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Segunda-feira, 07 de julho de 2008 - 07h56m

Agronegócio > Cooperativismo

PR: tilápias com mercado certo



Cafelândia/PR

O clima na propriedade administrada por Paulo Maurício dos Santos é de muita expectativa. O patrão acaba de lhe confiar mais uma atividade além dos cuidados com três aviários. A chácara de 4 alqueires é uma das propriedades que participam do projeto de produção integrada de peixes conduzido pela Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), em Cafelândia, no oeste do Estado.

Para a atividade foram construídas duas represas com total de três hectares (ha) de lâmina dágua e com capacidade de produção estimada em 12 toneladas/ha/ano. As represas receberam os primeiros lotes de peixes há dois meses e a retirada para o abate está programada para dezembro. Paulinho, como é chamado, irá dividir as responsabilidades da piscicultura com o filho Paulo Rael, de 16 anos.

O adolescente já domina as técnicas de cuidados com a água, como o controle de qualidade, PH, transparência, temperatura, além da nutrição e acompanhamento da evolução dos peixes com as pesagens (biometria). A propriedade traz alguns diferenciais, nas represas foram instalados equipamentos que permitem a automatização de parte do manejo, como os tratadores e os aeradores.

Segundo o engenheiro de pesca Nestor José Braun, responsável pelo acompanhamento do projeto, o tempo de evolução de cada lote de peixes varia entre quatro a oito meses com as tilápias atingindo 650 gramas - peso médio ideal para o abate. É possível a retirada de três lotes de peixes a cada dois anos, explica.

A piscicultura vem como mais uma opção de produção aos cooperados da Copacol, já conhecida pela produção de grãos, aves e suínos. Na semana passada a cooperativa inaugurou um abatedouro de peixes com capacidade de processamento de 50 toneladas por dia, meta a ser atingida em 2012. Até lá, estão sendo abatidas 10t/dia de tilápias.

Para o projeto foram selecionados 150 cooperados, 70% deles de pequenos produtores. O investimento médio é de R$ 20 mil por hectare de lâmina dágua. Nesta primeira fase, 60 propriedades já estão em plena produção. O objetivo, destaca Braun, é oferecer mais uma opção de renda aos produtores sem a necessidade de mais área de produção. Os parceiros irão aproveitar áreas já disponíveis na propriedade construindo as represas seguindo as normas ambientais já existentes.

A parceria com a cooperativa segue os mesmos padrões da avicultura. A Copacol oferece os peixes, ração, acompanhamento técnico, além de pessoal especializado para a retirada dos peixes. Cabe ao produtor a construção das represas com boas condições de acesso aos veículos que trazem e levam os cardumes, além da mão-de-obra para a condução do criatório. O rentabilidade deve variar de R$ 0,30 a R$ 0,80/kg. A média de resultados está estimada em R$ 0,62/kg, calcula o técnico da cooperativa.

Peixes juvenis diminuem perdas
Entre os 150 parceiros integrados ao projeto de piscicultura da Copacol, três foram selecionados para o fornecimento dos peixes juvenis, num total de 15 hectares de lâmina dágua. Estes produtores recebem os alevinos com peso médio de 1 grama e cuidam da evolução dos mesmos até atingirem 30 gramas.

A entrega de peixes juvenis, explica o engenheiro Nestor Braun, diminui o índice de perda para 5%. Além da morte natural há ainda as perdas por predadores, como as aves que roubam peixes em desenvolvimento.

No inverno, o desenvolvimento é mais lento. A temperatura, explica Braun, determina o metabolismo do peixe. Em águas mais frias, a circulação de sangue no organismo é mais lenta e com isso o consumo de ração também é menor. No frio, o peixe fica quase que em estado de dormência, explica.

No verão, o tempo de produção de cada lote é de quatro meses. A conversão alimentar fica entre 1,3 quilos de ração para cada quilo de peixe. Além da ração, as tilápias também se alimentam das algas que se formam na represa. O controle da qualidade da água é feito por adubação química a base de superfostato e uréia.

Nestor explica que os diferenciais de automatização instalados na propriedde visitada pela equipe da FOLHA RURAL não são exigência para todas as propriedades. A maioria dos parceiros têm sistemas menos tecnificados mas nem por isso perdem na qualidade do produto, garante. A produtividade média do projeto por propriedade está estimada em 3,5 toneladas por lote de peixes.

Após a retirada de cada lote as represas esvaziadas passam por um processo de desinfecção com o uso de cal virgem.


Abate ocorre por choque térmico
Os peixes chegam vivos ao frigorífico e passam por um processo de depuração, que leva cerca de 18 horas. Neste período os peixes eliminam todas as impurezas e restos de ração. Seguem limpinhos para o abate, explica Nestor Braun. O abate ocorre por insensibilização, ou melhor, os peixes são retirados da água em temperatura adequada e transferidos para o gelo - um choque térmico, simplica o engenheiro de pesca.

No mix de produtos a Copacol oferece filé in natura, filé temperado, costelinha, iscas, linguiça e salsicha de tilápias, elaborados pela equipe de Pesquisa e Desenvolvimento de Produtos.

Espinhas e pele de peixes, por enquanto, são aproveitados no preparo da ração. Segundo a assessoria, há interesse no uso da pele das tilápias para fabricação de outros produtos, ainda em estudos.

