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A presidente da Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS) e superintendente-geral da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural (Ascar), Águeda Marcéi Mezomo, natural de Benjamin Constant do Sul, no Rio Grande do Sul, desde criança vive o meio rural. No início da juventude foi professora do ensino fundamental na zona agrícola e mais tarde extensionista de bem-estar social.
Águeda é geógrafa pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), especialista em Gestão Ambiental pela Univille e mestre em Geografia, com ênfase em Análise Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Há 11 anos integra o quadro efetivo da Emater.
Com seu trabalho auxiliou no desenvolvimento de alternativas de produção e comercialização de produtos agropecuários e agroindustriais em diversos municípios, com o intuito de maior geração de renda para famílias rurais. Engajada na questão do meio ambiental, ela também participa ativamente dos projetos sociais da instituição.
Águeda Marcéi Mezomo é a primeira mulher gaúcha a integrar o quadro de entrevistados da Página Rural. Empossada no dia 10 de maio de 2010, durante entrevista exclusiva ao zootecnista e jornalista Luís Eduardo Bona, editor da Página Rural, a presidente conta fatos de sua caminhada e revela sua missão a frente da Emater gaúcha.
Página Rural – A senhora tem raízes no campo? Qual sua relação de vida com o meio rural?
Águeda Marcéi Mezomo – Eu nasci no interior, em Benjamin Constant do Sul, município essencialmente agrícola do norte do Estado, e fiquei morando lá até meus 14 anos. Tenho uma ligação muito profunda com o meio rural. Desde pequena eu acompanhava meu pai nas lides da agricultura. Ajudava ele a cuidar da pequena propriedade da família, colhia milho, feijão e tirava leite. Herdei dele esse gosto pela agricultura.
PR – Quando e como você ingressou na Emater gaúcha? E por que se interessou em trabalhar na área de Extensão Rural e Assistência Técnica?
Águeda – Por causa das minhas raízes. Foi um caminho natural. Até eu ingressar na Emater eu dava aulas, era professora em uma escola municipal rural, onde realizávamos várias atividades de conservação e de preservação do meio ambiente com alunos do ensino primário. Concomitante a isso fiz uma faculdade de geografia e aperfeiçoei meus conhecimentos direcionados às ciências agrárias porque no curso estuda-se bastante a estrutura e a dinâmica do espaço rural e também do meio ambiente. Especializei-me nessa área e comecei a aplicar esse conhecimento no ensino médio. Depois continuei dando aulas em uma escola particular, marista, e também na URI, que hoje é uma universidade. Em 1996 fiz o processo seletivo externo da Emater e em 1997 ingressei como extensionista de bem-estar social.
PR – Como foi sua trajetória dentro da Emater até ocupar a presidência?
Águeda – Iniciei meu trabalho no município de Lindolfo Collor, onde organizamos diversas feiras do produtor, trabalhamos com artesanato usando produtos do meio rural como palha de milho e assim oportunizando uma maior geração de renda para as famílias. Também realizávamos atividades com foco grande na olericultura porque é um município que não tem grandes áreas de terra então procurávamos alternativas economicamente viáveis. Depois fui para Novo Hamburgo, que possui uma grande área rural em Lomba Grande e onde atuamos com estufas e plantio orgânico. Lá iniciamos com duas feiras do produtor e quando saí já tínhamos 19. Como a área rural e urbana ficavam próximas, as feiras deram certo e possibilitaram bons rendimentos aos produtores. Os agricultores iniciaram com uma kombi e em dois anos estavam com um caminhão e as casas reformadas. Lá organizamos também a cadeia das agroindústrias, o que sobrava de excedente era transformado em shimias, geleias e conservas. Além das agroindústrias que processavam alimentos de origem vegetal, organizamos também o segmento das massas, produção de pães e cucas, muito oportuno já que o município é de origem alemã.
PR – A senhora participou ativamente da criação das Frentes Programáticas. Por que foram criadas? Como estão estruturadas e como funcionam?
