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Entrevistas

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Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009 - 16h45m

João Salvador Souza Jardim

Agropecuarista, político e dirigente rural

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João Salvador Souza Jardim

Foto: Via Informação / Página Rural



Parte da história da lavoura de arroz do Rio Grande do Sul está contida no livro “Quexé: mito ou realidade”, de autoria do agropecuarista João Salvador Souza Jardim. A obra mostra a intensa relação da família Jardim com o desenvolvimento da orizicultura gaúcha. O casal Nestor, o "Quexé", e Branca tiveram os filhos Carlos, Paulo, Nestor Filho, João Salvador e Carmem Maria.

Em entrevista exclusiva ao site Página Rural, realizada em agosto de 2009, João Salvador fala da capacidade empreeendora de seu pai na atividade rural, especialmente no plantio de arroz irrigado. Ele lembra fatos marcantes e ressalta os benefícios econômicos que a atividade orizícola trouxe para a sociedade gaúcha e brasileira.

Natural do município de Guaíba e formado em Direito, João Salvador Souza Jardim presidiu a Companhia Rio Grandense de Laticínios (Corlac) entre 1978 e 1980, foi prefeito de Guaíba entre 1969 e 1972 e conselheiro do Instituto Rio-Grandende do Arroz (Irga) durante 12 anos. Em sua gama de serviços prestados ao Estado do Rio Grande do Sul, foi secretário de Estado da Indústria e Comércio, de 1980 a 1982 e da Agricultura de 1982 a 1986. Foi diretor-presidente da Guaibarroz S.A. Também foi vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e do Sindicato da Indústria do Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz).

Página RuralA participação da família Jardim na orizicultura gaúcha está registrada no livro intitulado “Quexé: mito ou realidade”, de sua autoria. Traduza brevemente a trajetória dessa relação entre o arroz e a família Jardim.
João Salvador Souza Jardim  – O livro, sobre a vida dos meus pais, especialmente do meu pai, o "Quexé" se deve à necessidade que eu sentia em não deixar que o tempo apagasse a memória dele. Então, quando você faz um livro, você marca fatos, história e, como ele foi um homem de temperamento excepcional, generoso e inteligente, um empreendedor, eu disse: vamos fazer um livro para os netos, bisnetos, tataranetos e amigos lembrarem dele. Foi isso que se fez. Tanto que no final do livro eu faço uma apreciação às pessoas da família. No entanto, se alguma parte ficou muito familiar, a outra ficou muito pública. Então atingiu dois objetivos. O privado e o público.

Na verdade, esse livro conta a historia da família e faz menção, também, a alguma coisa que eu tenha feito. Meu pensamento é reeditar esse livro e fazer uma nova edição ampliada, porque muita coisa eu tenho pra dizer ainda.

PR  O que mais o senhor gostaria de destacar em relação ao arroz que seu o livro aborda?
JJ – A lavoura, a abrangência dela aqui no Estado, e os reflexos dela na economia do próprio país, uma vez que, o Rio Grande do Sul produz mais da metade do arroz do Brasil, cerca de 60% do arroz que o Brasil produz.

A lavoura de arroz tem um envolvimento humano e econômico enorme, porque ela é bastante complexa, exige muita mobilização de mão-de-obra. E no passado, era uma coisa incrível: era assim, meio homem por quadra quadrada. Então, imagina sociologicamente o que isso representava. Só para ter uma idéia, na colheita, os “empreiteiros” de arroz colocavam a mão em tudo, porque não havia mecanização. Eu, pessoalmente, trabalhei com cerca de mil homens. Então esse é um assunto que não está bastante esgotado no livro: a questão dos empreendimentos individualizados (comerciantes, homens de pequenas posses), da confiança, da comunicação para colheita e das estruturas nas colheitas.

PR – A plantação inicial no Rio Grande do Sul era no litoral? Como está hoje?
JJ –
Era em toda região do litoral e da região da depressão central. Hoje está mecanizada. Na década de 50 vieram as primeiras colheitadeiras modernas, norte-americanas. Era um trator e uma colheitadeira a reboque, movida pelo eixo de força do trator, que cortava cerca de 150 sacos por dia. Hoje, são mais de 2.000 sacos. O trabalho feito por 50 homens é feito com um homem na máquina mais uns quatro auxiliando. Hoje tudo é a granel, ninguém toca no arroz. Antigamente não, tudo era manual.

Quando se preparava pra chover, tínhamos que tapar tudo. Na lavoura, se chegava a trabalhar com água nas canelas das 8 horas da manhã até 9 horas da noite. Tanto, que tenho a idéia de fazermos um monumento ao trabalhador da lavoura de arroz. O arroz, que é uma das bases da economia do Estado do Rio Grande do Sul, não tem nada que referencie a memória daquele trabalhador. Eu lancei no Irga essa idéia, está em gestação, nós vamos fazer o monumento ao trabalhador rural. É a esse trabalhador que devemos a economia da lavoura gaúcha. E, a minha idéia é a seguinte: é um homem com uma pá nas costas, uma garrafinha de café na direita, calça arremangada, cachorrinho na frente pegando uma taipa.

PR – Quantos sacos de arroz um homem colhia em média naquela época?
JJ – Trabalhava em torno de uma quadra e meia, duas quadras. Três a quatro hectares por ano, ele cortava por safra. Ele tirava um salário mínimo e meio, mais ou menos, por época. Davam uns 60, 70 dias de colheita. Hoje nós colhemos em 20 dias. Então era um trabalho muito penoso. E lidando com bois, animais, os quais carregavam o arroz.

