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Sábado, 26 de junho de 2010 - 22h14m

Agronegócio > Silvicultura

PR: Teca quer ser a vedete das florestas



Curitiba/PR

A teca, árvore de origem asiática, vive momento de expansão na produção florestal brasileira. Segundo números recentes da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), a área de teca em escala comercial no País cresceu 10,9% de 2008 para 2009 e hoje ultrapassa os 65 mil hectares.

De acordo com a Abraf, a espécie, cultivada no Sudeste da Ásia desde o século XVIII, era destinada principalmente à construção naval. Hoje, tem vários outros usos: é utilizada na construção civil (para portas, janelas, lambris, painéis, forros), para confecção de assoalhos, decks, móveis, lâminas decorativas.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o cultivo da teca no Brasil na forma comercial começou a ser experimentado na virada da década de 1960 para a de 70. A região de Cáceres, no Mato Grosso, recebeu os primeiros cultivos comerciais brasileiros. O apelo da espécie sempre esteve na resistência e na estética. A teca tem óleo-resinas na composição da madeira que fazem com que seja resistente à umidade e a algumas pragas. Já a qualidade da madeira é muitas vezes comparada ao mogno.

Curiosamente, essas duas características principais são diferentes no produto brasileiro em relação ao asiático tradicional, em razão dos ciclos de cultivo.

No Sudeste asiático, a árvore tinha um ciclo que chamamos de ciclo longo, era plantada e colhida em torno de 80 anos. Uma árvore de 80 anos tem um miolo bem representativo, que é a parte mais dura e nobre da madeira, e a parte mais externa é menor. Aqui no Brasil, as condições econômicas levaram à aposta num ciclo curto, que representa a árvore sendo cortada em torno de 20 anos. A madeira produzida aqui tem a parte externa muito representativa e a parte interna, o cerne, uma porcentagem bem pequena. A nossa madeira, então, é bem diferente, no entanto, as comparações foram feitas com aquela, explica Guilherme Schnell e Schuhli, pesquisador da área de recursos genéticos e melhoramentos da Embrapa Florestas, de Colombo (Região Metropolitana de Curitiba).

Segundo o pesquisador, o destino da produção florestal brasileira em teca vai, na grande maioria, para a construção do chamado painel-teca, utilizado principalmente em móveis e decoração.

Apesar de alguns Estados, como o Paraná, terem experiências em plantio de teca, o grande centro produtor brasileiro é o Mato Grosso. De acordo com a Embrapa, mais de 50 mil dos estimados 65 mil hectares de teca plantada no Brasil estão naquele Estado. Schuhli aponta que essa concentração acontece porque o tipo de teca predominante na produção do País é adaptado a climas semelhantes ao do Sudesde asiático.

No Sudeste da Ásia, existem monções, com época de chuvas constantes e um período seco. Nesse período seco, a teca perde todas as folhas, o que é importante para o desenvolvimento da árvore, diz o pesquisador. Porém, isso não representa que a teca não tenha potencial para ser cultivada em outras regiões.

A empresa paranaense Berneck Painéis e Serrados planta teca e tem um polo industrial no Mato Grosso. Trabalhamos com teca desde 1990, quando foi realizado o primeiro plantio, e hoje já estamos trabalhando com a madeira. A produção é destinada a uma gama de produtos, como madeira serrada seca em estufa, decks e painéis, relata Fernando Gnoatto, gerente da unidade de negócios serrados da Berneck.

Ele compara os custos e o lucro da teca em relação a outras espécies florestais. A floresta de teca tem um alto custo por suas manutenções serem anuais até o corte final, o que gera mais mão de obra se comparada com florestas de pinus e eucaliptos. Por outro lado, a madeira é mais cara em sua cotação internacional, diz o gerente.

Gnoatto aponta os mercados europeu e asiático como os principais compradores da produção em teca da Berneck. Acreditamos que mais produtores e empresas vão se interessar por teca no Brasil, é um bom negocio, conclui.

Espécie tem potencial a ser explorado
Guilherme Schuhli, da Embrapa Florestas, destaca que existe a possibilidade de produção de teca em mais regiões no Brasil, mas isso depende de pesquisas.

Dentro dessa espécie, temos uma variedade enorme de subtipos que se aclimataram a regiões diferentes daquelas com clima parecido com o do Sudeste da Ásia. O que nós recebemos foi uma amostra disso apenas. Houve um teste em 1995, feito por uma instituição responsável por pesquisa florestal no Espírito Santo, em que foram comparados vários tipos de procedências de teca e foi escolhido o melhor tipo para o Brasil. Mas essa escolha foi feita com uma amostra muito pequena, relata o pesquisador. Testes podem fazer com que a gente descubra uma área de distribuição um pouco maior do que pensamos que possa acontecer com a teca no Brasil.

Schuhli aponta que, conforme a variedade de tipos de teca e a análise de ciclos, é possível cogitar vários usos da árvore na produção florestal brasileira, como já acontece com o eucalipto, por exemplo, cujos ciclos variam conforme o objetivo.

O eucalipto tem a destinação para celulose, para a produção de papel, para produção de lenha para fazer carvão, para móveis. Esse tipo de perfil ainda não temos para a teca, mas podemos pensar em trabalhar destinações diferentes. Árvores para produzir painel, para laminados, para madeira para fins navais, explica.