Águeda – As Frentes Programáticas vieram com o objetivo de dar um norte e um enfoque técnico e social para a Instituição. São grandes programas prioritários que agruparam as 56 atividades realizadas pela assistência técnica e extensão rural, com esse viés de focar as questões técnica e social e os públicos que a Emater mais atende, a mulher, o jovem e a família.
PR – O que uma mulher no comando da Emater pode contribuir para a melhoria dos serviços prestados? O que considera que precisa ser melhorado?
Águeda – Não sei se a questão de gênero contribui, se faz diferença ser homem ou mulher. Acredito que no meu caso, o que pesa é a dedicação e a exclusividade que dedico ao trabalho. O que faz diferença é o tempo que dispenso a função, a presteza com que trato as questões de trabalho e a minha formação. Tenho magistério, sou formada em geografia, tenho pós graduação em turismo rural, gestão ambiental , desenvolvimento rural e mestrado na área ambiental . Penso que esse mix de formação, aliado à vontade e à persitência diária, é o que produz resultado.
PR – O estudo da questão ambiental é marcante na sua formação acadêmica. Sobre esse aspecto, quais os principais desafios do Rio Grande do Sul? De que forma a Emater auxilia os agricultores e o Estado a atingir uma condição adequada de sustentabilidade ambiental?
Águeda – A questão ambiental é tratada como um viés importante que visa o desenvolvimento rural. Nós não tratamos essa questão como algo separado das comunidades, mas sim através de práticas diárias, tanto de ordem técnica quanto social. Por exemplo, quando um extensionista da área econômica orienta o produtor sobre como plantar e colher para ter um melhor rendimento na lavoura, ele também cuida a questão de como proceder para evitar a formação de vossorocas e a perda de nutrientes do solo. Assim são aplicadas técnicas adequadas, como plantio correto em curvas de nível, regulagem de equipamentos e recomposição de nutrientes do solo. Muita atenção também é dispensada à preservação e manutenção da mata ciliar para evitar perdas no solo, com assoreamento, mas principalmente para que não haja desequilíbrio do meio ambiente com a grande ocorrência e proliferação do borrachudo – o nome correto é simulídeo, mas a gente chama borrachudo – que interfere diretamente na qualidade de vida das famílias rurais, causando redução no peso nos animais e na produção de leite.
Então as questões ambientais são incorporadas em todo e qualquer tipo de ação. No caso da área social nos ocupamos muito com o destino dos dejetos, porque ainda existem as chamadas patentes, que ocasionam uma contaminação superficial do solo e dos poços muito grande. Hoje se orienta para o destino adequado dos dejetos humanos, com a construção de banheiros com sumidouro, com fossas sépticas.
A pouca preocupação com essa questão vem de geração em geração, por isso trabalhamos forte para conscientizar e mudar essa cultura. Além dessa, outra questão bastante importante é o destino dos dejetos de aves e suínos, que são produzidos em grande quantidade. Orientamos os produtores para isso, levando em consideração a qualidade e o tipo de solo de cada região. Também trabalhamos a qualidade da água, tendo em vista que muitas comunidade ainda são abastecidas por poços escavados, então temos uma preocupação permanente com o controle e com a qualidade dessa água, através de análises químicas que se fazem constantemente, de acordo com o programa de desenvolvimento rural de cada comunidade.
PR – O futuro da juventude rural depende do apoio da Emater e da implementação de políticas públicas específicas. O que a Emater vem fazendo para apoiar esse público?
Águeda – Esse é um grande avanço que temos alcançado no meio rural. Trabalhamos para proporcionar políticas públicas específicas para o jovem rural, em decorrência da manutenção da agricultura, especialmente a familiar. Frente a isso a Emater lançou um programa específico para os jovens, o Rio Grande Jovem, que traz no seu eixo a promoção e o desenvolvimento de cursos profissionalizantes, em universidades, em escolas técnicas e em nossos centros de treinamento.
Hoje existem vários cursos de tecnólogo que capacitam o jovem para empreender, por exemplo na área de agroindústrias e, de forma mais abrangente, para o agronegócio. A Emater está inserida nesse contexto para que o jovem do meio rural consiga aliar a questão profissionalizante à questão econômica. Os jovens não admitem mais pedir dinheiro toda hora para os pais, eles consideram essa situação humilhante, então precisam de uma renda própria.
