8 toneladas por hectare. Voltando ao RS, considerando o período de 1996 a 2002/2003, esse estado foi o que apresentou a maior média nacional de crescimento ao ano da produtividade de soja, cerca de 5,04 %. Esse período coincide com a possível introdução da soja RR nas lavouras. O Estado que mais se aproximou do RS em termos de crescimento de produtividade ao ano foi Minas Gerais (3,36%), enquanto que o Mato Grosso do Sul e a Bahia apresentaram produtividades decrescentes. Estima-se que os custos de produção da soja no Brasil, que hoje giram em torno de R$ 14,17/saca sejam reduzidos para R$ 11,75/saca (ou de R$ 613,85 para R$ 508,99 / hectare), com a adoção da soja RR. Indiretamente, essa adoção levará os agricultores ao plantio de sementes ao invés de grãos, contribuindo para o aumento da produtividade final (informações desse parágrafo de André Pessoa, comunicação pessoal).

Se por um lado o novo governo e a sociedade brasileira têm o desafio de vencer conceitos pré-estabelecidos no que se refere à biotecnologia, por outro os números do mercado mundial e as estimativas para o agronegócio brasileiro fazem desse desafio uma oportunidade. Somente encarando esse desafio/oportunidade, poderemos acompanhar e adotar a revolução tecnológica pela qual passa a humanidade como conseqüência da tecnologia do DNA recombinante, incorporando-a no mais importante e competitivo setor da nossa economia: a agricultura.


Referências consultadas:
- ABAG, 2002: I Congresso Brasileiro de Agribusiness – Plano Estratégico 2002-2010, Relatórios Técnicos: Agenda no Comércio Mundial e Desenvolvimento Local, 101 p.

- ABAG, 2002: I Congresso Brasileiro de Agribusiness – Plano Estratégico 2002-2010, Relatórios Técnicos: Metas e Políticas para o Agribusiness, 117 p.

- Carvalho, Vinicius Ferreira. 2003. A biotecnologia na cultura do algodão. http://www.aesetorial.com.br/alimentos/artigos/2003/fev/25/266.htm

- Homem de Melo, Fernando, 2003. http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=21

- James, Clive, 2002. PREVIEW – Global Status of Commercialized Transgenic Crops:2002. ISAAA Briefs No. 27, 24 p.

- Pessoa, André, 2002. http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=17

- Rodrigues, Roberto, 2002. http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=5

- Sartori, Antonio, 2002. http://www.cib.org.br/entrevista.php?ID=13

- Trigo, Eduardo; Chudnovsky, Daniel; Cap, Eugenio & López, Andrés. 2002. Los transgénicos em la agricultura Argentina – Una historia con final abierto. Libros Del Zorzal, 187 p.

Vinicius Ferreira Carvalho é Eng. Agrônomo (UnB), Mestre em Entomologia (UFV) e Pós-graduando em Marketing pela Universidade Mackenzie de São Paulo - SP.


Fonte: Vinicius Ferreira Carvalho
















© Copyright 2018, Via Informação - Todos os direitos reservados
Proibida a cópia e reprodução total ou parcial sem a citação da fonte.
Site desenvolvido por Grandes Idéias

Skype: paginarural

E-mail: paginarural@paginarural.com.br

h t t p : / / w w w . p a g i n a r u r a l . c o m . b r