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Quarta-feira, 06 de agosto de 2003 - 14h29m

Arte e Cultura > Outros

A importância da Expointer para a cultura do campo



A importância da Expointer é tão evidente para a economia gaúcha que, em geral, se esquecem os outros valores que a ela estão agregados. Ninguém menciona, na alusão à festa de Esteio, que ela é, por si só, uma expressão da cultura gaúcha. Hoje, o Rio Grande do Sul já não é mais um estado somente agropastoril, não só por que a maioria de sua população não mais reside no campo, como também pela presença da indústria, do comércio e, especialmente, do setor de serviços no Produto Interno Bruto rio-grandense. Mesmo assim, às vésperas da Primavera, os homens do campo saem de sua rotina das fazendas e acampam no município da Região Metropolitana para apresentar o que de melhor se produz na pecuária não só gaúcha, mas até internacional.

De certa forma, a feira de Esteio faz parte da preservação do patrimônio cultural de nossa terra, precisamente pela valorização de uma cultura que o êxodo rural poderia dizimar ao longo do tempo. Há quem defenda que esse culto às tradições culturais mais arraigadas ao passado seria um entrave a novas idéias e concepções de mundo, o que explicaria que nas regiões onde ainda predomina uma cultura econômica essencialmente agropastoril a pobreza e o atraso cultural se apresentariam ainda mais contundentes em oposição àquelas parcelas do território rio-grandense, como a Serra e o Vale do Rio dos Sinos, em que as fábricas ajudaram e ajudam a desenvolver uma economia que, se sofre baques devido às oscilações do mercado externo, consegue trazer, pelo menos, uma certa abundância a suas populações.

A pecha de conservadora que envolveria a cultura estancieira poderia ser neutralizada se os proprietários rurais investissem uma parte de seus ganhos, inclusive recolhidos na Expointer, em avanços sociais e atividades culturais que beneficiassem suas comunidades, a começar com os trabalhadores rurais e suas famílias, estendendo-os à região em que estão localizadas suas propriedades.

Dirão alguns que esse convite a investimentos mais sociais e culturais carrega vertentes político-ideológicas que se contraporiam àquelas tradicionalmente defendidas pelos homens do campo. Eis aí um áspero engano. Nenhum ser humano vive isolado do seu meio. E todos nós, direta ou indiretamente, estamos ligados uns aos outros e dependemos da comunidade como um todo. Se nos preocupamos cada vez mais com o bem-estar de todos, colhemos dividendos não só pessoais como, no caso específico, podemos alterar também o conceito que impera, há muito tempo, sobre o setor primário.

Não é novidade que os conceitos abrem e fecham portas para quaisquer negócios. Não fosse assim, não haveria tantos e tão maciços investimentos publicitários, em todos os setores econômicos, como estratégias mercadológicas de construção e reconstrução de sua imagem. E os conceitos de Responsabilidade Social, tão apregoados hoje em dia junto às empresas e por elas, seguem essa trilha de aproximação com os públicos a que diretamente, ou não, estão afetos.

As perspectivas de negócios projetadas para a Expointer de 2003 anunciam-se promissoras, por exemplo, para o setor de máquinas agrícolas. O sindicato do setor prevê um faturamento de R$ 200 milhões, superando em 1349 por cento os negócios fechados há quatro anos. Se, pensando com a ponta do lápis, aproveitasse uma pequena parcela de tão bons rendimentos para canalizá-la em projetos culturais obteria, sem dúvida, dividendos institucionais, políticos e humanos para o setor.

Há quem poderia pensar que a expressão investimentos culturais só contemplaria cifras de vários dígitos. É verdade que existem projetos a exigir somas consideráveis de dinheiro, mas são muitas outras as formas de apoiar a cultura de uma maneira financeiramente muito mais singela, mas não menos valiosa. Em muitos municípios gaúchos, grupos de teatro, dança, música ou folclore realizam um trabalho exemplar, e precisariam de modestos – mas decisivos, para eles – apoios, materializados como patrocínios de cartazes, fôlderes, bâneres, espaços publicitários em emissoras de rádio e TV, ou poucos centímetros de mídia em jornais da região.

