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Entrevistas

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Quinta-feira, 23 de julho de 2009 - 20h31m

Vergilio Frederico Perius

Presidente do Sindicato e Organização das Cooperativas do RS e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do RS - Sistema Ocergs-Sescoop/RS

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Vergilio Frederico Perius

Foto: Via Informação / Página Rural



Natural do município gaúcho de Campina das Missões, Vergilio Frederico Perius, 66 anos, ocupa a presidência do Sindicato e Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo - Sistema Ocergs-Sescoop/RS . Possui formação em Ciências Jurídicas e Sociais, Filosofia e Pedagogia, com pós-graduação em Cooperativismo, pela Unisinos, em São Leopoldo/RS, e Teoria da Cooperação Econômica, pela Universidade de Münster, na Alemanha. 

Durante 30 anos atuou como professor universitário, na área de Direito Cooperativo e, sempre esteve vinculado ao cerne das cooperativas. Teve passagem pelo Incra e, em Brasília, ajudou a formular sete artigos aprovados na Constituição Federal.

Nesta entrevista concedida ao site Página Rural, Vergilio Frederico Perius fala sobre a importância do cooperativismo para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul, crise mundial, inclusão digital rural, centros de formação e da presença dos jovens e das mulheres nas cooperativas.

Página Rural – Em que situação está o cooperativismo gaúcho?
Vergilio Frederico Perius – As cooperativas gaúchas, com cerca de 900 cooperativas, possui, sob o ponto de vista social, 1 milhão e 600 mil associados. Este número, se multiplicado por quatro dependentes por associado, resultará na metade da população do Rio Grande do Sul. Isso significa dizer, que somos a maior organização não-governamental do Rio Grande do Sul. É uma força social muito grande, que cresce diariamente com grande incremento no número de sócios. O setor Sicredi, por exemplo, cresceu no mês de março, em 7% no número de sócios. Assim, apesar da crise mundial, o cooperativismo gaúcho hoje, tem dado uma boa resposta.

Sob o ponto de vista econômico, nós estamos hoje atuando em 14 ramos no Estado, desde o segmento de crédito, agropecuário, infra-estrutura e saúde, que são os ramos mais fortes, até os outros ramos menores. Tudo isso representando 11% do PIB gaúcho. Ou seja, o cooperativismo gaúcho é forte. A cooperativa de crédito detêm 9% do ranking financeiro dentro de nossas cooperativas, um setor extremamente forte.


Página Rural – E como se encontra o cooperativismo no Brasil?
Perius –
Historicamente todos sabem que o Cooperativismo se consolidou no Rio Grande no Sul e que hoje também está forte, principalmente, no Paraná e Santa Catarina. O Brasil cooperativo possui cerca de oito mil cooperativas, com quase dez milhões de sócios. Contudo, o setor ainda está em desenvolvimento, pois temos “brasis” dentro do Brasil.

O problema começa nas regiões Norte e Nordeste, por um fator cultural de desenvolvimento daquelas comunidades, embora alguns estados tenham destaque com o cooperativismo. A cultura cooperativa está mais presente na região Centro-Sul, até mesmo pelas etnias e as funções de sobrevivência impostas aos imigrantes alemães, italianos, poloneses em produzir e sobreviver, sem interesse no tamanho da propriedade. As etnias portuguesas e açorianas, com característica de defesa de território, cultuaram a pecuária extensiva e uma visão mais de comércio e vendas, caracteristicas culturais no Norte e Nordeste. O Centro-Sul sempre teve a visão de agroindústria. De gerar e produzir alimentos para ao mercado interno. E o que sobra exportar. Tenho isso como fator importante, pois se agrega valor e renda ao produto.

Sempre comento sobre um estudo comparativo da Unisinos, de São Leopoldo/RS: Se o produtor de uvas, hoje nos vinhedos, apenas produzir uva e não entregá-la a cooperativa, terá apenas 11% do valor da garrafa de vinho. Mas, se ele participar do setor da agroindustrialização e comercialização ele obtém até a metade do valor, além da assistência técnica, benefícios sociais que recebe, e as sobras da cooperativa. Por isso, estamos tentando fortalecer o cooperativismo agroindustrial no Brasil inteiro.


