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Quinta-feira, 08 de abril de 2004 - 09h46m

Animais > Peixes

A piscicultura em tanque-rede como alternativa ao Pantanal



* Por Marco Aurélio Rotta

Com cerca de 89 mil km², o Pantanal sul-mato-grossense possui uma superfície plana, com altitudes que variam de 100 m a 300 m em sua parte inundável, correspondendo a praticamente 25% da área total do estado do Mato Grosso do Sul (MS). Nas cheias pode ficar recoberto por uma lâmina d’água contínua de até 25 km de largura. Possui clima quente e úmido, com primavera e verão muito quentes, e com inverno ameno, mas que eventualmente pode apresentar baixas temperaturas. Soma-se a estas características o potencial hídrico proveniente da bacia do alto Paraguai (BAP) e pode-se concluir é possível realizar o cultivo de peixes em praticamente toda a bacia. Porém, as características ambientais da planície pantaneira, que ocupa grande parte da BAP, impedem o desenvolvimento da piscicultura tradicional devido a sua inundação periódica e nos obriga a buscar formas alternativas de cultivo, entre elas a utilização de tanques-redes, que consiste num sistema intensivo de cultivo e utiliza altas densidades de estocagem por m³.

A piscicultura em tanque-rede é uma técnica relativamente barata e simples, se comparada à piscicultura tradicional em viveiros de terra. Essa técnica pode ser utilizada para aproveitar uma grande variedade de ambientes aquáticos, dispensando o alagamento de novas terras e reduzindo os gastos com a construção de viveiros. No Brasil, a despeito do grande potencial que representam os seus quase seis milhões de hectares de águas represadas nos açudes e grandes reservatórios, construídos principalmente com a finalidade de geração de energia hidroelétrica, e, em Mato Grosso do Sul, com seu imenso recurso hídrico natural disponível, a produção comercial de peixes em tanques-redes está apenas começando.

Incentivando-se a implantação e o desenvolvimento dessa atividade através do uso de tanques-redes poderá haver um grande incremento na produção brasileira de pescado, criando-se aí as condições para instalar a fase de industrialização que poderá fazer de nossa região e nosso País um exportador de peixes de água doce. Mas para o sucesso do empreendimento, informações básicas sobre o crescimento das diferentes espécies de importância econômica tornam-se necessárias, a fim de se verificar quais são as mais produtivas em um sistema economicamente viável e ambientalmente seguro, pois além da necessidade de se desenvolver um sistema de cultivo adequado à região, é preciso conhecer as espécies mais promissoras para este sistema. Entre os peixes do Pantanal, muitos apresentam características zootécnicas, organolépticas e mercadológicas bastante atrativas para a piscicultura. Além disso, um dos aspectos mais importantes a serem considerados na implantação da piscicultura é a viabilidade econômica do projeto a ser implantado. Atualmente, o cultivo intensivo de peixes, quando realizado de forma adequada, é uma das melhores alternativas de investimento em criação animal e vem ganhando muitos adeptos entre os fazendeiros do MS.

Como tendência regional pode-se afirmar que a pesca está propensa a sofrer restrições e que a sustentabilidade dos recursos pesqueiros na BAP vai depender cada vez mais da adoção de políticas que considerem os aspectos sociais e econômicos, bem como das limitações ambientais. Essa situação é favorável ao crescimento da piscicultura, bem como pela potencialidade da BAP. Com o domínio da tecnologia de reprodução e criação das espécie de interesse econômico, como o pintado (Pseudoplatystoma corruscans), o cachara (Pseudoplatystoma fasciatum), o pacu (Piaractus mesopotamicus) e a piraputanga (Brycon microlepis), a piscicultura pode colaborar com a redução da pressão de pesca sobre os estoques naturais dessas espécies, as mais visadas pela pesca profissional artesanal no MS.

A piscicultura no Pantanal apresenta-se como uma importante alternativa na produção de proteína animal. Como a demanda por carne de peixe é crescente, a tendência é o aumento da comercialização e industrialização, com a conseqüente adequação à produção, objetivando atender um consumidor exigente quanto à qualidade, diversidade e preço. Atualmente se comercializa no estado do Mato Grosso do Sul cerca de 2.000 t/ano de pescado oriundo da piscicultura. Entretanto, esse volume ainda é muito baixo, pois estima-se que o potencial de consumo no Estado seja de 10.000 t/ano. Logo, há uma oportunidade de crescimento para a produção gerada pela piscicultura, evitando-se que o mercado regional seja atendido por peixes de outras regiões. Para se mudar esse quadro, é necessário buscar alternativas que alavanquem a piscicultura, investindo-se na pesquisa de um sistema de cultivo que se encaixe nas necessidades da sociedade, visando atender as demandas internas, a conservação ambiental, a produção de empregos nas piscigranjas e o aumento da renda do setor.

Outro fator favorável à piscicultura é a proibição da pesca durante o período de defeso da piracema, que compreende a migração reprodutiva dos peixes rio acima. Esse período pode variar de 3 a 4 meses, entre novembro e janeiro ou fevereiro. Nesse período de defeso há uma diminuição da oferta ou mesmo falta de pescado no mercado, favorecendo, assim, o suprimento desse peixe através da piscicultura. Além disso, para o desenvolvimento da piscicultura no Pantanal, é necessário o estabelecimento de uma política especifica, com uma legislação e fiscalização próprias. É preciso considerá-la uma atividade zootécnica, diferenciando-a da pesca extrativa, uma vez que ambas só possuem em comum o produto final, o pescado.

Um fator desfavorável que ocorre na planície pantaneira e que prejudica o desenvolvimento da piscicultura é o fenômeno natural da dequada. Esse fenômeno ocorre principalmente no rio Paraguai e resulta da depleção de oxigênio e do aumento da concentração de gás carbônico na água devido aos processos oxidativos da matéria orgânica que entra em contato com a água na época das cheias. Assim, a dequada dificulta o sistema de cultivo em tanque-rede, pois limita a utilização dos corpos d"água durante os meses em que não está presente. Como a maioria das espécies nativas cultivadas na região possui um ciclo de criação superior a 10-12 meses, e o período sem a dequada fica geralmente entre 6 e 9 meses, não há possibilidade da utilização destes locais para o cultivo. Mesmo possuindo viveiros escavados na parte alta do Pantanal, para dar suporte à alevinagem (fase inicial de cultivo), haveria uma concentração da produção em um período determinado do ano, logo antes da ocorrência desse fenômeno, o que prejudicaria o fluxo de caixa dos produtores e deixaria margem para que as indústrias ou os atravessadores diminuíssem muito o preço do peixe neste período de grande oferta, acarretando um prejuízo para o produtor, muitas vezes sem possibilidade de recuperação.

Portanto, nem todos os rios e regiões da BAP possuem condições para o desenvolvimento viável da piscicultura em tanques-redes. Devem ser escolhidos, obrigatoriamente, os locais em que não há ocorrência da dequada. Além disso, é preciso considerar as dificuldades logísticas (transporte, mão-de-obra, acessibilidade, etc.) dentro do Pantanal, pois como são aproximadamente 89 mil km², tendo várias regiões muito distantes e com difícil acesso para se poder criar peixes de forma econômica. Uma forma de se conhecer os locais adequados para o cultivo de peixes na BAP seria através da realização de um zoneamento que levasse em consideração os aspectos mais relevantes para o sucesso da criação, como clima, topografia e logística.

* Pesquisador da Embrapa Pantanal, na área de Sistemas de Produção Aqüícola.
rotta@cpap.embrapa.br


Fonte: Embrapa Pantanal
















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