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Sexta-feira, 25 de junho de 2010 - 08h13m

Agronegócio > Cooperativismo

PR: concentração desafia modelo de atuação das cooperativas



Curitiba/PR

O clima não era de festa na assembleia extraordinária em que associados da Corol, cooperativa de Rolândia, no Paraná, aprovaram a continuidade do processo que poderá resultar na união com a vizinha Cocamar, de Maringá.

"Coma dessa comida ou saia pela janela", falou o produtor de laranja, café e cana, Otacílio Campiolo, reproduzindo o que diz ser um ditado italiano. "A Corol, por si só, não sobrevive", opinou ele em seguida, pouco antes do começo da reunião, realizada na sede da cooperativa no dia da estreia da Copa do Mundo.

O avanço dos estudos para o projeto "3 em 1" - que inclui a Cofercatu, de Porecatu, e levará a mais assembleias nos próximos meses -, foi aprovado por unanimidade, mas nem todos estão felizes com a ideia. "Não vejo vantagem, mas estou de acordo. Vamos saber se isso é bom com o tempo", resignou-se Elza Martini, professora aposentada e produtora de cana e soja.

"Agora, é torcer para dar certo", disse Bento da Silva, que planta soja e trigo. "Será o melhor para a cooperativa", afirmou Elizeu Santana, que também lida com grãos. O edital falava da possibilidade de incorporação ou participação em nova sociedade, mas o termo fusão era o único admitido pelos que foram à reunião. O sentimento desses produtores ligados à Corol - e de outros da Cocamar que se mostraram inseguros com a união -, retrata um pouco das relações no cooperativismo.

O que os agricultores mais querem é agregar valor aos produtos que cultivam e ter bons serviços no fornecimento de insumos e armazenagem. Mas o movimento de modernização das cooperativas agropecuárias do Paraná, que tiveram receitas de R$ 21,1 bilhões em 2009, menos que em 2008 mas o dobro de dez anos atrás, está ganhando um novo capítulo, que deve resultar na consolidação do segmento e na redução do número de organizações.

"Trata-se da intensificação do que elas começaram lá atrás", diz Gilmar Lourenço, coordenador do curso de Economia da FAE Centro Universitário, de Curitiba, ao citar que as cooperativas já foram forçadas a passar por modernização, profissionalização, incorporações e enxugamento de custos nas duas últimas décadas - a venda da Batavo para a Parmalat foi um dos casos mais conhecidos.

Para ele, o movimento de fusões e aquisições é inevitável. "Daqui a dez anos não vão sobrar mais que cinco cooperativas no Paraná", prevê o professor, que cita a necessidade de ganhar escala e reduzir gastos e acredita que, em nichos específicos podem sobreviver algumas menores.

No Paraná, a atenção sobre as cooperativas é grande porque elas são vitais para a economia do Estado, que sempre disputa a liderança da produção nacional de grãos. Elas recebem 56% dos grãos produzidos, volume que tem crescido ao longo dos anos - eram 40% em 1990. Há dez anos, a produção ligada a elas era de 10 milhões de toneladas de grãos e, em 2009, foi de 16,6 milhões de toneladas. No período, elas elevaram as exportações e a presença no varejo, com marcas próprias.

A tendência, segundo especialistas ouvidos pelo Valor, é de que as multinacionais da área não entrem no processo de consolidação, porque as cooperativas costumam ter menos conflitos com produtores.

"Esse movimento de fusão e aquisição deve ser intensificado nas cooperativas pequenas por necessidade de economia de escala e melhor gestão e, nas de porte médio, para resolver problemas de endividamento", diz Judas Tadeu Mendes, Ph.D em economia e presidente da Estação Business School.

Mendes fez um diagnóstico das cooperativas em meados dos anos 90. "Naquela época eu já dizia aos presidentes que vendendo grãos ninguém ia sobreviver". Segundo ele, deve acontecer aqui o que ocorreu nos EUA. "Lá eles tiveram mais de 10 mil cooperativas e foram desaparecendo 250 por ano, ficando quatro grandes regionais." Agora, é preciso avançar em industrialização para encarar as grandes multinacionais.

