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Entrevistas

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Quinta-feira, 04 de agosto de 2011 - 13h19m

Carlos Rivaci Sperotto

Presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul)

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Carlos Rivaci Sperotto

Foto: Divulgação / Sistema Farsul



A voz tonitruante enche a sala. Quem transita no ambiente ruralista logo a reconhece. É de Carlos Rivaci Sperotto, presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) há 14 anos e liderança ativa do campo também em Brasília.  Recentemente, ele recebeu Página Rural na sede da entidade, em Porto Alegre/RS, para uma conversa informal.

Em uma hora de entrevista, falou sobre sua trajetória pessoal, suas experiências como produtor rural e também sobre grandes temas ligados à agropecuária. Natural de Palmeira das Missões/RS, médico veterinário formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ele é proprietário da Fazenda Tapera, em Santo Augusto/RS, atualmente tocada pelos filhos Alexandre e Carlos Eduardo. A propriedade é referência em produção de grãos e sementes forrageiras, com sistema de irrigação modelo.

Em sua atuação pública, aos 73 anos, acumula os cargos de presidente da Farsul, do Conselho Administrativo do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no Rio Grande do Sul (Senar-RS), da Casa Rural e das Comissões Nacionais de Crédito Rural e do Mercosul da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade da qual é vice-presidente diretor. Seu espírito de liderança ganhou projeção nacional na década de 80, quando encabeçou iniciativas pioneiras, como a abertura da empresa Tipicarnes, a fundação da Federação Brasileira de Criadores de Ovinos Tipo Carne (Febrocarne) e a criação do Programa Nacional de Tipificação de Carcaças Ovinas, por exemplo.

Confira alguns trechos da entrevista concedida por Carlos Rivaci Sperotto ao portal Página Rural.


Página Rural – Uma das ideias desta conversa é conhecer o lado menos público de personalidades do agronegócio. O senhor, por exemplo, é médico veterinário e produtor rural. Como começou a sua atuação como produtor rural?
Carlos Rivaci Sperotto  Na verdade, eu me formei veterinário e fui para a fazenda. Cheguei lá nos campos pobres da Palmeira, onde a barba de bode se fazia presente, e me vi, depois de ter cursado a faculdade, em uma situação em que o problema dos animais que lá se criavam não era problema de sanidade. Era alimentação. Então, eu sou veterinário, mas virei agrônomo por necessidade, para dar comida para os meus animais (risos). De imediato, fomos ver como melhorar os campos e proporcionar alimentação aos animais. Aí vimos que o único caminho que existia era a agricultura. Então, virei agricultor, o que eu sou até hoje.

Depois de começar a melhorar os campos, aqui na exposição do Menino Deus (antiga exposição agropecuária realizada em Porto Alegre), comprei reprodutores (da raça) Santa Gertrudis e começamos a trabalhar com genética. Depois, passamos por uma fase com charolês - o barroso era justamente a elite dos remates. Mais tarde passamos para o gado leiteiro, na busca de maior rendimento por hectare. Contribuímos bastante para formar as bacias leiteiras que hoje estão sediadas na região, atraindo grandes empresas de laticínios. Eu trouxe 3.500 novilhas do Uruguai.


PR – Como o senhor compara aqueles tempos com hoje?
Sperotto Hoje, eu poderia dizer que o Rio Grande tem um farto material de alimentação animal disponibilizado aos produtores, coisa que não existia em 62, não é? Nós vivemos aquele boom da agricultura, no qual nossa região da grande Santo Augusto ou de Palmeira (das Missões) trouxe uma contribuição significativa, no sentido de alta produção, busca de tecnologia, disponibilizando para o Brasil inteiro mão de obra jovem capacitada. E, paralelo a isso, nossos agricultores levaram dinheiro aqui do Rio Grande do Sul para explorar o país. Eu nunca me abstenho de dizer que o Rio Grande do Sul tem um crédito com o país que até hoje não foi saldado. Eu mesmo era para ter me mudado para Brasília. Se não fosse uma posição de distribuição de área que o meu pai fez que me radicou no Rio Grande, estaria em outro Estado. Mas fiquei e estou até hoje lá na área que recebi dele.


