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Terça-feira, 29 de junho de 2010 - 07h39m

Agricultura > Trigo

Paraná finaliza plantio de trigo em clima de apreensão



Curitiba/PR

A redução de 10% no preço mínimo do trigo, anunciada na semana passada pelo governo federal, criou um clima de insegurança entre os triticultores paranaenses. Eles estão finalizando o plantio de uma safra que prometia ser boa, favorecida pelo La Niña, mas que agora pode acabar em frustração. Com produto de ciclos passados acumulando nos armazéns e a dois meses do início de uma nova colheita, os produtores não sabem ao certo como será a comercialização da produção.

A revisão dos valores foi autorizada na última terça-feira pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão ligado ao Ministério da Fazenda. No dia seguinte, o Ministro da Agricultura, Wagner Rossi, anunciou que a redução será de 10%. Mas, para valer, os novos preços precisam ser regulamentados por uma portaria do Ministério da Agricultura (Mapa), que ainda não saiu. O governo corre contra o tempo para editar a portaria até amanhã para que os novos preços entrem em vigor em 1º de julho, quando começa um novo ano-safra.

No meio tempo, a cadeia produtiva se mobiliza para reverter a decisão e evitar a publicação da portaria. Logo após o anúncio do Mapa, a Federação da Agricultura do Paraná (Faep), a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) e a Secretaria Estadual da Agricultura (Seab) enviaram ofícios à Brasília solicitando o cancelamento do reajuste. A Faep questiona a legalidade da alteração, argumentando que a revisão do preço mínimo do trigo acontece fora do prazo estipulado pela legislação que instituiu as normas para a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM).

Procurando pela reportagem, Rossi informou, por meio de sua assessoria, que ainda não recebeu os documentos e que só irá se pronunciar sobre o assunto após o comunicado oficial. Já o coordenador geral da Secretaria de Política Agrícola do Mapa, Sílvio Farnese, confirmou o recebimento do ofício da Faep e disse que o pedido será encaminhado ao departamento jurídico do ministério para apreciação.

Em entrevista à Gazeta do Povo, ele relatou que a portaria do Mapa que regulamenta a alteração dos valores de referência do trigo estaria pronta, aguardando apenas a assinatura do ministro para ser editada. Questionado quanto à legalidade da medida, Farnese reconheceu que a alteração do preço mínimo neste momento vai contra o Decreto-Lei 79, de 19 de dezembro de 1966, que diz que a mudança do valor deve ser feita com 60 dias de antecedência ao início da safra.

No Paraná, o plantio da safra de trigo de 2010 teve início no final de fevereiro, o que significa que a portaria do Mapa teria que ter sido editada em dezembro de 2009. “Se queria reduzir o preço mínimo do trigo, o governo perdeu as duas oportunidades que teve. Uma, que seria o prazo legal, em dezembro de 2009 ou até janeiro de 2010. E outra neste mês, quando anunciou o Plano Agrícola e Pecuário 2010/11”, observa o assessor técnico da Faep, Pedro Loyola.

“Foi uma decisão unilateral, tomada de forma intempestiva em um momento em que 87% do trigo do Paraná já estão no campo. Lastimamos a medida, pois ela vai contra os próprios interesses do país. É inoportuna, inadequada e inconcebível”, considera João Paulo Koslovski, presidente da Ocepar.

“O governo federal alterou as regras no meio do jogo. Não podemos ficar omissos. O trigo é uma questão de se­­gurança nacional. O que o produtor quer não é tirar vantagem do governo, mas sim abrandar os prejuízos que vem tendo nos últimos anos”, afirma o secretário estadual da Agricultura, Erikson Camargo Chandoha.

Impacto na redução da área de cultivo só virá na próxima safra
Mesmo que seja confirmada, a redução do preço mínimo do trigo não deve alterar a área de plantio do Paraná nesta safra 2009/10. A notícia chegou quando a maior parte das lavouras do estado já havia sido implementada. Levan­­tamento do Departa­­mento de Economia Rural (Deral) da Secre­taria Estadual da Agricultura (Seab) mostra que mais 90% já estão no campo. Mesmo nas regiões onde o plantio ocorre mais tarde, como nos Campos Gerais, não há tempo para mudar os planos. Com os insumos comprados, produtores lamentam a medida.

“Neste ano não vou desistir do trigo porque já comprei tudo, mas sei que vou plantar prejuízo”, diz o produtor Anton Gora, de Guarapuava. Antes de saber da decisão do governo, Gora já havia decidido diminuir em 10% a sua área de plantio de trigo. Os preços baixos e a falta de liquidez do mercado desestimulam o investimento na cultura. “Planto por questões agronômicas, porque não dá para ter lucro com o trigo. Na verdade, se ficar no empate já está bom porque reduz o custo da soja. Mas com esses novos preços nem no empate vai dar para chegar”, calcula.

Se a redução do preço mínimo for confirmada, Gora pretende estudar outras opções de inverno para a próxima safra. E certamente não será o único, considera o presidente da Ocepar, João Paulo Koslovski. A alteração dos valores de referência do trigo terá um impacto muito forte nos próximos anos, afirma. A decisão vai tirar da atividade os produtores menos tecnificados, conclui o assessor técnico da Faep, Pedro Loyola.

O Paraná é o hoje o maior produtor de trigo do país, responsável por quase 60% da oferta nacional do cereal. Neste ano, deve plantar 1,14 milhão de hectares, área 13% menor que a do ano anterior. Mas, com clima favorável, tem potencial para produzir 15% mais, num total de 3,1 mi­­lhões de toneladas.

Sem apoio, setor alerta para o risco de desabastecimento
A decisão de reduzir o preço de referência do trigo vai contra uma política de incentivo à cultura lançada pelo governo federal em abril de 2008. O Plano Nacional do Trigo tinha a ambiciosa meta de reduzir a dependência brasileira do produto importado. O objetivo era elevar a produção nacional para que, até 2012, ela pudesse suprir 70% do consumo do país. Atualmente, o Brasil produz cerca de 5 milhões de toneladas do cereal e, para suprir uma demanda doméstica estimada em 10 milhões de toneladas, im­­porta ao menos 5 milhões de toneladas do grão por ano.

O caminho rumo à autossuficiência incluía medidas de apoio à produção, como reajustes no preço mínimo do trigo e facilidades no acesso ao crédito. Mas agora, apenas dois anos após o seu lançamento, o plano começa a ser desconstruído. Os novos valores anunciados pelo ministro Wagner Rossi na semana passada estão muito próximos daqueles vigentes na safra 2007/08. Na época, o preço de garantia do cereal, que considerava apenas o pH do grão, era de R$ 28,80 a saca para a Região Sul (tipo 1).

Os preços mínimos fixados para a safra 2009/10 variam de R$ 19,20 (brando tipo 3) a R$ 29,97 (melhorador tipo 1) por saca de 60 quilos, conforme as características químicas (força de glúten, número de queda, en­­tre outras) e físicas (pH) do grão. “Reduzir o preço mínimo foi a forma elegante que o go­­verno encontrou para dizer que não vai apoiar o trigo. Porque com esses valores a conta não fecha”, analisa o assessor da Faep, Pedro Loyola.

Para o trigo pão, mais produzido no Paraná, o valor foi fixado é R$ 28,62 (tipo 1), sendo que o custo operacional de produção da Conab na região de Cas­­ca­­vel (Oeste) é de R$ 33,27/saca. Com preços abaixo do custo, o risco é de desabastecimento, avalia o presidente da Ocepar, João Paulo Koslovski.

Luana Gomes


Fonte: Gazeta do Povo














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