PR - De que forma o cooperativismo gaúcho está contribuindo para a superação da crise mundial? 
Perius – A crise é recente e a história do cooperativismo é muito mais longa. Só que a grande diferença é a seguinte: a crise mundial é uma crise de economia virtual, especulativa. E o cooperativismo nunca foi especulativo, sempre foi uma economia real.

Então, o nosso diferencial da aceitação do cooperativismo no mundo inteiro, é que nós somos uma economia da transparência, da prestação de contas, do balanço e da realidade. Ou seja, quando se dá um empréstimo a alguém, não é como o sistema hipotecário americano, se fazem questionamentos. Como há uma desconfiança geral no mundo sobre o risco da economia virtual, as pessoas pensam onde aplicar seu dinheiro com segurança e controle pessoal sobre as contas. Na cooperativa “eu sou dono”. “Tenho acesso e controle”. Essa é a diferença. Por isso estamos crescendo no mundo inteiro.


PR – O que é o Centro de Formação Profissional de Cooperativista inaugurado no mês de julho em Porto Alegre?  E a Escola Superior de Cooperativismo?
Perius –
O Centro de Formação Profissional Cooperativista é nosso divisor de águas em relação ao que nós queremos fazer na cooperativa. Se temos hoje um diagnóstico de que o cooperativismo precisa de qualificação de recursos humanos para sobreviver, e esse diagnóstico é no mundo inteiro idêntico, é porque somos uma sociedade de pessoas, e não de capitais. Para as outras empresas qualificação é também necessária, mas não para sobreviver. O maior interesse delas é o capital.

O diagnóstico é esse, falta qualificação profissional. O diferencial hoje, feito por universidades e instituições aponta sempre o seguinte: se uma cooperativa está bem, ela tem 99% de características de uma gestão bem administrada. O sucesso está nos recursos humanos. Diante disso criamos um estrutura para sediar o centro da qualificação de recursos humanos, tanto para associados, colaboradores, presidentes, conselheiros e dirigentes.

O Centro vai sediar a Escola Superior do Cooperativismo (Escoop),  credenciada neste mês pelo MInistério da Educação e Cultura. A Escoop vai preparar gente para gestão de terceiro grau, ou seja, é uma academia para preparar recursos humanos. Veja bem: eu desejaria não ser o primeiro, infelizmente o Rio Grande do Sul é o primeiro a implantar esse tipo de escola superior.

PR – E os projetos para a juventude cooperativista?
Perius
– Nós estamos realizando um projeto Cultural chamado “O Rio Grande Canta o Cooperativismo”, para trazer jovens, famílias e mulheres para dentro da cooperativa. Sem jovens nós envelhecemos e morre a instituição. Mas, o jovem vindo para o cooperativismo o sistema evolui. Permanecer no meio rural, na lavoura, só é possível por duas circunstâncias: ele gostar da cooperativa e achar isso uma idéia boa. Se não o jovem rejeita. E é para isso que temos de cantar o cooperativismo, não lamuriá-lo. Mostrar o lado bom. Eu ministrando aulas atingi 5 mil alunos, em 30 anos. Esse projeto, em 3 anos, já atingiu 50 mil pessoas. São aulas cantadas, musicadas, trazendo o jovem e a família também.

Mas de outro lado, para que o jovem permaneça e tenha futuro nas cooperativas, só tem uma condição: que nós trabalhemos a agroindústria fortemente. Há um problema geral de envelhecimento de cooperativas que só trabalham com comodities de grãos, porque o produtor que cultiva o grão expulsa o seu jovem da própria lavoura. Com uma propriedade de 50 hectares, ele pensa que não precisa segurar seus filhos na lavoura. Quer que seus filhos busquem outras atividades, pois a maquina substitui o jovem.