PR
O que o seu pai fazia?
Sperotto A família do meu avô veio da Itália. Meu pai nasceu no Brasil, em Jaguari. É o filho mais novo da família de 11 irmãos. De Jaguari, ele ousou subir a serra e ir pro lado da Ajuricaba, Linha 23. Quando jovem ainda, iniciou um comércio de levar produtos, carroceando. Meu pai era carroceiro. Me orgulho muito disso. Ele tinha um senso comercial muito aguçado, era um homem de pouca cultura de colégio, porém de uma cultura intelectual e de um conhecimento de matemática bárbaro. Então, ele passou a ser proprietário rural com pequena área que adquiriu onde hoje é Santo Augusto. E a ser tropeiro de mula, levando mula para Itapetininga, Sorocaba, Itararé, São Paulo. Lógico que entregava com valor agregado, pois a mula saía xucra daqui e os peões iam domando no caminho. Eram 45 dias de tropeada. Meu pai chegou a um montante de 28 mil hectares em Santo Augusto, que ele foi adquirindo através do comércio. Mas ele não era criador, era comerciante rural. Meu pai organizava as fazendas que ele comprava e as arrendava, e ainda dava capital de giro também aos arrendatários, assim como o sistema financeiro faz.


PR E como se encontra a sua propriedade hoje?
Sperotto Lá, as inovações são tamanhas, porque hoje a propriedade está sendo conduzida mais pelos meus filhos. Às vezes eu demoro muito a ir e de repente eu encontro lá posições de culturas arrojadas. Nós hoje estamos trabalhando na busca de atendimento hídrico às nossas culturas. Temos semente de milho e milho industrial. Temos multiplicação de sementes de soja. Nós temos feijão em pivô. Nós temos linhaça. Estamos iniciando uma cerealista, já com grande aceitação no sentido de fornecimento de alimentos já para o consumidor final. Vamos agregar valor aos produtos. Nós produzimos azevém, aveia. Então a gama de produção é muito grande. Estamos com plano de ter 70% da área cultivada atendida por pivô central. E estamos com projeto já iniciado há um ano de agricultura de precisão.





PR A irrigação hoje é uma realidade para um percentual muito pequeno de produtores gaúchos. Qual é o principal entrave pra se avançar nesse sentido?
Sperotto São as licenças ambientais para as reservas hídricas, que são muito difíceis. A que eu tenho, que sustenta a minha propriedade, foi feita há 30 anos. Então, por um golpe de felicidade tivemos essa posição consolidada. Hoje, não seria possível se fazer isso. Então se tivéssemos uma facilitação, uma agilização no procedimento de liberação desses empreendimentos, a ansiedade do produtor seria atendida. Sem prejuízo à sustentabilidade dos nossos ambientes. O Rio Grande é altamente propício a que se desenvolva programas de irrigação e que se tenha esse valor agregado que traz uma segurança ao produtor.


PR
Nos últimos meses o Brasil conviveu com acirradas discussões sobre o Código Florestal. Isso não desgastou a imagem do produtor, que às vezes foi associado a devastação?
Sperotto O Brasil é um país que, se formos analisar, gastou muito pouco com exército para marcar suas fronteiras efetivas. Foram demarcadas pelo agricultor. O agricultor que ousou, o agricultor que fez, que foi lá, cumpriu metas e atendeu a programas oficiais. Embora hoje esteja sendo penalizado e mal visto por ações que, no meu ponto de vista pessoal, nada têm a ver com o produtor, e sim com exploradores de florestas e de madeira, que é um caso a parte, que não poderiam ser vinculados ao setor. Temos um desenvolvimento mais do que secular da agricultura, tanto em encostas, como é o caso da nossa serra, como em várzeas, como é o caso do nosso arroz. Em planícies, nós temos a agricultura hoje mais do que disciplinada. É que às vezes as ONGs têm mais força de reivindicação. E, essas ONGs, eu diria que não são ONGs locais. São ONGs que temem justamente nossa potencialidade de Brasil, nossa potencialidade de Mercosul, nossa potencialidade imediata de podermos atender às demandas mundiais por alimentos.


PR
O Código já foi aprovado na Câmara dos Deputados...
Sperotto E agora está no Senado, a batalha vai continuar. Na Câmara conseguimos na última hora alterar diversos pontos, mudando redações que prejudicavam a produção. E isso fizemos a partir de discussões que tivemos no Conselho de Representantes da Farsul. Não podemos deixar de elogiar a conduta do Deputado Aldo Rebelo, que sempre manteve o diálogo. Mesmo assim temos de refletir por que só o Brasil tem de ter seu código com suas limitações à produção. Nós temos 62% de nossas reservas naturais preservadas, enquanto outros países têm bem menos e não têm legislação semelhante. A Europa, por exemplo, tem 3% e cobra de nós posições que eles não têm lá. Então acho que deveria haver um Código Florestal Internacional, para que todos assumissem suas responsabilidades, e não só o Brasil.