PR – Quais foram  as principais dificuldades da lavoura de arroz nos tempos passados?
JJ –
A maior dificuldade nossa era a secagem e a comercialização. O Brasil importava, até o início da 2ª Guerra Mundial, todo o arroz que consumia. O arroz vinha da Itália e da Espanha. Com a 2ª Guerra Mundial, as atuações da marinha alemã nos obrigavam a procurar soluções aqui. Então, técnicos brasileiros foram aos Estados Unidos, e de lá trouxeram sementes e variedades americanas, grãos curtos e grãos médios. E aí começou a se desenvolver a lavoura por força desse bloqueio ultramarino, em 1941.

O Instituto Rio-Grandensse do Arroz, o Irga, foi fundado em 1927, mas era muito incipiente. Mas voltando a pergunta, o que mais dificultava era a secagem, conservação e a comercialização. Eram secadores a céu aberto. Grandes bandejas com telhado móvel. Foi assim, até que uma empresa aqui no Sul, a Ferro Arte, começou a fabricar secadores com lenha. Aí melhorou. Mas igual, o lavoureiro não tinha pra quem vender, não tinha acesso ao mercado. Então, surgiram os engenhos, a industrialização. Um tempo importante, em que os engenhos compravam e financiavam o produtor. Uns dizem que ele abusava, explorava. Outros dizem que não, pelo contrário. Eu faço parte da corrente positiva, ninguém explorava ninguém, pois todos eram parte de um mesmo mecanismo que se apoiava.

PR – E a prática da irrigação. O que senhor nos conta sobre a importância dessa tecnologia no avanço da orizicultura pela família Jardim?
JJ – A ciência que levou meu pai ao sucesso com os irmãos, que todos enriqueceram com a lavoura de arroz, foi o conhecimento do cotidiano na lavoura. Eles compreenderam que eles tinham que plantar com a água que se tinha, e não com a que podia ter. O meu pai então, comprou uma equipe de máquinas de terraplanajem, e começou a fazer açudes, arrendava propriedades para isso. Assim, com a garantia da água, tinha garantia da colheita. Saliento, que ele também, muito cedo trabalhou com a sistematização do solo, o nivelamento do solo, ter uma lâmina uniforme, irrigando com menos água e mais superfície. Então, o segredo desse homem era plantar com água abundante.

PR – Descreva sua passagem pela Secretaria da Agricultura do Estado.
JJ –
Eu vim da Indústria e do Comércio, fui secretário estadual desta pasta. Na minha vida pública, comecei na prefeitura de Guaíba/RS, exercendo o cargo de prefeito. Depois trabalhei na Farsul e, com o passar dos anos, presidi a Corlac. Depois fiquei de 1982 a 1986 na Secretaria da Agricultura. Se me perguntarem o que fiz, direi: tudo que um secretário pode fazer.

Na Secretaria de Agricultura foram tantas coisas: uma que me lembro é a questão da febre aftosa e da vacina oleosa, a mais eficiente. No mais, são coisas da parte de assistência ao produtor e lutas em defesa do setor. O meu lema era “irrigar e educar”. Fiz muita coisa com a Emater/RS nesse sentido. Sem contar os incentivos à pequena propriedade rural, que proporciona leite, renda diária para a família e que tem atividade de baixo custo. Se você chega em uma propriedade que produz leite, você tem uma série de outras coisas também. O leite é uma porta que se abre na economia da família. Por isso, eu sou um fã da pecuária leiteira.

PR – Com a sua experiência, o senhor poderia nos dar um panorama geral do arroz no Brasil?
JJ –
Eu estou um pouco afastado. Mas, conversando com outros produtores, diria que nós chegamos a um nível de excelência da lavoura no Rio Grande do Sul. Nós temos um índice de produtividade que supera o norte-americano. As 10 toneladas por hectare, sendo que nossa meta é quase uma raridade.

A lavoura de arroz, hoje, está muito mecanizada. Se trabalha com laser, avião intensivamente, secadores com troca de ar e diversas variedades, incluindo as extra-longo e fino, que foram introduzidas pelo meu pai no Brasil. Ele viu nos EUA, no Estado de Lousiana, e se impressionou com a variedade. E, em 1960 ele lançou o agulhinha. Foi muito difícil conquistar o mercado com esse arroz, porque achavam que essa variedade não dava volume na panela. Então, minha mãe fez uma receita e colamos no pacote. Em alguns anos, todo o arroz estava sendo vendido. 

Hoje com a tecnologia existente plantamos em vinte e poucos dias e colhemos em vinte e poucos dias. É uma coisa fantástica. E o produtor dispõe de assistência técnica excelente. O Irga está presente em todo Rio Grande do Sul, educando e auxiliando o arrozeiro, como, por exemplo, na uso da fertilização nitrogenada e dos herbicidas. Mas também nos tempos atuais há muita oferta de arroz e concorrência.

PR – E a questão da exportação, o arroz pode ser um produto realmente focado para o mercado de exportação?
JJ –
Pode. O arroz não chega a ser uma commodity, mas se aproxima. No ano passado foram 480 mil toneladas de arroz no Rio Grande do Sul. E, eu acho que isso é irreversível, e nós temos condições, mesmo com a falha do sistema cambial. Tem mercado para esse grão.

Fonte: Página Rural








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