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Sábado, 04 de setembro de 2004 - 08h51m

Animais > Ovinos

A mulita e a ovelha



Por Fernando Rodrigues Affonso *

É uma realidade triste mas com boas perspectivas de ser revertida. O Rio Grande do Sul já teve um rebanho de 14 milhões de cabeças de ovelhas, que geravam uma renda anual de US$ 80 milhões. Hoje estamos reduzidos a um rebanho de 4 milhões de ovinos e uma produção de 12 milhões de quilos de lã por ano.

Por volta de 1958, o Estado tinha um serviço de ovinotecnia exemplar, filiado à Secretaria da Agricultura. A Associação Riograndense de Criadores de Ovinos (Arco) era referência, seu quadro técnico suscitava admiração e respeito. Foi a época romântica da criação de ovelha. A lã, então alcunhada de “ouro branco”, contribuía com quantias expressivas para os cofres públicos e para o bolso do produtor. Gastamos muito dinheiro em importação de machos e fêmeas do Uruguai, Argentina, Austrália e Nova Zelândia, o que qualificou nosso rebanho admiravelmente. Concorremos com sucesso em inúmeras exposições internacionais.



Affonso: o abigeato é um dos maiores inimigos da retomada da ovinocultura
Foto: Alejandra Saravia Affonso


A vida é dinâmica, a roda girou, a lã entrou em declínio e a ovelha desapareceu de nossos campos. Passou a ser chamada de formiga branca, predadora de pastagem e geradora de muito trabalho. Nosso rebanho encolheu em 10 milhões de cabeças.

O Rio Grande do Sul precisa repensar o assunto ovinocultura. Embora insuficientemente explorada, a ovelha é uma vocação gaúcha e cada vez mais o negócio que melhor remunera dentro da pecuária. Os governos federal e estadual têm manifestado preocupação e buscam formas de estimular o setor. Temos linhas de crédito, como o Prodecap, que atendem as necessidades do ovelheiro, tanto no que diz respeito à aquisição de ventres e de carneiros como na construção e melhoria de instalações. Uma dezena de entidades estão envolvidas com o setor mas, ainda assim, me parece que falta um órgão que assuma a liderança com verdadeiro poder político.

Não obstante as vantagens do ovino aqui enumeradas, a proliferação do rebanho é duvidosa. Entre os obstáculos, o mais temido é o abigeato, grande responsável pelo abandono da atividade e desestímulo para os mais moços. Ocorre-me sugerir aos nossos legisladores que a ovelha seja enquadrada como caça, da mesma forma como ocorre com a mulita, por exemplo. Qualquer pessoa flagrada com uma mulita nos tentos ou na mala do carro, sofrerá os rigores da lei, garantida pelo Ibama. Já um abigeatário, se é interceptado pela polícia levando uma ovelha carneada, na moto ou na bicicleta, é solto na hora ou, no máximo, em 24 horas.

É inacreditável que em um país necessitado de progresso, haja atividades que não possam se expandir por força de uma legislação totalmente favorável ao criminoso. Por mais bem aparelhados que sejam os organismos policiais, pouco poderão fazer frente à essa legislação.

Cabe a nós reverter a situação, nós que temos tão poucos representantes do campo nos parlamentos estaduais e federais. Enquanto a legislação for totalmente favorável ao criminoso, pouco ou nada podemos fazer. Tramita a passos lerdos na Câmara Federal projeto do deputado Luiz Carlos Heinze (PPB-RS), que eleva a pena mínima do crime para três anos de reclusão e o torna inafiançável. Por que esse projeto não avança? Porque os nossos legisladores não ouvem o nosso clamor? Mas nós estamos clamando?

É preciso uma grande mobilização, uma grande pressão, capaz de mostrar os prejuízos que o desestímulo que uma lei complacente com os criminosos aliada a uma força policial desaparelhada e desestimulada podem causar em uma sociedade que precisa de emprego e trabalho.

* Produtor rural, presidente da Cooperativa de Lãs Mauá, de Jaguarão, e do Pólo de Ovinocultura da Zona Sul do Estado


Fonte: Arysinha J. Affonso
















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