PR
O senhor também fez incursões na ovinocultura. Na década de 80, criou a Tipicarnes, uma boutique de carnes, que fez bastante barulho no mercado. Como funcionava?
Sperotto A Tipicarnes era uma loja que nós tínhamos em parceria com João Carlos Timmers e Régis Lopes Salles e o Carlos Eduardo, meu filho. Apostamos no assunto ovinocultura e identificamos a potencialidade deste setor. Porém, a potencialidade nos atropelou, uma vez que colocamos qualidade no produto e exigimos do fornecedor. Logicamente, ao buscarmos mercados mais ávidos de consumo de qualidade, faltou fornecimento de produto. Então é um projeto que inclusive está armazenado, está congelado, mas está em casa. Eu diria que se implantássemos esse programa que nós há 20 anos começamos, ele não pagaria depósito pra ninguém. Ele teria condições de ser competitivo, uma vez que tenha a oferta de produto básico.


PR
Qual era a estrutura do negócio?
Sperotto Nós buscamos apoio junto a um técnico italiano que nos deu assessoria, nos desenhou o projeto. Tive que passar 20 dias em Paris, aprendendo. Então, nós fomos a campo, tivemos a oportunidade de analisar e pegar a experiência exitosa que já existia de cortes diferenciados. Saímos da carcaça clássica e viemos para cortes especializados. Ao detalhe, ao fornecimento... Eu diria que o “bolichar” de carne foi um momento muito bom da minha vida onde as pessoas de bom gosto conosco participavam, iam lá, degustavam. Nós tínhamos uma área de degustação onde os cortes eram aprimorados, as sugestões eram absorvidas. Inclusive nós fizemos junto com outros companheiros, como o Davi Martins, com quem nós importamos reprodutores das raças produtoras de carne, no caso Texel. Criamos associação (Associação Brasileira de Criadores de Texel - Brastexel), criamos a federação (Febrocarne). Até hoje eu digo que tenho boa lembrança disso. Só que os rendimentos em termos de volume logicamente não dá pra se comparar no que se tem hoje com produção de grãos.


PR A agricultura está em alta. As previsões de demanda da FAO são crescentes para as próximas décadas. Isso é um indicativo que o momento da agricultura atual deve ser duradouro e que os preços também devem ser recompensadores?
Sperotto O mundo está a demandar alimento. E o alimento, nós sabemos perfeitamente, às vezes é relegado a um plano inferior. Houve uma situação em que houve a bolha imobiliária nos Estados Unidos e passamos a tratar do esquema financeiro. Só que, passado isso, retorna com muita presença a demanda mundial por alimentos. E aí logicamente nós nos vemos novamente presentes. Com relação a aumento de preços de alimentos, que também está muito em moda de se dizer isso, o fato é que o pneu estava murcho. A bola estava murcha, o que está crescendo é para ela voltar ao seu contorno ideal na relação custo e ganho. A nossa é uma atividade econômica, e como tal tem que ser tratada.


PR O senhor é vice-presidente da CNA, responsável pela área de relações internacionais. Como está lidando com as assimetrias do Mercosul e a pressão por restrições à entrada de arroz e outros produtos de países do bloco no Brasil?
Sperotto O Brasil tem hoje uma produtividade top, para competir num ranking mundial. Nós temos que buscar adequação é no custo dessa produtividade. Então, é preciso uma harmonização desse quadro. E aí nós tivemos, inclusive na Farsul, momentos onde os nossos parceiros e amigos do Mercosul aqui estiveram, enquanto, em paralelo a isso, estávamos com o nosso povo na rua, a turma do arroz, com questionamentos sobre o Mercosul. Por quê? Porque os mecanismos de diálogo não existiam.


PR O senhor tem pregado muito a unidade dos produtores do Mercosul...
Sperotto No momento que nós temos uma demanda maior lá fora e que o Mercosul tem 150 milhões de hectares a serem inseridos no processo de produção, temos uma oportunidade. Mas esta casa está debruçada na busca de solução do caso do arroz.


PR Falamos da Tipicarnes. Isso remete um pouco à questão de o Rio Grande do Sul se focar em ser uma boutique do país. Qual o caminho que o senhor vê para o Rio Grande do Sul?
Sperotto O Rio Grande abandona de ser o celeiro e o Rio Grande tem que ter a meta de ser a butique.