Os próprios executivos de cooperativas concordam que mais mudanças vão acontecer. "É um caminho natural. Junções e incorporações estão ocorrendo no mundo inteiro e cooperativas precisam ser tão boas como qualquer empresa", defende o presidente da Cocamar, Luiz Lourenço.

"Não sei em qual prazo, mas que vai diminuir o número de cooperativas, isso vai." Para Lourenço, não se trata de opção apenas para as endividadas, mas para as que precisam dar mais apoio ao produtor.

"Até agora foi pela dor, por problemas de gestão, por investimento mal feito e especulação no mercado financeiro", diz. "Mas o futuro só interessa aos fortes. Os fracos não sobreviverão". A Cocamar acredita que é possível explorar melhor a área atendida pela Corol, que recebe 20% da soja da região - enquanto a Cocamar recebe 70% em sua área.

Para o presidente da Corol, Eliseu de Paula, a fusão é um bom caminho "para que os fardos fiquem mais leves". "É o modelo que o cooperativismo tem de seguir", diz ele, que fala em criar uma nova cooperativa com a união das três e evita comparações com outras fusões de empresas.

"Somos uma sociedade de pessoas, não de capital." Questionado se erros levaram a Corol a acumular dívidas de R$ 360 milhões, o executivo cita fatores externos, como crise internacional, falta de capital de giro e problemas climáticos, além de atraso na duplicação da usina de álcool, em 2009, por falta de equipamento. A usina está à venda.

A Cocamar tem 6,1 mil cooperados e fatura R$ 1,4 bilhão, enquanto a Corol conta com 7,5 mil cooperados e receita de R$ 600 milhões - juntas, portanto, elas somarão R$ 2 bilhões em faturamento, meta que havia sido traçada pela Cocamar para 2015, e terão uma área de 500 mil hectares cultivados com soja.

A esse valor devem ser acrescentados R$ 200 milhões da Cofercatu (que negociou recentemente sua usina com o grupo Alto Alegre). A meta é que, juntas, as três consigam receita de R$ 3 bilhões em três anos. Se, na continuidade do processo, o que acontecer for mesmo uma fusão, será a primeira do gênero entre cooperativas paranaenses.

"Interação", uma alternativa a eventuais fusões e aquisições

O presidente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), João Paulo Koslovski, aposta mais na interação entre as associadas do que em fusões ou aquisições. Ele conta que tem trabalhado nisso nos últimos cinco anos. "Todo ano há dois fóruns de presidentes e sempre discutimos essa necessidade", realça ele.

Segundo Koslovski, há bons exemplos nesse sentido, como o uso de cooperativas médicas e de transporte pelo sistema e também a utilização de estrutura portuária e industrial como meio de agregar valor e complementar a atuação umas das outras. Ele também tem defendido que cooperativas que apresentem projetos conjuntos tenham maior volume de financiamentos via Prodecoop, para industrialização ou infraestrutura.

"Se puder manter a individualidade, é bom", defende. "Quando uma ou outra cooperativa entrar em dificuldade, queremos ter condições de achar uma solução em cooperação". O executivo lembra que 2009 foi um ano difícil para o agronegócio, devido a problemas climáticos e de queda nos preços dos produtos. "A tendência pode ser diminuir o número de cooperativas, mas vai depender do que queremos na prática. O que queremos é a aglutinação econômica".

Ele argumenta que não é possível comparar a realidade local com o que ocorreu nos Estados Unidos, que tem economia diferente, e acrescenta que aqui há questões políticas envolvidas. "As prefeituras não querem perder uma cooperativa", cita. "Não damos foco a grandes fusões. A dificuldade de uma ou outra não indica que o sistema está com problemas", afirma, ao citar que nove cooperativas agropecuárias do Paraná têm receita anual superior a R$ 1 bilhão.

