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Entrevistas

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Quinta-feira, 20 de janeiro de 2005 - 14h01m

Hainsi Gralow

Presidente da Associação Fumicultores do Brasil (Afubra)

O contabilista Hainsi Gralow, filho de um dos primeiros casais de fumicultores de Santa Cruz do Sul, Lindolfo e Olga Gralow, preside a Afubra desde 30 de julho de 1983. Ele também comanda a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Fumo desde sua implantação, ocorrida em dezembro de 2003, e ocupa a vice-presidência da Associação Internacional dos Produtores de Tabaco (ITGA), desde novembro do ano passado, em eleição ocorrida no Canadá, entidade que já presidiu por dois anos. Integra ainda o Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG).



Foto: Departamento de Comunicação Afubra


Proprietário de uma área rural de 20 hectares, Gralow, como fumicultor, cultiva de dois a três hectares de tabaco Virgínia a cada safra. Como dirigente, participa ativamente da elaboração e definição da planilha de levantamento dos custos de produção do fumo e das negociações para fixação dos preços do produto com os dirigentes do Sindicato das Indústrias do Fumo de Santa Cruz do Sul/RS (Sindifumo). Ele também representa os fumicultores perante as esferas governamentais, inclusive nas determinações de portarias ministeriais que regulamentam a classificação e a comercialização do fumo no Brasil.

Fora da fumicultura, o presidente da Afubra ainda encontra tempo para exercer a profissão de professor. Mestre desde 22 de abril de 1976, ele leciona atualmente a disciplina Contabilidade Agrícola na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Gralow também se destaca na área ambiental, principalmente como mentor e grande incentivador do Projeto Verde é Vida, campanha ecológica desenvolvida pela Afubra desde 1988. Essa personalidade é o entrevistado da Página Rural, para falar sobre a atividade fumageira.


Página Rural - Como presidente da Câmara Setorial do Fumo, que balanço o senhor faz neste primeiro ano de atuação?
Hainsi Gralow - A exemplo das outras instaladas pelo Governo Federal, a Câmara Setorial do Fumo foi criada com o objetivo de fazer uma análise profunda do setor, ou seja, a promoção de fórum permanente de discussões e de elaboração de políticas para o setor fumageiro, congregando governo, produtores e empresários. Embora com um ano de atuação, temos pela frente muito trabalho para desenvolver em virtude da amplitude do território brasileiro. Como facilitador de ações, criamos três grupos temáticos em 2004: o que analisa o contrabando e a falsificação de cigarros, que reflete em grandes prejuízos econômicos ao setor e à economia do País; o da distribuição da renda gerada pelo produto, que busca mais igualdade em relação as riquezas geradas; e, mais recentemente, o que trata da possível ratificação da Convenção-Quadro contra o tabaco, proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS), que nosso entender, ocasionará enormes danos sociais e financeiros ao Brasil. Além das reuniões ordinárias do órgão, os grupos funcionam simultaneamente na busca de soluções possíveis a curto e médio prazos ante os problemas levantados. Acredito que a câmara está funcionando bem, desempenhando seu papel de informar o governo das atividades e da situação enfrentada pelos fumicultores e de toda a cadeia produtiva.

PR - Qual o impacto que a ratificação da Convenção-Quadro para o controle do tabaco terá na cultura do fumo em nível de produtor?
Gralow - Não será apenas em nível de produtor. Todo o segmento, inclusive a Nação, vai perder consideráveis riquezas. Não importa se é a curto, médio ou longo prazo. O que a OMS pretende é acabar com o fumo em nível mundial. Considerando que somos o maior exportador e o segundo maior produtor, não há como negar que não haverá prejuízos para o Brasil. Diante disto, é difícil entender por que alguns brasileiros tomaram a iniciativa de incentivo a esta resolução sem antes promover grandes discussões sobre o tema. Com a já concretizada ratificação, oportunizada por países que têm pouca ou nenhuma expressão no cultivo de fumo, os prejuízos já se avizinham. Países que adquirem nosso produto vão comprar menos ou então importar quantidades menores. Para a indústria fumageira, os reflexos serão menores, já que ela transfere seu capital para outras nações. O produtor não. Ele terá que partir para outras opções de cultivo. Considerando o universo total de fumicultores e as características de suas propriedades, a pergunta que não encontra resposta é quais as culturas que garantam, pelo menos, preço mínimo e mercado.

