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Terça-feira, 07 de setembro de 2004 - 15h00m

Agricultura > Solo

Manejo da fertilidade dos solos de cerrado: o próximo desafio



Por Álvaro Vilela de Resende*

Os sucessivos recordes de produção e o papel fundamental da agricultura no superávit da balança comercial são destaques freqüentes nos noticiários e, possivelmente, constituem as impressões mais marcantes que a sociedade informada tem em relação ao setor agrícola nacional. É verdade que temos vivenciado tempos de euforia e prosperidade associados ao notável desempenho da agricultura, devido, em grande parte, à exploração do Cerrado. No entanto, além da expansão da área cultivada, tal desempenho deve-se essencialmente ao desenvolvimento tecnológico, como a obtenção de variedades com alto potencial produtivo, práticas de correção e adubação do solo, métodos de controle fitossanitário e mecanização.

Situação atual
Apesar de o produtor conhecer os custos envolvidos em uma agricultura com elevado grau de adoção de tecnologia, os retornos dos investimentos nos sistemas de produção praticados atualmente têm sido positivos. O fato é que, na conjuntura atual de mercado, a margem de lucro ainda mantém-se altamente compensadora. Nessa condição, mesmo sem ter certeza da real necessidade, o agricultor não prescinde da utilização de insumos, como uma forma “preventiva” de garantir produções satisfatórias. No caso específico do uso de fertilizantes, muitos ainda parecem acreditar que, quanto mais se aplicar, melhor será o resultado.

Na realidade, o que se conhece sobre os solos de Cerrado e que já foi amplamente comprovado é que sua fertilidade original não permite a implantação de lavouras. Para se cultivar esses solos, inicialmente, é necessário que se proceda à aplicação maciça de calcário e fertilizantes. Contudo, a tendência é que, com o tempo, ocorram consideráveis incrementos nos estoques de nutrientes do solo, o que é confirmado por resultados de análises de áreas cultivadas há mais tempo. O grande problema é saber, com exatidão, até que ponto a adição continuada de nutrientes reverte-se em ganhos de produtividade e, principalmente, até que ponto esses ganhos são compensatórios economicamente. O uso de análises de solo e folhas e o monitoramento das produtividades obtidas podem fornecer os subsídios para se responder a essas questões, mas uma avaliação criteriosa não é tarefa simples e requer apoio técnico especializado.

O que normalmente ocorre é que o fornecimento de nutrientes é feito sem maior atenção para o correto dimensionamento da adubação. Muitas vezes, fertilizantes contendo macro e micronutrientes são aplicados em quantidades definidas arbitrariamente, desconsiderando o que já existe no solo e a demanda real das culturas. Em decorrência, pode haver desperdício de insumos, aumento desnecessário do custo de produção e maior risco ambiental.

Infelizmente, a pesquisa agropecuária não tem conseguido responder, de forma imediata, a todas as questões surgidas no tocante ao manejo da fertilidade dos solos de Cerrado. O primeiro obstáculo é a enorme abrangência geográfica da região, mais de 200 milhões de hectares, quase um quarto das terras brasileiras. Ao contrário do que se possa pensar, o Cerrado não é homogêneo, sendo composto por vários ecossistemas. Suas fronteiras agrícolas estendem-se hoje por áreas do território nacional que apresentam distintas características ambientais.

A diversidade de sistemas de produção atualmente explorados na região é outro complicador para a definição de prioridades de pesquisa. A combinação de diferentes seqüências de culturas e de sistemas de manejo variados torna mais complexo o processo de desenvolvimento de novas tecnologias. O plantio direto, por exemplo, ainda não é uma tecnologia consolidada para as condições de Cerrado e vem exigindo modificação e adaptação das técnicas tradicionais de correção do solo e adubação. Muitos aspectos relacionados ao manejo dos solos sob plantio direto ainda permanecem como incógnitas para pesquisadores e técnicos.

A despeito da rápida evolução observada nos cuidados com as lavouras em fazendas consideradas modelos, grande parte dos produtores ainda cometem erros básicos no uso da tecnologia. Muitas vezes, a imperícia na realização de uma simples calagem para corrigir a acidez do solo pode tornar-se um problema e, o que deveria ser o primeiro passo para a obtenção de boas produtividades, acaba por agravar ainda mais os problemas de fertilidade do solo. Desequilíbrios nutricionais têm sido causa freqüente de perdas de produtividade.

Finalmente, é importante destacar que a enorme pressão comercial que se verifica no setor de fertilizantes também pode ser um fator negativo, resultando em prejuízos quando o agricultor fica à mercê de interesses comerciais em detrimento do compromisso com o manejo racional da adubação. A situação é mais crítica no caso dos produtos tidos como fontes de micronutrientes, sendo comum a venda de substâncias de eficiência desconhecida ou a recomendação de uso sem um diagnóstico da lavoura que justifique sua aplicação.

O futuro (próximo)
O cenário futuro da agricultura deverá ser caracterizado pela redução das margens de lucro, em virtude do aumento da produção e da competição no âmbito dos mercados interno e externo. Dois caminhos poderão ser trilhados: a) continuar a busca por aumentos de produtividade, o que deverá depender principalmente do aprimoramento do manejo geral da plantação (não somente de uma adubação bem feita) e de condições climáticas favoráveis; b) visar à otimização do uso de insumos e a redução de custos, mantendo patamares de produtividades satisfatórios (talvez não os mais elevados), ou seja, conhecer e explorar, da melhor forma possível, os recursos disponíveis e o potencial produtivo passível de ser trabalhado nas condições da propriedade. A segunda opção parece ser a mais realista e exeqüível.

Nessa nova fase, o desafio será a racionalização de custos mediante o refinamento do manejo das lavouras. Em relação à fertilidade do solo, isso significará trabalhar com “ajustes finos” nas recomendações de corretivos e fertilizantes. O uso das tecnologias de adubação deverá ocorrer não só quando detectada a necessidade, mas quando houver viabilidade econômica.

Nesse contexto, ganharão importância as técnicas relacionadas à chamada Agricultura de Precisão. A avaliação do estado nutricional das culturas associada ao monitoramento das produtividades obtidas é que permitirão conhecer o potencial produtivo de diferentes áreas ou talhões da fazenda, identificar os ganhos de produção resultantes da tecnologia adotada e definir estratégias de manejo diferenciado para as safras seguintes. Nessa concepção, o que interessa não é a simples busca de maior produção física via utilização intensiva de insumos e sim maior eficiência econômica do sistema. Em outras palavras, a nova meta passa a ser a otimização de custos e, não necessariamente, o aumento da produtividade.

*Pesquisador em Fertilidade do Solo na Embrapa Cerrados - Planaltina/DF
E-mail: alvaro@cpac.embrapa.br


Fonte: Vivian de Moraes
















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