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Entrevistas

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Quarta-feira, 14 de setembro de 2005 - 10h22m

Ricardo Silveiro Balardin

Engenheiro Agrônomo

O professor Ricardo Silveiro Balardin é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, com mestrado em Fitopatologia pela mesma instituição. Realizou seu doutorado na Michigan State University, nos Estados Unidos. Além desta formação acadêmica, o professor e pesquisador Balardin fez diversos cursos e estágios no Brasil e em outros países. Ele estuda a ferrugem asiática da soja desde 2002, quando a doença se manifestou nas lavouras brasileiras.


Atualmente, Balardin realiza pesquisas sobre proteção de plantas e dentro desta linha se dedica às doenças da soja, feijão, arroz e cereais de inverno. Estuda especificamente os patógenos: Colletotrichum lindemuthianum (Antracnose do Feijão), Fusarium. solani f. sp. glycines (Podridão Vermelha da Raiz da Soja) e Phakopsora pachyrhizi (Ferrugem Asiática da Soja). Dentro dessas doenças, Balardin trabalha com manejo, manejo integrado, variabilidade e controle químico. Também é professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.


Página Rural - Com o aumento da divulgação e importância da ferrugem asiática, como estão as pesquisas acerca desta doença na cultura da soja em nosso país?
Ricardo Silveiro Balardin
- Eu acredito que as pesquisas permitiram uma evolução muito grande, tendo em vista que saímos de 2001/2002 da estaca zero. Não se conhecia o patógeno nas condições de cultivo do Brasil bem como a dinâmica da mesma nas condições de cultivo brasileira. Então começamos a trabalhar e entender a dinâmica da doença, e entender o patógeno como uma população e não como ações isoladas, ajustamos os momentos de pulverização, entendemos a dinâmica dos vários hospedeiros. Nós estamos falando de uma doença que está a quatro anos no campo e nesse tempo muita coisa aconteceu. Como havia muito dano, além da necessidade dos cadastros se tinha muita pressão do sistema produtivo no sentido de reduzir os danos, que ainda hoje existem. Então, as pesquisas para a busca de germoplasma resistente ainda estão iniciando.

Na questão de manejo integrado existem várias pesquisas com resistência horizontal, com a parte genética e também de manejo, adubação e espaçamento. Hoje, trabalhamos no nosso programa de pesquisa com estes dois elementos. Temos que desenvolver a prevenção como ponto de partida para uma estratégia eficiente de controle e ainda há muito que fazer.


PR - De acordo com as previsões climáticas, o que se pode esperar de incidência da ferrugem asiática para a próxima safra no Brasil?
Balardin
- A questão de previsão climática é muito complexa. Se o ano apresentar chuvas normais, considerando o inverno que estamos tendo, eu acredito que nós teremos pressão de ferrugem semelhante a que foi observada no ano passado, nos meses de novembro e dezembro. No sul do Brasil, se nós tivermos um ano de chuvas normais, vai haver aquela confirmação da incidência já em dezembro e vai atingir o nível de dano maior em janeiro. Porém, se tivermos um período mais seco, repete-se o cenário que tivemos no ano passado, com a incidência da ferrugem apenas quando as chuvas retornarem. No cerrado, pelo regime de chuvas ser muito concentrado entre outubro e março, acredito que teremos o mesmo cenário do outro ano, embora este ano a pressão dos pivôs até o mês de setembro estar menor, o que poderá acarretar menor pressão de doença no início (novembro e dezembro).


PR - Para a próxima safra, quais os principais cuidados que os produtores de soja brasileiros deverão ter?
Balardin
- Acho que tem que manter o programa de proteção da lavoura - controles preventivos - não ter medo de trabalhar no vegetativo, pois neste estádio a ferrugem pode estar se estabelecendo mesmo sob pressão pouco perceptiva. O produtor deve considerar o histórico da doença bem como das condições climáticas. Um dos pontos importantes é o conhecimento do que está ocorrendo agora do ponto de vista climático e preservação de inoculo em hospedeiros voluntários. Deve-se analisar como a doença está se comportando no Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia, e mesmo dentro do Brasil e, a partir deste diagnóstico, ter uma noção clara de como a doença se “move” e como se dá o deslocamento das chuvas. Mais do que tudo, trabalhar com controle preventivo. Existe momento certo para trabalhar com triazóis, para trabalhar com triazóis + estrubirulina e com benzemidazol + triazóis.


PR - Qual o posicionamento indicado para controle de ferrugem? Comente também sobre como realizar o manejo integrado?
Balardin
- Em áreas que se tem uma entressafra com soja ou hospedeiros da ferrugem, você tem que trabalhar com um nível de prevenção elevado, ou seja, buscar aplicações em pleno estádio vegetativo. Em áreas que você tem ausência de inoculo no inverno, embora com soja “guacha” ou soja voluntária com ferrugem, a pressão do inoculo torna-se baixa sendo possível chegar mais próximo do reprodutivo para iniciar o controle. Fora dessas duas situações, não vejo hoje no Brasil áreas onde se possa tranqüilamente avançar em R3 (início de formação de vagem), a não ser que você tenha um advento climático como, por exemplo, se não chover e esquentar muito, pois, a doença é muito lenta. Se nós tivermos um ano normal do ponto de vista climático a tendência é a incidência de ferrugem do vegetativo para início do reprodutivo.