PR - Na sua opinião, existem atividades viáveis, do ponto de vista econômico, para o agricultor fazer a reconversão de culturas? Quais são elas?
Gralow - Não. Com absoluta certeza, no momento não existe nenhuma cultura viável, capaz de gerar renda suficiente para garantir a sobrevivência e a qualidade de vida usufruída atualmente pelos agricultores familiares. Para investir em uma nova atividade, com garantias mínimas, é necessário tempo. Temos produtos agrícolas como a banana, a cana-de-açúcar, os citros e outras frutas, mas todos exigem clima e solo apropriado, que na maioria não existem nas regiões fumageiras.

PR - Como dirigente de uma entidade internacional ligada à fumicultura, quais as perspectivas de produção mundial de fumo?
Gralow - A tendência é de regularização dos estoques, que está baixo. Além do Brasil, outros grandes produtores estão aumentando seus volumes. Isto não é bom para os fumicultores, principalmente os brasileiros, porque reflete em preços menores, já que o Brasil é responsável por 10% da produção mundial. Mas os valores ainda são uma incógnita porque dependem dos caminhos que os importadores vão tomar. Além disso, mesmo que o estoque mundial esteja baixo no momento, existem tipos de fumo que estão sobrando no mercado. O fator também prejudica a obtenção de preços melhores, visto que há preferência por folhas finas e de cor alaranjada.

PR - A fumicultura é a principal fonte de renda de milhares de propriedades familiares da região Sul do Brasil. De que forma a indústria fumageira pode ajudar o produtor a continuar investindo nesta atividade?
Gralow - É preciso estimular os agricultores a produzirem o tipo de fumo que mais falta no mercado e nisso o Brasil é muito competente. Afinal, quem decide qual fumo deve ser plantado é o consumidor de cigarros. As fábricas passam essa informação para seus fornecedores, que repassam para os produtores. Agindo assim, as indústrias podem garantir aos fumicultores uma produção segura e mais rentável.

PR - A Responsabilidade Social das empresas privadas é um fator que tem grande importância para o desenvolvimento sócio-econômico das populações urbanas e rurais. Qual a participação das fumageiras neste sentido?
Gralow - Se compararmos com outros setores agrícolas, o setor fumageiro já desenvolve muitas ações nesta área. Mas penso que as empresas fumageiras, pelo seu potencial, poderiam fazer mais. Diante de seus avançados laboratórios que buscam novas tecnologias, poderia haver uma aceleração do processo de dicas e de receitas aos produtores para uma produção cada vez mais correta em relação ao ambiente, ao uso do solo e aos produtos químicos utilizados. Mesmo reconhecendo ações importantes, como o fornecimento de mudas a preço de custo para reflorestamento, o patrocínio do programa "O Futuro é Agora", que estimula os filhos dos agricultores à freqüência escolar e ao estudo e o recolhimento das embalagens vazias de agrotóxicos, penso também que as indústrias poderiam investir mais nas áreas ambiental, educacional e social. Muitas vezes, fico imaginando os acionistas das empresas abrindo mão de uma pequena margem de seu lucro, revertendo o valor em aumento da remuneração do fumicultor. Imagine o alcance social desta atitude: mais dinheiro circulando nas áreas de produção de fumo. A integração pode ser muito maior, para que a indústria e o produtor realmente trabalhem juntos.

PR - Em março de 2005, a Afubra comemora 50 anos de fundação. Quais as programações previstas para comemorar a data?
Gralow - Embora já iniciada há quase um ano, a programação ainda está sendo alvo de estudos. Mas uma entidade de classe que chega à marca de 50 anos de atividades ininterruptas, com a responsabilidade de administrar um seguro agrícola, carência que ainda hoje inibe o pleno desenvolvimento dos setores que compõem o agronegócio brasileiro, penso que merece ser comemorado. Pela visão empreendedora dos fundadores e dos fumicultores associados, a data não pode passar em branco. Neste momento, o que posso adiantar será o lançamento de um livro, contando a história de nosso cinqüentenário. Mas haverá outras comemorações, que serão divulgadas assim que concluirmos o programa.

Por Aline Puthin
aline@paginarural.com.br









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