Na construção do abatedouro de peixes foram investidos R$ 15 milhões. A cooperativa vai utilizar as estruturas disponíveis para os frangos na distribuição da nova linha. 

Tecnologia garante rastreabilidade das tilápias
A piscicultura quando conduzida por projetos não é poluente, não causa impactos ambientais. Temos tecnologias que garantem a não poluição das águas, afirma o engenheiro agrônomo Ricardo Neukirchner. A segurança da atividade segundo ele é a mesma nos dois sistemas de cultivo utilizados, em tanques escavados (represas) ou em tanques-rede (gaiolas instaladas em reservatórios maiores). O que muda é apenas o sistema de criação: aberto ou fechado com cultivo mais intensivo, explica.

Sobre a dieta alimentar dos peixes, Neukirchner diz que são utilizadas rações naturais, sem qualquer tipo de aditivo, produzidas à base de soja ou milho e farinha de peixe. Nos cultivos em cativeiro é possível garantir a qualidade da carne e de seu sabor, diz ele explicando que o tipo de alimento recebido pelo cardume pode interferir no gosto. Há peixes da natureza que apresentam sabor de barro. Esse gosto é concedido por um tipo de alga presente na flora fluvial.

Peixe também não toma remédios. A tilápia, especialmente, devido a sua rusticidade, não registra doenças ou parasitas que a afete, garante o técnico.

A empresa Aquabel, segundo ele, é pioneira no Brasil na produção de alevinos 100% machos (incubação artificial). A tecnologia de produção de tilápias importada da Noruega, em parceria com uma empresa de lá, garante inclusive a rastreabilidade da carne, por meio do DNA do peixe.

Podemos pegar um filé de peixe no prato de uma pessoa em qualquer lugar do mundo é saber se ele nasceu aqui. Esta informação ainda não é utilizada porque não há exigência de lei, mas está pronta para ser consultada a qualquer momento, acrescenta Neukirchner.

A empresa de Rolândia cuida atualmente da produção de 2 milhões de alevinos de tilápias por mês. Este ano instalaram duas novas filiais, em Goiás e Mato Grosso do Sul. Com isso, a produção, a partir deste semestre, está estimada em 5 milhões de alevinos/mês.

Piscicultura é rentável e acessível como a avicultura
A piscicultura no Brasil tem potencial para se tornar uma atividade rentável e acessível como a avicultura. A afirmação é do engenheiro agrônomo Ricardo Neukirchner, um dos proprietários da Piscicultura Aquabel, de Rolândia, maior laboratório de produção de alevinos do País.

A abertura de novos frigoríficos como o da Copacol, na opinião de Neukirchner, tende a melhorar a oferta e baixar o preço do produto para o consumidor, facilitando assim a introdução do alimento na dieta da população com mais constância.

O empresário acaba de assumir a diretoria de Aquicultura da Sociedade Rural do Paraná, criada este ano com o objetivo de fomentar a atividade, além de profissionalizar produtores e contribuir para a legalização das propriedades.

A produção de peixes, segundo o agrônomo é uma atividade relativamente nova, que surgiu mais voltada ao lazer e à produção de subsistência, e depois para atender a demanda dos pesque-pagues. O surgimento dos frigoríficos tem popularizado a piscicultura. Apesar do potencial comercial, a legislação é apontada por Neukichner como principal entrave. Há muito conflito entre o que determina a lei federal e a estadual, diz ele, especialmente aqui no Paraná. Este ano a publicação da Resolução 02/2008 está permitindo a liberação de licenças para criatórios já instalados.

Para a tilápia - na atualidade a melhor espécie para a produção em grande escala - os conflitos são ainda maiores. Por não ser um peixe nativo, classificado como espécie exótica há quem o coloque como uma ameaça à fauna do estado. Documentos do próprio Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) declaram a tilápia como espécie já estabelecida nos rios de todo o País, informa Neukirchner.

A tilápia não é um peixe carnívoro, assim, não pode ser considerado um predador, garante. Outra característica que a afasta do risco de ameaça ou de competição com outras espécies, de acordo com o empresário, é a de viver nas áreas de águas rasas dos rios.

Entre as características comerciais do peixe o diretor da Aquabel lista o rápido crescimento, menor custo de produção, resistência a doenças e o excelente filé sem espinhos retirado dele - corte de interesse para a indústria. Fora do Brasil a tilápia é o peixe economicamente mais trabalhado, é uma commodity, afirma.

Neukirchner derruba ainda o argumento de a atividade ser poluidora. O cultivo tanto em tanques redes como em represas escavadas tem baixa densidade populacional e não gera poluição, garante. Ele lembra ainda que o próprio Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) considera a piscicultura como uma atividade de baixo impacto. A produção comercial de peixe não é também considerada uma consumidora de água, apenas usuária, reforça.

O empresário destaca que a tilápia é uma das poucas espécies que resistem a água de qualidade ruim. A atividade depende 100% de água, somos, então, os primeiros a nos preocuparmos com a qualidade dela. As regras determinadas pela Lei, são as principais garantias para uma produção segura. A burocracia para a atividade no estado, faz com que o Paraná deixe de ofertar muitos empregos e perca milhões em renda, conclui.


Célia Guerra


Fonte: Folha de Londrina














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