O pesquisador acredita em outras possibilidades para a exploração da teca no Brasil, entre elas plantios para subsidiar planos de investimento e o restabelecimento de florestas nativas. Ela não é uma espécie nativa aqui, mas ela abre caminho para que a floresta nativa se restabeleça embaixo dela. Muitas das árvores nativas de uma floresta saudável crescem sob uma competição de luzes, estão adaptadas à sombra. Se pegarem sol direto, isso é prejudicial para elas. A teca cresce muito rápido e oferece essa sombra. Então, pode ser uma alternativa para restabelecer florestas, detalha Schuhli.

Imagine para um pequeno produtor: ele pode plantar teca nos limites da área dele para restabelecer a área de floresta nativa e ainda pode extrair a teca quando essa área estiver se estruturando. Se hoje estamos exigindo do produtor essa disponibilidade de reserva legal, a teca pode ser uma alternativa. Não podemos ser levianos, isso precisaria de um trabalho para ver quanto a área suporta de teca, quanto tempo, se é viável para o pequeno agricultor, se ele encontra mercado depois, afirma o pesquisador. Ele aponta que a interação do plantio de teca com lavoura e pecuária interessa muito à Embrapa e na Ásia já foi aplicada com sucesso.

Crescimento da produção traz desafios
Para a produção de teca continuar crescendo no Brasil, algumas questões terão que ser resolvidas. Uma delas é a garantia de fornecimento de mudas e sementes de qualidade para o cultivo.

Quando a gente pensa em plantio florestal, o plantio com sementes traz um resultado limitado. Cada semente que eu planto, é uma combinação genética diferente. Então, isso significa que uma árvore atinge determinada altura, e logo do lado outra vai atingir um tamanho um pouco menor. Nisso, a que chegou antes, mais alta, limita o fornecimento de luz para a que ficou mais baixa. E essa acaba definhando com o tempo. A que cresceu mais acaba tomando conta do espaço. Seria ideal um cenário em que plantássemos árvores que todas crescessem ao mesmo tempo. Isso é que a gente consegue com o plantio clonal, explica Guilherme Schuhli, da Embrapa Florestas.

Ele facilita na coleta da madeira, no acompanhamento, na adubação, é uma facilidade muito grande. Na teca, nós já começamos a ter disponibilidade de mudas no Brasil. São caras ainda, comparando com o plantio de sementes, mas a vantagem é essa, nós temos um plantio mais homogêneo, diz o pesquisador. Ele alerta, entretanto, que essa opção também tem desvantagens.

Essas árvores que são clones são mais suscetíveis à variação ambiental. Se passou dos limites desse clone, você perde o plantio inteiro ou tem deficit no plantio inteiro. Quem planta por semente, pode ser que encontre árvores resistentes e não perca todo o seu material. No Mato Grosso, nós já temos três empresas que disponibilizam essas mudas clonais. E todas têm interesse em que a Embrapa esteja fornecendo material genético diferenciado para que continuem programas de cruzamento e melhoramento genético, afirma Schuhli.

O pesquisador cita outros problemas da cadeia produtiva da teca no Brasil: a logística; a destinação de árvores de desbastes, que ainda é insatisfatória, principalmente para os pequenos produtores; falta de mão de obra especializada; a forma como é trabalhada a qualidade da madeira. A madeira que se tem demanda é uma, e muitas vezes a que o Brasil tem para fornecer é outra. Ainda tem mercado para esse tipo de madeira que a gente chama de ciclo curto. É um mercado que imagino que não vai ser saturado rápido. Mas devem ser estudadas outras maneiras de vender além do painel-teca, argumenta.

Fernando Gnoatto, da Berneck, cita outro entrave. Um dos maiores problemas é a falta de informação dos produtores com relação aos mercados consumidores. O preço de um metro cúbico de tora de teca na Ásia pode chegar a 4 mil euros, dependendo da classificação. É uma madeira de cotação cara, e, sendo de reflorestamento, garantimos sustentabilidade ao negócio, diz o gerente.

Embrapa estuda projeto de melhoramento
A Embrapa desenvolve já há alguns anos pesquisas com teca. Um grande gargalo para o desenvolvimento da teca no melhoramento é que a gente supõe que a nossa diversidade de teca seja pequena. Na história da introdução no Brasil, uma variedade só foi trazida. Por essa história, imaginamos que não tenha tanta alternativa para fazer cruzamentos e melhorar a espécie. Estamos desenhando estratégias para avaliar qual a diversidade de teca que a gente tem. Se for muito restrita essa diversidade, vamos tentar partir para uma estratégia de buscar fora do Brasil as variedades interessantes para nós, relata Guilherme Schuhli.

O pesquisador diz que a Embrapa está avaliando para ver que papel vai desempenhar na tarefa de fazer com que a promessa da teca se cumpra. Isso conta com parceiros. A Embrapa não tem condições de desenvolver isso sozinha. Qualquer programa de melhoramento que a gente pense com teca vai depender de um projeto muito amplo, que vai envolver as universidades e principalmente empresas privadas, que possam subsidiar esse projeto com áreas de plantio, com a manutenção dessas áreas, a entrega de material genético, justifica.

A Embrapa está decidindo se abraça esse tema como um projeto de melhoramento. Isso envolve pensar em técnica de silvicultura, técnica de plantio, o zoneamento da teca. É um momento de prospecção para a gente, de ouvir todo mundo, todas as partes, os pesquisadores, os produtores principalmente, finaliza o pesquisador.

Fábio Galão


Fonte: Folha de Londrina














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