Ou ainda, para outros, a necessidade seria a de obter a generosidade de algum proprietário rural na compra de tecidos para figurinos, madeira ou outros materiais para cenários, o pagamento ou cessão, por alguns dias, de equipamentos de luz e som, ou a ajuda para que o elenco fosse de uma cidade ou região para outra num simples, mas confortável ônibus, proclamando, com seu talento, que aquele município tem gente talentosa e criativa, para orgulho de toda a comunidade. São, com certeza, meios muito humildes, mas importantes, de apoiar atividades culturais.

E, pensando bem, investir em cultura não causa estranheza ao meio rural. Desde a década de 1970, o cinema feito no Rio Grande do Sul tem merecido expressivos apoios da gente da terra. Basta lembrar o filme “A Intrusa”, do diretor argentino Carlos Hugo Christensen, com os atores José de Abreu e Maria Zilda Bethlem, todo rodado em Uruguaiana, cujo enredo, ambientado em belas paisagens junto aos gados eqüino e bovino, reproduzia, com sensibilidade e competência, o cotidiano dos rudes homens do laço, da rinha de galo, das coxilhas e das planícies.

Mais recentemente, também cedendo suas propriedades, animais e peões, fazendeiros de municípios da Fronteira, de Caçapava do Sul, de São José dos Ausentes, de Cambará do Sul, de Pelotas e de outras querências, assinalaram presença em momentos maiúsculos do nosso cinema e da televisão nos filmes “Anahy de Las Missiones”, de Sérgio Silva, e “Neto Perde Sua Alma”, de Tabajara Ruas e Beto Souza, “Luar de Outubro”, de Henrique de Freitas Lima, e, do mesmo diretor, a ser lançado nas telas comerciais, “Concerto Campestre”, já exibido em sessão provativa e no Festival de Gramado, como um belo exemplar de cinema em que o mundo rural se expressa com todo o vigor, além da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, da Rede Globo de Televisão, sem contar filmes como “O Sobrado”, de Walter George Durst, “Um Certo Capitão Rodrigo”, de Anselmo Duarte, e “Ana Terra”, de Durval Garcia.

Sem o apoio de proprietários rurais, essas produções jamais conseguiriam pôr na tela, grande ou pequena, aspectos, reais ou fictícios, de nossa identidade rio-grandense, levando para outras regiões brasileiras o nosso jeito de ser e de viver. Em outras palavras, de nossa cultura, muito desconhecida ainda em outras paragens verde-amarelas.

Qual o retorno obtido por quem apóia artistas ? - perguntarão os mais pragmáticos. Ora, um deles é que nos materiais de divulgação e até mesmo na lateral dos ônibus poderá, até por contrato, se for o caso, constar: Apoio Cultural: o nome da empresa patrocinadora desse apoio. Dá para imaginar como as comunidades ficarão gratas às pessoas que apoiarem seus artistas, logo eles que projetam o nome delas em outras querências. E a imagem dos produtos de suas empresas receberá um reforço mercadológico muito forte, como um dividendo por um simples gesto de solidariedade esboçado a quem luta tanto para manter viva a cultura no Brasil.

Outra forma de apoiar a cultura poderia ser a de adquirir prédios de comprovado valor histórico e cultural – e o Rio Grande do Sul é pródigo no número deles, especialmente associados à Guerra dos Farrapos – e restaurá-los, seguindo as orientações dos órgãos oficiais que zelam pela preservação do nosso patrimônio cultural, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado. Tais imóveis poderiam servir para sede de empresas, de sindicatos rurais, de associações recreativas, assistenciais, culturais, partidárias e esportivas, ou até para locais de negócios. Como se vê, cultura também dá lucro, um lucro indireto, de imagem, de conceito, de respeito e admiração por quem a sustenta, escancarando portas para a abertura e a consolidação de muitos negócios. Ou é de se perguntar: por que grandes empresas, nacionais e estrangeiras, investem tanto nesses e em outros projetos culturais?

Congregados em torno de uma feira como a Expointer, livres da tensão do dia-a-dia, os empresários do setor primário poderiam cogitar racionalmente sobre as vantagens e possíveis desvantagens que investimentos culturais poderiam lhes oferecer, e aí celebrarem parcerias com todos aqueles que têm um imenso talento, mas não foram aquinhoados pela sorte de percorrerem muitos e muitos hectares de terras, arando problemas de toda a ordem, mas colhendo, muitas vezes, fartas safras de compensações financeiras.


Fonte: Roque Jacoby / Secretário de Estado da Cultura do RS
















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