Outro aspecto que trabalhamos é a questão cultural para que o jovem tenha diversão no meio rural, para que ele não sinta e não queira sair do lugar onde vive por falta de opção de lazer e de convívio social. Aqui entram os jogos rurais, uma iniciativa que vem de muitos anos e que se mantém até hoje pela qualidade com que é realizada e pela grande aceitação das comunidades.
PR – A mulher desempenha um papel fundamental na realização de atividades econômicas dentro das propriedades rurais gaúchas. Que projetos a Emater desenvolve para as mulheres incrementarem a renda de suas famílias?
Águeda – A mulher sempre foi a grande dinamizadora das atividades no meio rural. Ela sempre foi e continua sendo responsável pela renda que provém da atividade leiteira. Inicialmente no desenvolvimento da cadeia, o leite era retirado manualmente pela mulher. Hoje existem equipamentos, mas é a mulher que faz o manejo, garantindo uma renda importante para a família. Também temos a questão das agroindústrias e do próprio trabalho diário na lavoura. Na propriedade a mulher desempenha suas atividades, juntamente com o homem, não há um diferencial pelo fato de ser mulher. Ela trabalha tanto nas atividades próprias da agricultura, quanto nas tarefas da casa, chegando ao fim do dia com uma dupla, não raro tripla jornada de trabalho. As mulheres têm hoje uma inserção bastante grande no planejamento das atividades e na diversificação da renda da família rural. Esse é o grande aporte que as mulheres trazem.
PR – Quais os projetos da Emater para planejamento familiar, qualidade de vida e saúde? Quais são as principais demandas nessas áreas?
Águeda – As demandas em relação ao planejamento familiar são constantes, bem como em relação à saúde. Trabalhamos com plantas medicinais, orientando as famílias no bom uso dos fitoterápicos, inclusive através do conhecimento do relógio do corpo humano, um instrumento usado para que a pessoa aprenda sobre a localização e o funcionamento dos órgãos do corpo, suas necessidades e os benefícios para a saúde, obtidos pelo uso correto das ervas.
Trabalhamos sempre focados na prevenção, oportunizando às mulheres a realização de exames, como preventivo de câncer de mama e de câncer de colo de útero. São ações que vêm crescendo através de iniciativas conjuntas com o governo do Estado, como é o caso do Rua da Cidadania, através do trabalho em parceria com os conselhos municipais de saúde e também através do trabalho das nossas extensionistas, que são capacitadas para levar informação em saúde às comunidades rurais.
PR – Como a Emater vem auxiliando as famílias rurais na educação de seus filhos, no sentido de reduzir o êxodo rural e aprimorar a qualidade de vida das futuras gerações que vivem no campo?
Águeda – Através das 12 Frentes Programáticas, a Emater vem trabalhando de forma transversal, aliando as questões econômica, social e ambiental e oportunizando geração de renda para os jovens da agricultura familiar, cursos de qualificação profissional nos centros de treinamento e, o mais importante, valorizando a atividade da família rural e mostrando que ser agricultor é uma profissão, que é no campo que a vida acontece, que é no meio rural que estão os empregos e a renda.
A Emater também tem uma inserção muito grande dentro da escola, reforçando o papel da educação. Atuamos junto aos clubes de mães e com diversas outras parcerias. Atualmente trabalhamos forte a questão da alimentação escolar, vista como uma grande possibilidade de renda paras as famílias rurais e como uma forma eficaz de organização da cadeia produtiva, principalmente no caso das frutas e hortaliças, tendo em vista que por lei, 30% dos recursos destinados à merenda escolar devem ser utilizados na aquisição de produtos da agricultura familiar. É venda direta do produtor para a escola, ou seja, para o consumidor, evitando a figura do atravessador. É uma importante iniciativa que possibilita mais renda para as famílias e traz uma nova dinâmica para as comunidades rurais.
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