Mas, vamos abrir um parênteses e pensar na região gaúcha do Vale do Taquari, com mais alta densidade de sócios de cooperativas, 40%. Ali estamos num nível europeu. Essa cooperativa está ficando jovem porque tem agroindústria consolidada de leite, frango e suinocultura. E, esses três produtos são de produção interna, que passam pelo sistema de cooperativa, que só em mão de obra absorve 500 empregos em cada uma dessas indústrias. Neste meio o jovem fica. Assim, quanto mais a cooperativa incentivar a produção leiteira, mais o jovem fica. A agroindústria fixa porque gera mais renda, mão-de-obra e agrega tecnologia e investimento à propriedade rural dos associados das cooperativas.

Temos sessenta mil produtores de leite no Estado. Dez mil ainda são classificados como “tiradores” de leite. No entanto, temos mão de obra ativa de 250 mil pessoas retidas no campo, graças a produção leiteira, que não estão enchendo as cidades. Então a atividade ajuda a segurar a mão-de-obra no campo. O cooperativismo é o remédio certo contra o êxodo rural. Da exclusão social do pequeno e médio produtor para as grandes cidades. Como o cooperativismo nós seguramos e viabilizamos a permanência das pessoas no meio rural.


PR – E as cooperativas de eletrificação rural?
Perius – Foi um grande programa que se iniciou pois o Brasil precisava descobrir uma forma de gerar energia para além dos rincões. Então, as cooperativas entraram em ação e proporcionaram o desenvolvimento de lugares tazendo benefícios sociais. Mas ainda assim, por cada quilômetro, temos quatro consumidores, sendo um custo alto. Mesmo assim, essas cooperativas são as que mais investem em pequenas hidrelétricas. Mas o que interesssa para nós é prestar um serviço. É um grande projeto de muito investimento, uma energia renovável que respeita o meio ambiente.

PR – E o Programa de Capitalização das Cooperativas Brasileiras, o ProcapAgro. As cooperativas estão tendo acesso aos recursos desse programa?
Perius – O ProcapAgro é um parto que vamos enfrentar de hoje em diante. Até hoje, para ajudar as cooperativas do Rio Grande do Sul , evidentemente, que os bancos que trabalham com o repasse de valores, exigem garantias. Até porque todos sabem que quem precisa desse recurso são as cooperativas endividadas. E sabe porque? Porque a cooperativas, na verdade, são o verdadeiro banco do produtor nos 365 dias do ano. O produtor precisa de qualquer coisa, vai na cooperativa e debita na conta. Isso gera o seguinte: se as safras são frustradas, a conta não fecha.

No ProcapAgro, o problema é o acesso ao dinheiro. Não adianta lançar uma imagem de auxílio, ajuda e esperança, sem que as cooperativas tenham acesso. Outro programa é o Giro, de 700 milhões. Não chegou nenhum centavo às cooperativas do RS. Ainda assim, hoje, estamos estudando um fundo garantidor a ser bancado pela União nacional; mas faltam garantias. Então tem que se superar isso. É o fundamental. Os associados até estão dispostos a capitalizar, mas falta o acesso. 


PR – O que está sendo feito em relação à inclusão digital rural?
Perius – Entregamos, no mês de julho, em Anta Gorda, diplomas de curso de inclusão digital a uma turma. Acreditamos ser fundamental o acesso ao homem do campo. Acontece muita dificuldade aos produtores diante da tecnologia, um exemplo é o sistema Sicredi, que a máquina parece assustá-los e eles sempre dependem de ajuda do gerente e outros. Isso nós percebemos também, no momento do voto, quando há grande abstenção por falta de instrução. Se perde a vontade popular em praticamente 25%. Existem cooperativas que, individualmente, já ensinaram mais de 500 pessoas, com recurso próprio, no Programa de Inclusão Digital.


PR – E a participação da mulheres nas cooperativas?
Perius –
As mulheres rurais foram historicamente apartadas do processo cooperativo. O grande culpado é o estatuto da mulher casada, que dizia que na família tem uma cabeça de casal, isso até 1988. A lei mudou em 199. Agora estamos fazendo uma verdadeira revolução sobre jovens e mulheres. Há uma exigência legal da presença da mulher, em ser associada para que também tenha direitos e garantias de aposentação. Hoje ela tem que ter “vez e voz”.

Fonte: Página Rural








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