Com relação ao posicionamento, se a aplicação for feita bem cedo no vegetativo deve ser utilizado triazol, caso ocorra durante a transição do vegetativo e reprodutivo, mistura-se triazol com estrubirulina. Na seqüência uma terceira aplicação poderia ser utilizado no caso do produtor que iniciou as aplicações no vegetativo ou uma segunda aplicação no caso do produtor que começou no início do reprodutivo faria uma aplicação de uma mistura de triazol com benzemidazol. Quanto ao manejo integrado, nós vamos ter que dispor de materiais para resistência horizontal, o qual está ainda sendo desenvolvido, ter melhor conhecimento do efeito de cálcio, potássio e fósforo sobre o desenvolvimento da ferrugem, usar o tratamento de sementes como uma ferramenta para ter mais residual de controle ainda no início do período vegetativo, e poder retardar a aplicação, o manejo de ervas daninhas e hospedeiros intermediários, época de semeadura - em áreas de muita pressão procurar retardar um pouco a semeadura.

Por outro lado, semear no cedo com cultivares precoces é muito melhor porque se trabalha com uma pressão de inóculo ainda muito baixa, quando você retarda você tem muita pressão da doença. Em termos de manejo integrado, nós podemos trabalhar desde o tratamento de semente, passando pela questão da adubação, indo para a questão do momento da semeadura, momento de aplicação e escolha de fungicidas adequados. Mas todas essas técnicas devem evoluir muito mais em termos de pesquisa para poder levá-las ao produtor com um nível de confiabilidade bom.


PR - O mercado de fungicidas hoje vai suprir a demanda da safra 2005/06?
Balardin
- Sim, porque a demanda está reprimida por questões econômicas. E o mercado americano não apresentou uma demanda elevada. O mercado deverá suprir a demanda.


PR - Há alguma possibilidade de outra doença vir a se destacar no próximo plantio de soja?
Balardin
- No próximo, não. Porém, nos próximos plantios sim. Já está aparecendo à Mancha Alvo que foi problema em algumas áreas do Cerrado, Antracnose tem sido uma doença muito constante em áreas com muita chuva, o Mirotécio e, além disso, estamos tendo o Míldio como uma doença mundial.


PR - Quanto ao desenvolvimento da Ferrugem nos Estados Unidos, qual é a situação norte-americana?
Balardin
- A evolução da doença foi condicionada pela estiagem. Primeiro, a seca de março e abril retardou um pouco a doença. Segundo, existem diferenças evidentes entre o Brasil e os Estados Unidos, pois o inverno é mais rigoroso e não há um cultivo tão intenso de soja. Terceiro, eles têm uma população de Kudzu (planta hospedeira de ferrugem) muito grande, mas muito no sul do país, então sempre vai depender muito da movimentação da doença no sentido sul-norte do país. Eu acredito que, a partir do estabelecimento da ferrugem, essa possa trazer algum incômodo. Este é o momento em que o produtor está no aguardo do que fazer e como fazer. Tem muita informação do Brasil que está balizando o mercado norte-americano. O furacão Katrina vai levar esporos para outros estados assim como o Ivan já levou no ano passado. A situação lá pode se tornar mais séria.


PR - O mercado norte-americano está preparado para suprir a demanda por fungicidas?
Balardin
- O mercado norte-americano não está preparado para atender a demanda de fungicidas. Se houver uma aplicação em toda área, de forma rigorosa, não haveria fungicida o suficiente para atender a demanda dos EUA e América do Sul. Mesmo na área de América do Sul não se faz uma aplicação em toda área. A lavoura de soja totaliza mais de 75 milhões de hectares nas Américas. Se a ferrugem tornar-se séria nos EUA não haverá estrutura fabril para produzir todo o produto necessário, pois simplesmente a demanda dobraria. Nos EUA, está tudo sob section eighteen, esta expressão quer dizer que cada Estado tem suas próprias leis, então alguns triazóis não entram nos Estados Unidos, e eles não têm mistura formulada, somente mistura de tanque, então ainda há uma certa restrição ao uso de fungicidas. Porém, pior que o suprimento de fungicida é a operacionalização da aplicação, pois todo o mercado de aplicadores nos EUA está muito voltado para uso de herbicida então haveria de ter um investimento para adequar a tecnologia de aplicação aos fungicidas. Eles vão passar pelo mesmo processo de aprendizado que nós passamos aqui, mas muito mais doloroso já que tínhamos um histórico de tratamento de doenças que eles não têm.


PR - Qual a principal diferença de condução da lavoura da soja entre produtores do Brasil e Estados Unidos?
Balardin
- A principal diferença é que a soja nos Estados Unidos entra num programa de rotação para milho e no Brasil a soja é a lavoura principal. Eles têm uma lavoura de alta tecnologia, embora, nós também tenhamos mais tecnologia que eles. Nós temos uma melhor adaptação da soja, eles têm melhor adaptação para milho. A capacidade produtiva deles é muito boa e o suporte de pesquisas e extensão é muito bom, o que falta para os produtores brasileiros. A infra-estrutura deles também é muito boa para escoar a produção. A soja deles viaja poucos quilômetros de caminhão e chega a um posto de abastecimento, enquanto a nossa soja viaja até 2 mil quilômetros.



Ana Laura Paraginski









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