Koslovski está otimista em relação a 2010 e os próximos anos. "As exportações cresceram 28% no primeiro trimestre", informou. O aumento da industrialização está no foco da Ocepar. "Queremos atingir, até 2015, 50% do processo agroindustrial do Paraná. Hoje estamos com 35%", conclui.

Marli Lima


Em busca de ganhos de escala e eficiência
São Paulo - A consolidação no setor cooperativista é uma forma de as organizações ganharem eficiência e continuarem competitivas para se contrapor ao movimento de concentração das corporações. Essa é a avaliação de Fábio Chaddad, professor de economia agrícola na Universidade de Missouri, nos EUA, e professor visitante do Insper.

"Da mesma forma que para Brasil Foods, Marfrig e JBS, faz sentido para as cooperativas se consolidarem para ganhar eficiência, economia de escala e continuarem competitivas", diz Chaddad. A BRF é resultado da união de Perdigão e Sadia, e JBS e Marfrig fizeram várias aquisições no Brasil e no exterior recentemente.

Segundo ele, o segmento de cooperativas ainda não viveu um forte movimento de consolidação porque há resistência política. "Mas nos próximos cinco anos vamos ver muito mais consolidação porque faz sentido econômico e para [as cooperativas] se contraporem à consolidação das S.As".

Em outros países, como EUA e Nova Zelândia, a consolidação de cooperativas já ocorreu há anos, sobretudo em lácteos. Os números do setor nesses países mostram que o movimento foi bem-sucedido. Nos EUA, lembra Chaddad, a Dairy Farmers of America (DFA) - resultado da fusão de quatro cooperativas regionais em 1998 - , fatura US$ 10 bilhões por ano e responde por um terço do leite produzido no país.

Há ainda a neo-zelandesa Fonterra, resultado da união, em 2001, de três centrais cooperativas e que é hoje a maior exportadora de lácteos do mundo, com mais de um terço do mercado internacional. A central cooperativa fatura US$ 10 bilhões por ano e tem 95% do mercado da Nova Zelândia. "Até a década de 50, quando começou a granelização de leite na Nova Zelândia, havia 300 cooperativas. A partir disso começou a consolidação. Nos anos 90, caíram para 12 cooperativas e hoje são apenas três", lembra Chaddad. Das três, uma é a Fonterra e as outras duas atuam em nichos de mercado.

"O mercado impõe que as cooperativas cresçam", diz. Mas também há espaço para as pequenas, que podem ocupar nichos, onde a escala não é relevante. No Brasil, a mineira Itambé costura uma fusão com outras quatro centrais - Centroleite, Confepar, Cemil e Minas Leite - baseando-se justamente nos modelos da Fonterra e da DFA. Chaddad assessorou as cooperativas no projeto.

O especialista não considera o recente movimento de consolidação no Brasil como reflexo de problema no modelo de organização cooperativista. De fato, Chaddad avalia que as cooperativas "têm governança melhor do que as S.As". E lembra os exemplos passados de escândalos financeiros envolvendo grandes multinacionais, como a americana Enron e a italiana Parmalat.

"Não se vê episódios dessas proporções nas cooperativas", afirma. Uma das razões, avalia, é que as cooperativas tendem ser muitos mais conservadoras que as corporações. "Os associados conhecem muito mais de cooperativas do que os acionistas de S.A", compara.

Além de precisarem ganhar escala e eficiência, as cooperativas têm recorrido às fusões porque foram afetadas pelas adversidades decorrentes da crise financeira, no fim de 2008. A volatilidade nas commodities, diz Chaddad, ampliou a necessidade de capital das organizações para manter as operações de hedge nas bolsas de grãos, o que pode ter afetado a capacidade financeira de parte delas. A alavancagem e a excessiva diversificação em algumas cooperativas também pode ter levado às dificuldades financeiras, admite, ponderando que, "em geral, as cooperativas são mais conservadoras".

Alda do Amaral Rocha


Fonte: Valor Econômico














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