PR Isso significa o quê?
Sperotto Nós temos que buscar agregar valor ao produto. O Rio Grande não tem a pretensão de ser o maior produtor de grãos, de ser o maior armazenador de grãos, assim como também de carnes. Mas vamos fazer um upgrade no nosso produto, vamos qualificá-lo, vamos identificá-lo dentro de um regime de atendimento às demandas internacionais. Quando o Brasil era um país litorâneo, o povo olhando para o mar, o Rio Grande era o celeiro do país. Mas chegou o momento em que os gaúchos abriram as fronteiras. Hoje o Brasil olha pro Brasil.


PR Para isso é importante também ter um acesso aos mercados que mais pagam e mais valorizam a qualidade. Embora o próprio mercado brasileiro tenha crescido e esteja valorizando de alguma forma essa qualidade. Na área da carne, por exemplo, talvez esteja mais próximo do que nunca um tipo de acordo com os Estados Unidos, com o Japão, que são questões que se falam há mais de dez anos. Quais são as perspectivas reais que o senhor vê?
Sperotto É um passaporte que nós estamos a buscar (o acordo). Hoje nós podemos dizer que temos o melhor zebuíno do mundo. Paralelo a isso, não abandonamos a posição de nós, do sul, caso específico do Rio Grande, termos raças de origem europeia, e o mercado destinado a essas carnes é diferenciado. E diríamos que o Rio Grande do Sul deu um salto muito grande no momento em que ele produziu o novilho que o frigorífico exportador queria. Não é ficando em casa resmungando com as posições impostas, e sim aderindo aos programas e nos inserindo nos procedimento de trazer qualidade ao produto, que ganharemos os mercados que há pouco comentamos. Como o dos Estados Unidos. Não com a pretensão de criar problema de consumo lá, mas apenas de termos um passaporte sanitário admitido e aceito pelos Estados Unidos. Com isso, vamos ao México, vamos ao Japão, vamos ao Canadá...


PR O que o senhor acha de uma mulher na presidência da CNA, a senadora Kátia Abreu? O que o senhor acha do trabalho dela e de que forma a mulher pode contribuir pra mudança nessa postura da sociedade em relação ao agronegócio?
Sperotto Eu diria que o sexo não altera, porém a personalidade, o poder de tratar dos assuntos que a senadora Kátia Abreu tem. É uma grande líder, tal companheira. Eu poderia dizer que contribuo com ela, talvez, pela oportunidade de ela conversar com alguém que tenha mais período de experiência. Me considero um amigo, um companheiro e um parceiro. Mesmo sendo vice dela ou não, eu continuaria dando apoio a ela. Ela tem um diálogo muito forte e uma simpatia muito grande. O nosso grande problema aqui no Estado é equacionar a vinda da Kátia, todo mundo quer a Kátia no seu município. E aí então nos coloca numa posição de não poder atender, até de represar certas coisas.


PR Nos últimos anos, foi criado o Sistema Farsul, em vez de apenas Farsul, ou apenas Senar ou a mais recente Casa Rural. O que é esse sistema?
Sperotto A Federação da Agricultura é uma entidade para defender os interesses políticos do setor. A ela não lhe é permitido tratar, embora o setor seja um setor econômico, dos assuntos econômicos diretamente agindo. Ao Senar, tecnicamente, hoje com 18 anos, competem ações de disseminação de tecnologia. Mas nós tínhamos que ter uma integração e um braço operacional no que diz respeito ao lado comercial. E a Casa Rural, então, nós criamos pra isso.


PR A Casa Rural funciona muito parecido com o que hoje está na moda, os sites de compras coletivas...
Sperotto Não tem dúvida. Se você olhar, normalmente o que acontecia? O grande comprador tinha um preço, e os outros que compravam em volumes menores amargavam o fracionamento, aquela posição de distribuição de pequenas quantidades que ao comércio justificava ter um preço superior em tudo. O que nós fizemos? Permitimos que a junção de pequenos pedidos formasse a grande venda. E com isso nós precisaríamos o bom preço para repassar a todos. Então foi um procedimento que se adotou, que não tem dúvida que encontra inimigos no mercado. As estruturas que estão estabelecidas no mercado, elas não se entregam.

Mas a Casa Rural está com o seu principio sólido, a Casa Rural não compra, a Casa Rural não vende, não armazena, não transporta e não avaliza. A entidade que tiver esses cinco itens disponibilizados eu acredito que ela estará atendendo aos anseios dos produtores. Mas se nós olharmos as dificuldades das estruturas intermediárias que nós temos de outro gênero, ao fazerem isso, elas passaram a ser operadoras comerciais. Então, o ganho que seria do produtor, ela absorve, catalisa e faz prospecções e negócios.

Fonte: Página Rural








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