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Quarta-feira, 06 de agosto de 2003 - 13h25m

Biotecnologia > Outros

Plantas que limpam a natureza



Por Marcelo Gravina de Moraes

Técnica que emprega espécies vegetais para despoluir solos contaminados pode dar um novo alento ao trabalho de melhoria da qualidade ambiental.

A idéia de uma planta que extraia ouro e, por conta de tal característica, seja adotada como uma ferramenta para obter o precioso metal em minérios onde a exploração convencional é pouco econômica não soa como absurdo. Afinal, existem espécies que têm capacidade de despoluir o solo em que estão enraizadas, acumulando os elementos prejudiciais ali presentes – ou seja, frágeis vegetais aptos a fazer um árduo serviço para o homem. Batizada como fitorremediação, essa tecnologia, recente em nosso meio, usa, de fato, plantas para descontaminar áreas poluídas por metais pesados.

Originários de atividades industriais e mineradoras, os metais pesados ocasionam danos severos ao meio ambiente e à saúde humana. Alguns dos essenciais, como o zinco e o cobre, têm sido encontrados em níveis até dez vezes maiores que o limite tolerável em determinados locais. Ainda mais grave é o caso do arsênico, do cromo, do cádmio, do mercúrio, do níquel e do chumbo, que não são essenciais e causam efeitos nocivos à atividade biológica das células.

A fitorremediação promete mais eficiência na descontaminação dos solos, até hoje concentrada em métodos caros, pouco efetivos e, o que é pior, danosos à natureza, como a escavação dos locais afetados e o depósito dos metais em aterros apropriados ou, ainda, o emprego de produtos químicos que se ligam aos poluentes metálicos, carregando-os para os mananciais de água subterrâneos. Por meio dessa nova técnica, plantas hiperacumuladoras de metais podem ser cultivadas em áreas contaminadas e os elementos recuperados após a colheita, colocados em incineradores dotados de filtros adequados. A eficiência da tecnologia é tanto maior quanto mais metais os exemplares vegetais extraírem dos solos.

Diversas espécies do gênero já foram encontradas na natureza. Algumas chegam a reunir até 10 mil vezes mais metais pesados do que as não acumuladoras. Para conseguir esse feito, no entanto, é importante que produzam grande quantidade de folhas e tenham um ciclo de vida curto. Mas infelizmente as plantas hiperacumuladoras são pequenas e de crescimento muito lento. A natureza, portanto, precisa de uma ajuda para que a fitorremediação venha a ser uma realidade.

A engenharia genética, que já permite melhorias no manejo e na qualidade dos cultivos, assim como na obtenção de medicamentos mais baratos, também pode transformar as plantas em extratoras de metais, já que elas têm uma longa história de uso como indicadoras de depósitos minerais. Cientes desse fato, os laboratórios de biotecnologia começam, então, a desvendar alguns mecanismos utilizados pelas espécies hiperacumuladoras, a exemplo de proteínas que se ligam aos metais pesados e que são produzidas em quantidade nos solos com grande concentração de tais elementos. Uma possibilidade seria isolar os genes dessas proteínas e transferi-los de plantas acumuladoras para plantas de crescimento rápido e de alto potencial de produção de massa.

Determinados vegetais que acumulam níquel, por exemplo, atingem uma concentração de 0,8% do metal em suas folhas. Uma vez que dão origem a aproximadamente nove toneladas de massa foliar por hectare, conseguiriam recuperar 72 quilos de níquel do solo em um hectare. Considerando que a produção de folhas em diversas plantas alcança facilmente 20 toneladas por hectare, a mesma concentração resultaria em uma retomada de 260 quilos do metal por hectare.

As áreas de mineração e suas extensões de rejeitos constituem um grande banco de informações sobre a capacidade de tolerância das espécies que nascem naturalmente em tais espaços. Aliada a essa biodiversidade, a tecnologia em desenvolvimento nos laboratórios de biotecnologia oferece uma excelente alternativa para a melhoria da qualidade ambiental.

Engenheiro Agrônomo – PhD em Genética pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e membro do Conselho de Informações Sobre Biotecnologia


Fonte: Marcelo Gravina de Moraes
















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